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o buda e o michael jackson

E vocês acham que eu não sei que isso não se faz?

Sumir assim, de maneira tão foragida, surrupiada e misteriosa?

Sim, porque não há desaforo mais desalentado nessa vida de meu deus que evadir-se dos seus, deixando porra nenhuma de pista de seu paradeiro.

O cumadis, perdoa, vá.

Mas é que nesse momento há tanta, mas TANTA vida lá fora, que eu me recuso a ficar aqui dentro.

Nem foi tanto tempo assim desde a última vez que a gente se falou, mas de lá pra cá muita coisa sucedeu, a saber:

Noah está na escola e eu sou mulher depilada e fresquinha de tu-do.

Vida semi-organizada, casa semi-mobiliada e pernas devidamente depiladas, comecei a vagar por aí. Dia desses juntei toda minha faceirice e fui numa lojinha chinesa comprar umas quinquilharias xingui-lingui.

Chegando em Chinatown, vi esse templo budista lindo de chorar e resolvi dar aquela entradinha curiosa. Ali me deparei com um monge (tão ou mais depilado que eu) que veio em minha direção, sorriu aquele sorriso mongístico, me apontou um incenso de cheiro adocicado e me falou uma meia dúzia de palavras fofo-tibetanas.

Saí de lá leve, com a existência impregnada de incenso adocicado, feliz e espiritualizada e, flutuando, entrei na loja da esquina, que vendia os budas mais lindos que eu já vi.

Eu fui pra Chinatown em busca de quinquilharias xingui-lingui. Voltei de lá  matriculada no Yoga, decidida a levar a meditação a sério e com um Buda do tamanho de uma criança de 1 ano embaixo dos braços.

(o que me leva a suspeitar de que, além de doce, aquele diacho de incenso dá  um  barato for-tís-si-mo, vai por mim).

se te chamarem de doida a gente põe a culpa no incenso, tá mamãe?

***

Eu já vinha me enveredando nos caminhos da tal meditação desde que ainda estávamos no Rio. Nenhum motivo especial. Só achei que ser mãe estava me deixando doida, muito doida demais e que, por ser a maternidade tão intensa, tinhosa e barulhenta, ela estava acabando por me ensurdecer. Eu precisava ficar em silêncio pra poder ouvir as vozes que residem o fundo do fundilho dos meus pensamentos. Sim pessoal, as vozes. Num ri, não, vá.

Daí pensei: já que a vida me mandou pra Asia, que é o berço da meditação, então bora comprar um Buda estiloso, calar a boca por alguns minutos do dia e perseguir o sonho de ser pessoa mais centrada e misteriosa. Porque, né, se até a Madonna que já cuspiu na estátua da Virgem Maria e beijou a boca da Britney Spears consegue, então porque não eu?

Do que se pode especular dois desfechos a longo prazo, a saber:

Desfecho número 1:

A meditação, o yoga e um bocado de incenso adocicado surtem efeito e eu me livro de todas as neuras, preocupações, TOC’s e culpas, chegando ao patamar máximo de iluminação e vida plena. Elimino, completamente, a carne da minha vida. Compro um gato, o qual passo a chamar Dalai Lama e, uma vez por ano, me jogo num daqueles retiros na India, onde como lentilha e vegetarianices em geral, medito e faço voto de silêncio durante 15 dias seguidos.

Desfecho número 2:

Assim como abandonei a natação e o boxe, eu abandono a meditação e viro piada aqui em casa.

– Papai, lembra aquela vez que a mamãe comprou um buda do tamanho de uma criança de 1 ano e trouxe ele pra casa, de metrô?

– Hahahahaha, lembro, filho. Ela cismou que ia meditar todos os dias até o final da vida dela, que durou só dois meses, ô vida curta.

– Hahahahaha, foi na mesma época em que ela resolveu que o gato ia se chamar Dalai Lama, ói que original. O manhê, cê já voltou a comer carne ou vai esperar a libertação do Tibet antes? Hahahahahaha.

