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notícias de cingapura

* aviso ao leitor: este post contém palavras de baixo calão, linguagem chula e escancarada apologia ao errado, ao imoral e ao politicamente incorreto.

E eis que das cinzas ela renasce, feito Fênix de tetas,  MORTA de saudades, gente bonita!

Daí resolvi mandar filho e marido pra piscina e resumir um pouco do que aconteceu desde a última vez que a gente se falou. Então senta, coloca as crianças pra brincar com  massinha e põe a skol pra gelar, que lá vem história.

Da viagem

Reza o Código Internacional de Viajantes que:

Um lugar é considerado longe pra caralho distante quando, pra chegar nele, o sujeito tem que enfrentar 2 vôos longuíssimos, 20 comissários de bordo, 6 pilotos, 8 malas, turbulências moderadas e perrengues incontáveis, que envolvem uma criança de 2 anos, uma mãe descabelada e um pai tentando evitar, sem êxito, que referida criança enfie o dedo indicador na narina do passageiro ao lado.

O homem que teve o nariz invadido ficou fulo da vida dele e eu não tiro a razão do passageiro – afinal, existem mil maneiras mais agradáveis de ser acordado do que com um dedinho bisbilhotento na narina da gente.

Por outro lado, nem acho que a intenção do filhote tenha sido azucrinar o alemão, não. Arrisco dizer, inclusive, que o objetivo de tamanha bisbilhotagem era puramente estético, já que, de avantajadas narinas, brotavam pêlos de tamanho bastante significativo. Na boa, até eu fiquei com vontade de dar uma podada na juba nasal do rapaz.

Parece boa pessoa, mas é um pinçador profissional de narinas

Da chegada

Nós decidimos dividir o trajeto Rio-Cingapura em duas partes : primeiro voamos do Rio a Paris, onde passamos 5 dias.

uma paradinha em paris pra ver família e usar gorro de tigre

Mal nos adaptamos ao fuso horário francês e já era hora de embarcar pra mais um vôo longo, dessa vez pra Asia. Minha Nossa Senhora do Guaraná em Pó, que gastura.

Só sei que, no final, chegamos em Cingapura as 19:00 – horário local, o que significava MEIO DIA no horário dessa mãe exausta que vos escreve. Até que acomodamos as 8 malas no nosso apart-hotel e tal e coisa já eram 21:00 no horário local, 2 da tarde no nosso relógio biológico. Pensei, vou tentar:

– Noah, olha só, eu sei que você tá acordadão, mas aqui já são 9 da noite, hora de dormir. A gente vai ter que fazer um esforço e ir pra cama agora, tá bom? Assim, amanhã a gente acorda em horário local adequado. Combinado?

Ele nem respondeu nada, só fez que não com a cabeça. Mas eu sei que, se já tivesse idade pra expressar exatamente o que pensa, o rapaz daria uma gargalhada colossal,  e me diria:

– Claro, sua lunática, claro. Vou guardar toda essa minha energia de pessoa de 2 anos e 2 meses e ir dormir, só pra você ficar feliz e satisfeita. Não quer que eu escove os dentes também, maluca?

Só sei que deu DUAS da manhã (umas 6 da tarde pra gente) e estávamos os três lá, deitados na ponte de um parque qualquer, olhando pro céu e conversando. O que me dá raiva é ter certeza absoluta que em algum momento alguma mãe passou, nos viu deitados na ponte, cutucou o marido e falou:

– Agora olha praquilo e me diz, Arnaldo Jin Huan Lan, o que faz uma criatura irresponsável daquela, que me traz uma criança pra rua às 2 da manhã, pensar que tem o menor talento pra ser mãe, me diz?

Que mãe é mãe, não importa em que continente ela esteja.

A Cidade

– Amor, vai me dizer que você também não acha estranho?

– Estranho o que, Roberta?

– Essa perfeição toda, isso tudo é muito esquisito, amor! Pensa comigo: a cidade é linda, limpa, organizada, cheia de atrações infantis, extremamente segura, a comida é maravilhosa…Tudo parece muito perfeitinho, François! Alguma coisa deve estar muito errada e eu vou descobrir o que é. Ah, vou.

-Neurose.

– Que? Quem?

– Neu-ro-se, o nome da doença é neurose. E diz que só cura com acompanhamento médico.

Deixa ele me chamar de louca que eu não ligo, não. De hoje em diante, minha nova missão de-vi-da é descobrir que raios há de errado nessa cidade.  Porque cer-te-za que alguma estria, unha encravada ou celulite ela há de ter. Deixa comigo.


Falta de Paciência

Já tem um mês que filhote e eu estamos, evidentemente, grudados um no outro 24 horas por dia. E num hotel, ainda por cima, já que ainda estamos buscando apartamento.

O lado negativo de ficar tanto tempo junto é que a paciência fica inversamente proporcional ao tempo em que vocês estão grudados.

Exemplo: ontem ele decidiu que jogaria seus peixinhos de plástico na privada. Quando eu entrei no banheiro, virou pra mim e disse “essa é a piscina dos peixinhos, mamãe”.

Então vejamos o que diria uma mãe de espírito elevado, dotada de paciência e pernas depiladas:

Meu filho, mas o que é isso?! Eu entendo a associação que você fez, uma vez que este vaso sanitário pode sim remeter a uma idéia de piscina de seres pequenos, como são estas réplicas de peixinhos. Mas entenda que esta água não é limpa e pode acabar trazendo doenças. Vamos lavar bem as mãos?”

Agora vejamos o desfecho da mesma cena, desta vez por uma mãe cronicamente estafada, pernas  peludas e cutículas saindo pelo ladrão:

“Caralho, Noah, a mão na privada não! Vamo já lavar essa mão antes que você pegue uma difteria, uma febre tifóide, uma malária, uma conjuntivite e a porra toda. Mas que merda, filho!”

Adaptação

Pois o filhote já fala hello, bye bye e thanks. A melhor amiga dele, aqui no hotel, é da Finlândia, vejam vocês. Eu não tenho idéia de como raios eles dão conta, mas os bichinhos se comunicam, brincam, trocam segredos e combinam de brincar mais amanhã.

Cingapura é composta, em grande parte por estrangeiros, muito europeu, muito americano, enfim são milhares e milhares de gringos, que, como nós, vieram parar aqui em terras asiáticas a trabalho.

melhores amigos, eles se comunicam em piscinês

Noah sempre empresta seus brinquedos pra um garotinho suíço, pouco mais velho que ele. Dia desses o suíço finalmente trouxe um brinquedinho pra piscina e Noah foi brincar um pouquinho com tal bonequinho do amigo suíço. O suíço não gostou e arrancou o brinquedo das mãos do filhote. Vocês acreditam que a mãe suicenta, mesmo sabendo que o filho dela brinca com os brinquedos do Noah TODOS OS DIAS, pediu pro meu filho devolver o bonequinho muito do paraguaio, porque esse era o brinquedo favorito do filho dela???

Ai, na hora pensei tanto em vocês. Arranquei o brinquedo do Noah, devolvi pro suíço e disse assim pra mãe dele:

– Eu entendo isso de brinquedo favorito, não se preocupe. O jacaré com que seu filho sempre brinca também é um fa-vo-ri-to do meu filho, mas sou EU que insisto que ele empreste, que aprenda a dividir.

(tudo isso dito com ar desaforado, mãozinha na cintura, ao melhor estilo “suburbana-versus-gringa”)

Alguns minutos depois o suicinho já estava pegando os brinquedos do filhote de novo.

Então vejamos o que diria uma mãe de espírito elevado, dotada de paciência e pernas depiladas:

“Filho, não guarda rancor e empresta o seu brinquedo pra ele. Assim você ensina pro menino que dividir é legal.”

Agora vejamos o desfecho da mesma cena, desta vez por uma mãe cronicamente estafada, pernas  peludas e cutículas saindo pelo ladrão:

“Filho, corre lá e arranca o jacaré da mão daquele moleque. Que nem fodendo que aquele projeto-de-mão-de-vaca-suíça vai brincar com suas coisas”.

Mãe Amiga

Outra consequência de se ficar grudada na cria 24 horas por dia, todos os dias, é que vocês passam a ter código e condutas que só melhores amigos possuem: risada de porquinho, concurso de arroto, linguagem própria. Este último vale um post, e aconteceu de maneira bem natural: do nada começamos a arrancar a última sílaba das palavras.

Estou na cozinha e digo “Noah, quer um pouco de su?” E começamos a rir. Então ele vai pra piscina e grita “socô, socô”. E a gente se acaba de rir. Mamãe virou mamã, cadeira virou cadê, suco é SU, socorro é socô. Hoje de manhã ele ampliou nossa linguagem secreta, chamando chafariz de chafalá (vide vídeo).

Noah também deu pra compor músicas com uma batida meio gospel, digamos assim. A letra me remete a uma mistura de música evangélica com A metade da laranja, de Fábio Júnior, e diz assim:

“Agonição, agonição, agonição

De amor, de amor”

Eu registrei essas e outras maluquices nesse vídeo. Isso que dá passar o dia inteiro a la grudê.

Um bom ano pra nós todos, gente bonita.

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mãe desprendida, mãe neurótica

Todo mundo sabe que fazer as malas pra mudar de país é exercitar o dom do desprendimento.

E ser desprendida  é reduzir a sua bagagem e selecionar apenas e tão somente aquilo que você efetivamente vai usar lá do outro lado do mundo.

Na prática isso significa parar na frente do seu armário, analisar peça por peça e ser dolorosamente sincera com você mesma.

O seu vestidinho vermelho, por exemplo. Eu sei que ele te acompanhou em baladas inesquecíveis e só traz boas lembranças daquele fim de semana em Angra. Mas, pensa comigo – ele só fazia sentido quando você chegava na balada em câmera lenta, com cara de mistério e drink na mão.  Esse vestido não combina, meu bem, de jeito nenhum, com seu novo estilo maternidade de chegada triunfal: carrinho em punho, bolsa térmica em mãos e um pentelhinho de pouco mais de 90 centímetros que faz questão de levantar o rodopiante vestido para se esconder bem ENTRE as suas pernas. Não, querida, não ORNA.

Portanto, o vestido fica. Good bye, my friend.

Quando o assunto é sapato, a realidade pode ser ainda mais dolorosa. Sabe aquele par  de sapatos que você a-do-ra e que  são seus fiéis escudeiros pra festa classuda? Pois é, eles também ficam.

Porque existe uma razão, cara amiga mãe, desse arraso de sensualidade saltos 15 estarem esquecidos no fundo do armário: esse par de belezura está munida de saltos pré-maternidade. E embora esse lapso não venha escrito no manual-pré-filho,você e eu sabemos que a maternidade traz consigo a total incapacidade de deslizar em saltos muito altos. Seja porque seu pé cresceu (o meu nunca mais voltou ao tamanho de antes), seja porque eles não foram feitos pra equilibrar o seu peso + o peso do seu filho juntos.

Então, moça, respira fundo e exercite o tal desprendimento: os sapatos sexy mamma ficam.

E assim você vai reduzindo a sua vida inteira de ornamentos a uma, duas malas. E tudo bem. Não faz sentido atravessar oceanos com tralhas que nunca mais serão usadas.

Então você respira fundo e se sente orgulhosa do ser desprendido e elevado em que você se transformou. Uma pessoa livre da materialidade e das amarras do capitalismo – praticamente uma BUDA de tetas.