E os dois se acabam de rir, enquanto eu, de cabeça baixa, divido minha picanha nada vegetariana com o gato Dalai Lama.

de metrô: filho num braço, buda no outro

***

Mas não foi pra falar de mim que eu vim aqui, não. Queria dizer que tenho lido todos os blogues comadrentos e compadrentos- comadres da velha guarda e as que vem surgindo por aí. Aliás, caraca, quanto blog novo. Quero muito fazer uma atualização dos blogues amigos, mas me falta coordenação pra realizar esse tipo de trabalho burocrático. As vezes eu acho que quem precisa de uma babá sou eu.

Mas falando do que interessa, Noah está muito bem, obrigada. Fica na escola até as 2 da tarde e volta pro colo da mamá, onde permanece até que a última lâmpada se apague.

Muita gente já tinha me alertado, mas nunca na minha vida que eu ia acreditar que em tão pouco tempo o rapaz já fosse me sair com tanta palavra estrangeira no vocabulário. E tanto orgulho assim cabe num coração de mãe, gente? Tô me achando pessoa mega importante e desenvolta, quando o mérito é, na realidade, dele e somente dele.

Macaco virou monkey, desculpa virou sorry e rio virou RIVA. Distribui hellos por onde chega e bye-byes por onde sai.

Dia desses me olhou, apontou pra pia e disse:

– MOCHORRENDS, mamãe, MOCHORRENDS.

Levou coisa de 3 dias pra eu entender que o rapaz tava era, de fato, me mandando lavar as mãos (repita em voz alta WASH YOUR HANDS, e repare na semelhança fonética, please).

monkeys são amigos

***

Enfim, a escola. Na turma dele tem uma japonesinha linda de morrer, uma boneca de porcelana, que, ave maria, desenvolveu uma paixão precoce e turbulenta para com a pessoa do meu filho. Sei disso porque além de mãe sou mulher:  percebo sentimento mal intencionado de longe.

Em comum eles carregam a expatriação: os dois saíram da pátria que chamavam de sua e foram apresentados a esse mundo de meu deus. Um fala português, a outra japonês; Ele adora dançar, ela curte mesmo é um quebra-cabeça. A mais meiga leitura de Eduardo e Mônica, versão nipo-brasileira (quem lembra de eduardo & mônica, levanta a mãozinha!)

Daí que outro dia fui buscar o pequeno e a bonequinha japonesa estava chorando. Me chamou a atenção a maneira peculiar e silenciosa com a qual a garota chorava: as duas mãozinhas na frente do rosto, ela balançava o corpo pra frente e pra trás, soluçando, bem baixinho.

Pensei “Sorte é da mãe dela que não passa vergonha enquanto o filho berra e se joga no chão do shopping center”.

Passado um tempo, Noah me pediu algo, eu não dei e ele foi pro quarto dele. Achei esquisitíssima aquela ausência de piti e fui atrás: lá estava ele, sentado no chão, mãozinhas segurando o rosto, chorando silenciosamente.

Nisso marido entrou no quarto e disse “chega a ser bonitinho..”

– Bonitinhoooooo?? Tá louco, amor??? O rapaz vai crescer TODO repreendido, TODO cheio de minhoca não extravasada na cabeça, TODO Michael Jackson, deus o tenha?! E daí quando ele crescer e o terapeuta concluir que é TUDO culpa da mãe repressora, é você que vai pagar terapia, viu? A dele e a minha.

E a louca continua:

– Filho, pode levantar já daí e dar piti. Põe pra fora, grita, extravasa, roda a baiana, filhote! Eu, hein!

a culpa é da mãe, aquela repressora de emoções

***

Tirando a garotinha que chora baixinho, todos os outros amiguinhos da escola são porra loucas iguais a  meu filho, então certeza que ele está em ótima compania.

Porque não importa de que parte do mundo ela seja, criança de 2 anos é criança de 2 anos. Crianças dessa idade dão piti, tiram a gente do sério e são imensa e completamente adoráveis, com suas tiradas, declarações de amor e constante alegria de viver.

E talvez tenha sido essa a razão do meu sumiço: eu fiquei com medo de piscar os olhos e perder isso…

happy chinese new year!

Juro que a partir de agora estarei mais presente. Toda centrada, espiritualizada, mas sempre do fundão.