(Mas a elevação toda acaba assim que você descobre que a Dior vai liquidar estoque  BEM na semana em que você chega em Cingapura!!? Agora, se isso não for intervenção divina…)

***

Dito isto, pensei que seria missão fácil essa de exercitar o desprendimento em relação aos brinquedos do Noah. Porque não dá pra levar tudo, gente. Mas também não dá pro rapaz mudar de país, dizer tchau pra família e amigos e – ainda por cima – perder contato com o coelho Pepe pra sempre? Ah, não.  Alguns brinquedos a gente vai ter que levar.

(Abre parênteses pra explicar que nós optamos por não levar nossas coisas da casa em containers. Elas ficam, a gente compra tudo novo por lá. Essa é uma das opções dadas pela empresa – eles economizam com o container e, em troca, te ajudam a comprar tudo novo. Vale a pena, uma porque você nem sabe se seus eletros vão funcionar por lá (ou se existe assistência técnica etc) e duas porque Cingapura oferece tudo de mais moderno e bacana. Se eu estou me desfazendo do vestidinho vermelho e sapatinho sexy mamma acho que posso tranquilamente abrir mão do liquidificador walita, concordam? Fecha parênteses.)

Ocorre que, putamerda, como é difícil optar entre um teclado que ele começou a tocar aos 8 meses de idade ou um cachorro no qual ele tropeçou quando começou a andar. Tudo me remete a lembranças, tudo tem sua importância, nada é dotado de insignificância ou desdém. Afinal, essa é a história do meu filho. E o que pode ser mais importante que isso?

Mas o que tem que ser feito, tem que ser feito. E assim eu começo a doar os brinquedos que não poderão ser levados com a gente. Ando tão sentimental em relação a isso que desistimos de vender a mobília do pequeno e resolvemos doar pra um orfanato. Não que a história de vida do Noah não estaria em ótimas mãos (meninas, obrigada pelo interesse em comprar tudo!) mas porque concluimos que existem crianças que carecem de tudo – inclusive de história. E torcemos pra que o berço ou o cadeirão do filhote não sejam somente úteis, mas que sejam parte da história de alguém (que não tem história).

Ai, caraca, olha o chororô.

Daí que eu já dei alguns brinquedos, e confesso que me senti muito bem imaginando o rostinho das crianças que os receberiam. Até que chegou a hora da Bia ( A Girafa) e o Romero (O Camelo Caramelo). Daí, malandro, a casa caiu.

– Alô, amor – diz a mulher, aos prantos.

– Que foi? Que aconteceu???

– Nada importante, não se preocupa. Cê tá em reunião?

– Tô em reunião – sussurra o marido – O que aconteceu???

– Não me faça escolher entre a Bia e o Romero – responde a mulher, aos prantos – Eu te imploro: não me faça optar por um ou outro! Buáááááááááá…

– Que? Que Romero? Que Bia? Do que você tá falando, Roberta? – sussurra o marido.

– Como que Bia, François!? A girafa Bia! E o Romero, o camelo caramelo! Eu não posso ser forçada a fazer com que nosso filho viva sem um ou sem o outro!! Isso não tá certo, coitadinho!! Buááááááááááááá!

– Não fica assim – diz ele, já com voz de quem pediu licença e saiu da reunião – Olha, a gente leva os dois, tá bom?

– Promete? Buáááááááááá…

– Prometo. Nunca nessa vida a gente vai embora sem levar a Bia e o Romero. Combinado?

– Combinado. E sabe aquele meu casaco listrado? Aquele que você disse que eu nunca uso e que era melhor dar pra alguém? Então…eu quero levar ele também. Porque eu usei ele direto na gravidez do Noah…snif.

– Leva o casaco.

E o pobre marido volta pra reunião e passa a tarde inteira pensando em que merda ele ainda poderia tirar das malas dele, só pra fazer mais espaço pros brinquedos do filho( e pras neuroses da mãe).

Mas me diga, amiga (o) leitor (a):  Por acaso é fácil quando a vida nos prega peças e nos faz optar entre a girafa e o camelo?

(tô carente, sou perigosa mãe e tenho um teclado em mãos – é favor não me contrariar.)

invadiram meu blog

Post vapt vaptu pra dizer duas coisas:

1. Lembra da Dona Zica?

Pois ao que parece ela continua firme e forte na vida dessa que vos escreve: a gripe persiste, o olho segue roxo e – atenção! – meu blog foi invadido por um desgraçado qualquer que achou deveras engraçado sair apagando meus posts (quatro, pelo menos).

Não contente em apagar minha história, o espírito de porco ainda achou por bem acrescentar palavras de baixíssimo calão aos posts não apagados. Tipo pereba, bunda, pinto, gay…e aquela outra muy graciosa palavra…a que rima com maçaneta, sabe qual? Pois é.

Reli alguns posts e apaguei muita safadeza escrita, mas certeza que outras muitas devem me ter escapado.  Triste, muito triste. Mas é isso que dar conectar ao blog em computador público e esquecer de fazer o log out antes de sair.

A sorte é que, ao escrever um post, o wordpress me manda ele todinho por email. Então recuperei dois dos posts. Mas os comentários se foram.

2. Outra coisa:

Não dá pra culpar a pessoa que não saiba muito a respeito de Cingapura, dá?Um país feito de uma só cidade, que é do tamanho de Salvador e fica na casa do carvalho acaba não fazendo lá muito parte da nossa realidade.

Como é sexta feira, vai chover fim de semana e você tem filho pequeno (e, portanto, não tem controle sobre sua outrora agitada vida social), eu copiei  esses quatro vídeos produzidos pela TV Record (ai-que-me-da) que esclarecem um pouco a respeito desse país distante, próxima moradia desta família retirante (ui, adoro quando rima).

Um pouco enjoativo isso de eles se gabarem tanto (uma das maiores economias do mundo, quase zero de violência, o maior zoológico, o único safari noturno, o maior número de milionários, o maior cinema dentro de aeroporto, a maior área tropical dentro da cidade, a ilha mais hightech, bla bla bla).

No momento, nenhuma dessas estatísticas me importa: eu só queria morar num lugar onde não apagassem meus posts. Humpf.

Bom fim de semana, gente bonita. Espero que gostem dos vídeos:

Cingapura?! Quéquéisso??

Sobre as comidas : gelatina de grama

Uma mãe bagunceira perdida num lugar onde tudo funciona

Vivendo com os orangotangos

Mamãe, eu quero morar no aeporto

Os vídeos eu tirei daqui.

hambúrguer de pombo e… bye bye brasil!

Minha infância, como a infância da maioria das pessoas, foi infestada de piolhos, pirulitos cheios de corante e equívocos de toda sorte.

Eu achava, por exemplo, que era esquisito isso de ter gente passando fome se tinha tanta banana no mundo.  Só com o tanto de banana que tinha na minha casa dava pra matar a fome de pelo menos umas 17 crianças por uns 5 dias e meio. Somem-se a essas, as bananas da vizinha, e o mundo estava completamente alimentado.

Aí minha mãe me explicou que as pessoas precisavam de um cardápio um pouco mais completo. E que ninguém podia viver só de banana.

Foi quando eu pensei nos pombos.

Pombo era feito de carne, era baratinho e ninguém gostava deles vivos. Então eu levantei o braço e falei pra professora que o meu projeto na Feira de Ciências seria sobre como acabar com a fome na áfrica com banana e hambúrguer de pombo.

A professora disse que era muito nobre da minha parte querer acabar com a fome mundial.  Ela veio na minha direção sorrindo, passou a mão na minha cabeça e, como uma boa professora saída dos anos 80, barrou o meu projeto pra sempre.

***

Como qualquer criança, também já fui vítima de alguns equívocos cometidos por terceiros. Um deles me marcou muito, quando eu tinha uns 4 anos.

Era dia da árvore e todas as crianças tinham que ir pra escola vestidas de arbusto.

Nunca vou esquecer de como fiquei eufórica ao ver que minha mãe tinha separado uma roupa inteirinha verde, inclusive sapatos e meias. E, para completar o visual arbóreo, eu levava ainda galhos atrozes e reluzentes, nas pernas, nos braços e na cabeça.

Entrei no carro e minha mãe foi dirigindo pra escola. Lembro direitinho de experimentar a sensação de felicidade plena: eu era uma árvore, minha mãe era incrível e a vida era perfeita.

Nem a fita Basf emperrada no toca fitas do carro, que tocava a mesmíssima música de Maria Bethania havia MESES me incomodava. Eu era uma árvore e árvores são imunes a esse tipo de chatice cotidiana.

Nem o garoto Cleiton, que me perseguia no parquinho da escola e roubava meus biscoitos mirabel, seria capaz de arruinar meu dia. Eu era uma árvore e árvores eram bondosas, compreensivas e, a depender da espécie, podiam até ficar carregadas de mirabel de janeiro a abril.

Então eu me despeço da minha mãe e cuidadosamente saio do carro, eu e meus dezoito galhos.

Subo lentamente a escadaria da escola. Quando enfim me aproximo do portão de entrada começo a ouvir risadas, primeiramente tímidas, e logo depois histéricas. Olho em direção às risonhas criaturas e elas estão, na verdade, apontando pra mim.

Sinto um frio no estômago e um pavor súbito, daqueles que criança sente quando percebe que pode estar diante de um fiasco-devastador- de-moral. Daqueles que te forçam a ser transferida de escola, trocar de cidade e a mudar o nome pra sempre.

Mas não, eu não tinha porque me amedrontar. A vida era perfeita e eu era uma árvore vistosa e feliz.

Exceto… que aquele não era o dia da árvore.

– Vamos ter que te mandar pra casa, Roberta – disse a diretora.  A sua mãe se enganou, o dia da árvore é só daqui uma semana!

– E é melhor você esperar a mamãe aqui na minha sala. Porque lá fora, a criançada, já viu..

E a diretora tenta controlar o riso, mas se abre em uma colossal gargalhada.

E eu fico ali na sala dela, esperando a minha mãe vir me buscar: eu, meus 18 galhos e minha inconfundível cara de trepadeira desavisada.

***

De todos os meus equívocos de infância, a escolha profissional era a mais gritante: eu já quis ser freira, assistente de açougueiro e cobradora de banheiro público. Como eu conto aqui.

Mas uma coisa era certa: eu queria muito voar. Não sair voando feito pombo que não virou hamburguer. Voar no sentido de viajar, conhecer o mundo. Era avistar um turista na minha cidade que eu saia correndo me apresentar:

– Oi, meu nome é Roberta. Se quiser posso te mostrar a cidade.

E era o turista sorrir que eu começava a perguntar da onde ele vinha? o que ele fazia? na cidade dele tinha lago? praia? cachoeira? dá pra chegar de carro? sabia que nos estados unidos só se chega de avião?

E por aí ia.

Lembro do dia em que me afeiçoei a um grupo de turistas holandeses, com o qual eu só me comunicava através de gestos.

-Vocês querem comer? (gesto de mãos que levam comida à boca)

– Lá, comida boa (gesto de mãos que fazem círculos na barriga, acompanhado de gesto de positivo com o dedão)

– Nadar? Aquela praia nice, nice beach! Aquela outra praia suja, blagh! (cara de quem viu cocô boiando no mar)

Antes de ir embora, uma moça bem simpática do grupo de holandeses me presenteou com um postal da Holanda, com aqueles típicos moinhos de vento. Eu achei o postal tão, mas tão lindo, que coloquei ele dentro da minha pasta de papéis de carta. Aquela noite, antes de dormir eu pensei: um dia eu vou conhecer essa tal de Holanda.

***

E daí eu cresci, parei de encher o saco dos turistas e fui trabalhar.  Conheci a Holanda e mais alguns tantos lugares.

Morei em 6 cidades distribuídas em 3 países diferentes e tô nem aí se os livros de auto-ajuda insistem em dizer que a felicidade deveria estar dentro da gente. Foda-se a auto-ajuda: eu gosto mesmo é de buscar a felicidade em um montão de lugar diferente.

E foi por isso que, quando maridão me perguntou o que eu acharia de viver em Cingapura, eu não só topei como pulei no colo dele (o dó), dei gritinhos histéricos e abri champagne.  Tá bom, não tinha champagne, mas a skol tava gelada.

***

Então é isso, gente bonita e agradável: estamos mudando de continente.

Se antes vocês tinham lugar pra ficar no Rio de Janeiro, agora descolaram hospedagem em Cingapura, que é do lado da Tailândia, do Vietnam, do Camboja, da Indonésia…upgrade total, tô mentindo?

Estou feliz, muito feliz. Feliz de voltar à minha natureza ciganóide, feliz de saber que vamos morar em um país completamente diferente de tudo que já vivemos, feliz porque vamos começar uma aventura, a primeira grande aventura que já vivemos em família.

Ao mesmo tempo pensando como raios eu vou lidar com uma criança que passa pela mais tumultuada fase de birras EVER, enfrentando essas 1000 mudanças que estão por vir.  Pra começar:

1.o rapaz vai para uma escola francesa, em um país cujas línguas oficiais são o inglês, o malaio, o tâmil e o chinês.

Resultado: Claro que aos 5 anos de idade ele vai se rebelar, casar com uma polonesa e viver em alguma vila distante ao norte da Russia, de onde me mandará um postal quando o terceiro filho nascer.

2. Vai se separar de todos os amigos/família, tudo de uma vez!

Resultado: vai se revoltar contra a pessoa da mãe (eu), pintar o cabelo de branco-Supla, adicionar a Comunidade do Comando Vermelho à sua página do Orkut e colar um poster da mulher melancia na parede do quarto.

***

Enfim, um milhão de coisas, a saber:

1.Ainda não sabemos a data, mas há quem diga que o Natal já será em terras asiáticas.

2. E claro que não estou me despedindo, o Piscar de Olhos continua, firme e forte.

3. O Minha Mãe que Disse vai saldar  o estoque  restante, e desde já  informa as queridas 615 clientes cadastradas (u-au) que voltará, em uma versão quimono-saquê chiquéééééérrima e baratééééérrima. Se deus quiser e buda permitir.

4. Vou criar um blog para vender carrinho, brinquedos e demais apetrechos do pequeno Noah. Já já divulgo.

5. Perdoada pela falta de comentários, respostas, carinhos e abraços? Sobra-me vontade, falta-me TEMPO e LUCIDEZ.

E esse post não é pra ficar em tom de despedida. Pois como se sabe, não existe distância pra amizade virtual (é ela ficar emocionada, que começam as pérolas…)

Espero que fiquem felizes por mim e que mandem palavras de coragem, amor, esperança, pensamento positivo e frases de impacto by paulo coelho.

Eu queria postar algumas fotos de Cingapura, do tempo que eu estive lá, aaaaanos luz atrás, mas não tive coragem: a umidade lá é tão desgraçada que, em todas as fotos, eu pareço estar envolta em algum tipo de gelatina incolor lubrificante.

Então recorri ao Trip Adviser e posto algumas fotinhas de Cingapura e seus adoráveis vizinhos.

Cingapura pros pais…

Cingapura pra cria…

E tem os adoráveis vizinhos.

O Vietnã…

A Indonesia…

Tailândia…

E é isso. Agora é empacotar, carregar, pagar, transferir, despedir, chorar…

Bye bye, Brasil.

mas e francês lá gosta de criança?

Depende, ué.

Nesse aspecto a França é igualzinha ao Brasil ou a qualquer outro lugar do universo:  há os que genuinamente gostam de criança, os que toleram mas não necessariamente simpatizam e os que preferem uma injeção anti-tetânica nas duas pálpebras a tolerar a presença de uma mini pessoa no mesmo ambiente.

Quando eu morava em Londres lembro de ter presenciado uma cena meio absurda: eu estava na Accessorize (gastando dinheiro com desnecessarize, of course), quando ouvi alguém gritando em português que  “esses ingleses não gostam mesmo de criança, fui super mal tratada, só porque estou com meu filho, eles preferem cachorro, esses ingleses”.

E tal.

E a moça saiu da loja, puxando o marido e o filho, enfurecida.

Não dei muita atenção.  Na hora de pagar acabei ouvindo a atendente da loja explicar à outra atendente  que era “um absurdo, olha só esses lenços sujos de chocolate, como é que a mãe deixa a criança com dedos lambuzados de chocolate pegar os lenços da loja, e os brincos a crianças também tirou do lugar…”

E tal.

Eu não tenho opinião nenhuma formada a respeito da relação Ingleses x Crianças, apesar dos 5 anos vividos em Londres. Não tenho essa opinião por um motivo lógico: eu não tinha filhos e portanto não prestava atenção no universo criancento. Se você me perguntar como são os parquinhos na Inglaterra eu não vou saber dizer MESMO. Mas se você me perguntar dos pubs…

Só usei o exemplo de Londres porque imaginei a repercussão que essa estória poderia acabar tendo: a mulher – logicamente sem razão – pode ter voltado ao Brasil e dito a meio mundo que os ingleses foram intolerantes com o filho dela (e que eles preferem cachorro, blá blá blá, comem mal, que povinho, e como chove!)

E quem não viu os lenços da loja cheios de chocolate e a funcionária tendo que catar os brincos que o filhotinho dela jogou no chão realmente poderia concluir o mesmo.

A maternidade deveria vir acompanhada de um Código de Boas Condutas Para Um Convívio Pacífico Para Com o Resto do Mundo.

Tem regra de comportamento em parquinho, regra de brinquedo emprestado (lembram?), posicionamento de carrinhos no elevador, regra de não oferecer comida a crianças que você não conhece e duas outras regras importantíssimas:

1. seu-filho-sujou-limpa;

2. sua-filha-quebrou-paga.

E, sim – essas regras são internacionais. Uma adaptaçãozinha aqui, outra ali – mas via de regra é isso: bom senso, bons modos e canja de galinha nunca deram celulite em ninguém.

***

Tudo isso pra dizer que sim – Noah foi muito bem tratado pelos franceses. Claro que da família eu já esperava isso – ele tem tios maravilhosos e um primo que há de ser o rapazinho mais genial que eu conheço.

Me refiro a ter sido muito bem tratado por estranhos.

Acho que criança tem mesmo esse poder de despertar o lado bom das pessoas. E elas têm essa colossal capacidade de fazer com que adultos venham a agir de maneira outrora impensável.

Como nesse almoço de família, lá na Bretanha, por exemplo.

Não me perguntem COMO Noah conseguiu essa façanha – mas quando eu vi lá  estavam os franceses no restaurante cantando “A Baleia”. Juro pra vocês.

Eu não consigo ensinar um francês a falar “bom dia”. E o moleque, pouco maior que uma baguete, consegue explicar aos familiares gringos que a baleia, minha gente, é amiga da sereia.

Esqueçam os diplomatas – relações exteriores deveriam ser executadas por crianças.

Vê se eu tô exagerando:

Nossa ansiedade maior era em relação aos parisienses, conhecidos por seus inegáveis acessos de rabugentices.

Pois mesmo lá as pessoas se mostraram bastante child friendly: Noah ganhou croissant da moça da padaria, piscadinhas da senhora na farmácia, distribuiu e recebeu bonjour ‘s por todos os lados.

Aliás, se fosse pra eu dar um pitaco tá aí: ensinar a cria a dar um olá na língua do país pra onde você vai viajar pode ser visto com muita simpatia. Porque é internacionalmente fofo, gente, ver aquela criança entrar no trem, no supermercado ou na padaria exclamando um bonjour, na França. Ou witaj!, na Polônia. Ou Konnichiwa!, no Japão. (agradeçam ao dindo google)

Vai por mim – o povo quase sempre responde com um sorriso.

Mas o momento em que o rapaz conquistou de vez o coração das velhinhas parisienses foi quando ele aprendeu a dizer…

(versão português 😉

o dia em que eu não morri

Putz, essa noite eu sonhei que passava dessa pra uma melhor. Nada trágico, nenhuma grande perda pra humanidade nem nada do gênero.

O problema é que quando cheguei no paraíso Noah me telefonou.

– Oi, mamãe. Você morreu e esqueceu de comprar uva pra mim. Sacanagem, você sabe que eu não vivo sem uva.

– Ah, filho, não deu tempo. Pede pro papai.

– O papai detesta ir ao Hortifruti, mamãe, você sabe disso.

– Verdade…

– Outra coisa, manhê. Eu entrei no seu blog e não tem nenhuma foto minha na França! Não dá pra você postar daí não?

– Ah, filho, era o que me faltava. Mamãe tem mais o que fazer aqui no paraíso (que foi, gente? se o sonho é meu, eu morro e sou mandada pra onde eu quiser, licença?)

– Ah, mamãe, coloca as fotos no blog, vai.

– Ah, tem dó, Noah, pede pro seu pai.

– Papai tá ocupado.

-Ocupado fazendo o que, meu deus?

– Ué, casando.

Acordei aos berros, peguei o marido pelo braço e falei que achava um de-sa-fo-ro ele casar com alguém só pra não ter que ir na porra do Hortifruti comprar uva pro filho.

Passado o susto (dele) eu resolvi que seria bom que se eu morresse ele tivesse a senha do blog. Certo? Que caso contrário como é que vocês iam ficar sabendo, gente?

Então dei a senha do blog e fiz ele prometer que se eu batesse as botas ele escreveria um post de despedida, falando somente coisas maravilhosas sobre a minha pessoa.  E fiz ele jurar de pés juntos que terminaria tal post assumindo a culpa por nós termos ficado sem fraldas no vôo Rio-Paris.

Primeiro ele me olhou arregalado, como ele sempre olha quando acha que estou falando algum absurdo #frequente#. Mas depois ele logo perguntou:

– Mas será que alguém vai comentar meu post?

– Deixa comigo que eu vou falar com o pessoal.

– Vai falar o que, Roberta?

– Ué, vou falar que a gente conversou sobre isso, que eu te autorizei a escrever um post caso eu bata as botas e que é favor comentar o seu post póstumo de coisas bonitas sobre a minha pessoa. O pessoal vai entender, confia em mim.

– Ro, pelamordedeus, escuta o que você tá falando. Diz pra mim que você não vai pedir pros seus leitores que eles comentem o meu suposto post póstumo.

– Mas é claro que vou pedir.

– Eles vão achar que você é louca de pedra.

– Amor, ali a maioria é mãe, e mãe você sabe…

– Verdade. Uma pior que a outra.

–  ã-hã.

Então, gente, por favor: comentem o tal post postmortem. Pela compreensão, obrigada.

E François: você me deve 50 reais.

***

Então, filhote. Aqui estão algumas fotinhas de nossa linda aventura pela França. Como eu não vou morrer tão cedo, e ainda pretendo escolher conhecer sua esposa e dar pitaco na educação amar seus filhos vou deixar as outras tantas fotos pra depois, combinado?

Pois bem. Aos 21 meses, na nossa primeira viagem juntos ao país do seu pai, você:

* Foi de Paris a Quimper em um trem super-mega-rápido, onde constatou que as pessoas não respondiam bem ao seu “bom dia”. Então foi neste trem que você começou a gastar seu francês, disparando “bonjour” até pra maçaneta do banheiro.

bonjour passarinho, bonjour janela, bonjour maçaneta

* Descobriu a liberdade de se correr por uma praia tão vazia de gente mas tão maravilhosamente cheia de história…

e descobriu que sunga carioca é bem diferente de sunga bretona...

* E você teve a honra de dormir na casa construída pelo seu tataravô. Seu tataravô, aliás, era um homem inteligente e de muita visão. Então ele construiu uma casa de praia forte, resistente a ventos, temporais e alemães.

eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões

* E ali naquela areia em que você brincou (e brincou muito) brincaram também teu avô, teu pai, teus tios e primos. Olha o teu pai aqui, de costas, com seu super cabelo panelinha. E quem não mordia uma fofura dessa, me diz?

as botas do papai com minha sunga...orna, manhê?

* Conheceu becos, ruas, casas medievais. Aprendeu a dizer “que lidu, mamãe” todas as vezes que tua mãe dizia “olha que lindo, filho!”

ai, que lidu, mamãe

flores são nossas amigas

*Descobriu a alta cozinha, aquela que ganha estrela e tudo mais…

* Para logo depois entender que, enquanto adulto adora comida de guia gastronômico, criança curte mesmo é crepe, croissant e baguete…e tem coisa melhor? (tem, filho, tem coisa beeeeem melhor, believe me)


* E você viu seus pais mais apaixonados do que nunca (mamãe perdoou o fato do papai ter esquecido as fraldas, hi hi hi).

não se deixe enganar: esse casal esqueceu as fraldas do bebê

(…)continua

Não perca nos próximos posts:

“França e a família francesa. O dia em que Noah ensinou aos franceses a música da Baleia (aquela que é amiga da sereia)”

***

“Mas será possível ser feliz em Paris com crianças?”

***

“Quem esqueceu as fraldas? – Desvendando o mistério do desfraldamento airfrance.”

***

“Alguém me explica? Porque Paris tem  parques maravilhosos, seguros e de chão emborrachado? “

***

“Alguém me explica II? Após menunciosas pesquisas, a constatação: fralda brasileira é uma merda”

Voltamos – Parte I

Cheguei.

E não, eu não deveria estar aqui postando.

Pensa comigo:  mala a ser desfeita, 315 pedidos a serem processados, 1 filho a ser criado e 3 kilos a serem perdidos – e a gata ignora tudo isso e vai escrever no blog.

Então este será um postezinho bem mequetrefe,  preguiçoso e jet-leguento. Pra facilitar elaborei uma lista com as DMF – Dúvidas Mais Frequentes.

Ou FAQ, como eles dizem lá.

FAQ – Mas Roberta, você não acha que seria muito mais produtivo e sensato ir lavar cuecas  e desfazer as malas em vez de escrever no blog?

Não mesmo. De que me vale ir pra França se eu não posso nem vir aqui me exibir um pouco, me diga? Se é pra pessoa viajar e guardar tudo pra si melhor suspender Paris e marcar a próxima viagem pra Piracicaba, oras.

FAQ – Você conseguiu manter a sua promessa de ser fina e francesa e viajar com pouca bagagem dessa vez?

Claro que não. Viajamos com três malas lotadas, prontos para todo e qualquer imprevisto – falta de luz, neve, tsunami, mudança de moeda e golpe militar. Ser prevenida é chique.

(Ou vocês acham que a mocinha que aparece com 12 modelitos diferentes na matéria “Arrasando em Paris” , da Revista Vogue, viaja somente com uma necessaire em punho? )

FAQ – Conseguiram chegar ao aeroporto com antecedência e tal?

Chegamos ao aeroporto com bastante antecedência, check in impecável, tempo pra fazer tudo, cabelos ao vento e aquele olhar de mulher-mãe-experiente-decidida-e-organizada. Se algum paparazzi tivesse a imbecilidade de se interessar por mim era nessa hora que eu gostaria que ele me fotografasse.

FAQ – Algum fato curioso antes do embarque?

Na saída do check in uma super revelação: Noah me olha, me abraça e diz “Tabéta”. Demorou pra eu entender, mas caiu a ficha: a moça da Air France devolveu meu passaporte e disse “Roberta”.  E Noah ouviu. E ele finalmente entendeu que as outras pessoas, estranhamente, não me chamam de mamãe. Elas se referem a mim como Tabéta.

FAQ – Sé-rio? E daí?

Bom, como tínhamos tempo eu decidi que era hora de bater um papinho com o filhote:

– Filho. Seguinte. 1 ano e 9 meses é idade suficiente pra você entender que papai e mamãe são na verdade duas pessoas que, como você, têm nome e vida própria.  Tá. Vida própria é exagero, mas nome a gente tem. A mamãe se chama Roberta. E o teu pai, nas horas vagas, atende por François. Isso. Fran-ço-is. Entendeu?

Lógico que entendeu. E aproveitou para esclarecer o caso tic-tac.

***

FAQ – Tudo bem. Noah entendeu que a mãe tem nome e o pai também. Mas o que isso tem a ver com a viagem pra França?

Well. Assim que colocou os pés em Paris, ainda no aeroporto, Noah parou de chamar o pai de papai e passou a chamá-lo François. Sem mais nem menos.

A mamãe seguiu sendo mamãe (até porque, apesar de original, o nome Tabéta é deveras desprovido de charme e dignidade, percebem?) Mas papai passou a atender simplesmente por François.

FAQ – Fale um pouco da sua experiência no avião com uma criatura de 1 ano e 9 meses.

Tô pronta pra falar sobre isso, não. Mas posso adiantar que a coisa foi feia e traumatizante.

FAQ – Ah!! Conta uma presepada aérea, vai.

Tá bom. Só uma. Antes de sair de casa rumo ao aeroporto, devidamente munidos de brinquedos, guloseimas, dvd’s, e demais distrações para a aeronave, decidimos que levaríamos as fraldas (20 delas!) distribuídas em duas bagagens de mão. Pelo menos foi isso que eu entendi – eu colocaria 10 na bolsa azul e François 10 na mochila cinza – metade/metade. Ambas pra dentro da aeronave.

Ocorre que antes de embarcar Noah fez cocô. E eu fui ao fraldário trocá-lo. Quando abri a fralda ele estava TO-DOAS-SA-DO. E  que mãe gosta de ver a cria assada, me diz? Virei pra funcionária e falei:

– Olha que fralda desgraçada que deixou meu filho todo assado. Eu nunca compro essa marca, foi meu marido.

– Eita que marido é bom mas é ruim, né? – disse a moça do fraldário.

Daí eu lembrei que as outras 10 fraldas que estavam na mochila cinza eram da marca que eu gosto e que não assam a bunda do filhote. Respirei fundo e disse:

– Olha o que eu faço com essas fraldas, ó.

E fui tirando uma por uma da bolsa azul, doando as fraldas ao fraldário do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro.

De um jeito que só uma mulher-mãe-experiente-organizada-e- decidida o faria.

Corta.

Mais tarde, dentro do avião…

– Ai, amor, tudo certo, que bom, que bom! Olha a carinha dele, olha como tá feliz! Meio assado, mas feliz. Mas também eu deixei TO-DAS aquelas fraldas malditas lá no fraldário. Vê se não compra mais aquela marca, tá?

– Você o que???

– Deixei lá. Mas não se preocupa. Tem mais 10 fraldas na mochila cinza, que você colocou…você colocou, né???

– Nãããããããoooooooooo!!!!!!!!!!!!

Corta. Senhoras e senhores, embarque encerrado. Dentro de alguns instantes daremos início a decolagem. Nosso tempo de vôo até Paris será de aproximadamente 11 horas e ZERO fralda.

– Robertaaaaaaa, como é que você me deixa as fraldas no fraldário??

– Ué,  era pra você ter colocado aquelas outras 10 fraldas dentro da mochila cinza, porra! E agora? Ai, meu deus!

– Pede pra moça do lado…

– Que moça do lado, François?? O filho dela deve ter uns 5 anos, já usa cueca, entendeu? Cu-e-ca. Putaqueopariu. Olha só. Você que é francês, vai lá no comissário com cara de gay e pergunta se ele não tem fralda no estoque.

– Que estoque, Roberta?? Você acha que a Air France estoca fralda?? E que tipo de pai e mãe esquece de trazer fralda pro avião, cacete.

– Vai lá, amor, os gays sempre te amam. Vai, é a nossa única esperança!!

E ele foi. E voltou com 4 fraldas RN. Repito: QUATRO FRALDAS TAMANHO RECEM NASCIDO. Para um moleque de quase dois anos.

Ah. E o cara não era gay, aparentemente. E tinha dois filhos. E disse com ar de superioridade que “fralda é a primeira coisa que se coloca na bagagem de mão”. E eu senti vontade de enfiar a porcaria da fralda RN dentro do nariz francês dele.

FAQ – Gente, que tipo de pai e mãe viaja sem fralda ? Mas deu pra se virar com as RN?? Elas são tão pequeninas!

Deu porque a gente regulou líquidos pra ele. Eu sei, eu sei:  que tipo de pai e mãe regula água pro próprio filho? O mesmo tipo que coloca fralda fio dental na bunda assada da cria.

FAQ – Caraca. Espero que pelo menos Noah tenha se comportado no avião?

Realmente prefiro não falar sobre o assunto. Mas para que tenham uma idéia do inferno aéreo, segue trecho do comentário feito a este post pela Melissa, uma moça educadíssima que estava sentada perto da gente no avião:

(…) Sim, sou eu – Melissa – a moça que estava sentada com o menino de 5 anos na mesma fileira que vocês, só que na janela, no vôo GIG-CDG. Sou testemunha ocular de sua noite mal dormida. Mas não se preocupe, vou deixar constado aqui que Noah não incomodou a mais ninguém a não ser a seus próprios pais. Uma coisa aquele ar seco e aquela pressão horrorosa do avião têm: abafam ruídos que é uma beleza!(…)

FAQ – Mas então seu filho dá piti no avião, não deixa a tal Melissa dormir e você ainda por cima dá o endereço do seu blog pra ela? Você não acha que isso já é tortura demais?

Pois é. Mas é que eu sofro da síndrome do “tem que me amar, preciso ser amada, por favor me ame!” Então dei o endereço do blog para que a Melissa constatasse que sou mulher-mãe-experiente-organizada-e-decidida.

Mas graças a deus não desperto interesse algum nos paparazzi. Porque, convenhamos,   “Fulana é vista emendando duas fraldas RN uma na outra em classe econômica de avião…”

E há glamour parisiense que me salve de uma lembrança dessa?

***

Fotos e demais francesices em breve!