Esse post é dedicado a todas as fofas que me pediram sinal de fumaça, explicitamente, por email, por comentário ou em pensamento, em especial a Luciana, Robertinha, Patrícia, Paloma, Lia, Flavia, Carol, Dani, Paula, Thais, Cynthia, Tchella, Marcia, Mariana, Thaty, Kamila, Jussara, Rachel, Marycea (que leu o meu último post, mostrou pro marido, os dois se inspiraram e resolveram parar com a pílula – acredito que isso me autoriza a ser madrinha virtual do rebento, então?). A todas que me deram força no post de chegada a Cingapura e, em especial, a uma outra mãe do fundão, leitora que eu ADORO, dona de alguns dos comentários mais cômicos deste blog – Regina Tavares. A imagem da sua filha cantando Agonição de Amor me fez passar mal de gargalhar…porque raios você não nos presenteia com um blog, hain menina?

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notícias de cingapura

* aviso ao leitor: este post contém palavras de baixo calão, linguagem chula e escancarada apologia ao errado, ao imoral e ao politicamente incorreto.

E eis que das cinzas ela renasce, feito Fênix de tetas,  MORTA de saudades, gente bonita!

Daí resolvi mandar filho e marido pra piscina e resumir um pouco do que aconteceu desde a última vez que a gente se falou. Então senta, coloca as crianças pra brincar com  massinha e põe a skol pra gelar, que lá vem história.

Da viagem

Reza o Código Internacional de Viajantes que:

Um lugar é considerado longe pra caralho distante quando, pra chegar nele, o sujeito tem que enfrentar 2 vôos longuíssimos, 20 comissários de bordo, 6 pilotos, 8 malas, turbulências moderadas e perrengues incontáveis, que envolvem uma criança de 2 anos, uma mãe descabelada e um pai tentando evitar, sem êxito, que referida criança enfie o dedo indicador na narina do passageiro ao lado.

O homem que teve o nariz invadido ficou fulo da vida dele e eu não tiro a razão do passageiro – afinal, existem mil maneiras mais agradáveis de ser acordado do que com um dedinho bisbilhotento na narina da gente.

Por outro lado, nem acho que a intenção do filhote tenha sido azucrinar o alemão, não. Arrisco dizer, inclusive, que o objetivo de tamanha bisbilhotagem era puramente estético, já que, de avantajadas narinas, brotavam pêlos de tamanho bastante significativo. Na boa, até eu fiquei com vontade de dar uma podada na juba nasal do rapaz.

Parece boa pessoa, mas é um pinçador profissional de narinas

Da chegada

Nós decidimos dividir o trajeto Rio-Cingapura em duas partes : primeiro voamos do Rio a Paris, onde passamos 5 dias.

uma paradinha em paris pra ver família e usar gorro de tigre

Mal nos adaptamos ao fuso horário francês e já era hora de embarcar pra mais um vôo longo, dessa vez pra Asia. Minha Nossa Senhora do Guaraná em Pó, que gastura.

Só sei que, no final, chegamos em Cingapura as 19:00 – horário local, o que significava MEIO DIA no horário dessa mãe exausta que vos escreve. Até que acomodamos as 8 malas no nosso apart-hotel e tal e coisa já eram 21:00 no horário local, 2 da tarde no nosso relógio biológico. Pensei, vou tentar:

– Noah, olha só, eu sei que você tá acordadão, mas aqui já são 9 da noite, hora de dormir. A gente vai ter que fazer um esforço e ir pra cama agora, tá bom? Assim, amanhã a gente acorda em horário local adequado. Combinado?

Ele nem respondeu nada, só fez que não com a cabeça. Mas eu sei que, se já tivesse idade pra expressar exatamente o que pensa, o rapaz daria uma gargalhada colossal,  e me diria:

– Claro, sua lunática, claro. Vou guardar toda essa minha energia de pessoa de 2 anos e 2 meses e ir dormir, só pra você ficar feliz e satisfeita. Não quer que eu escove os dentes também, maluca?

Só sei que deu DUAS da manhã (umas 6 da tarde pra gente) e estávamos os três lá, deitados na ponte de um parque qualquer, olhando pro céu e conversando. O que me dá raiva é ter certeza absoluta que em algum momento alguma mãe passou, nos viu deitados na ponte, cutucou o marido e falou:

– Agora olha praquilo e me diz, Arnaldo Jin Huan Lan, o que faz uma criatura irresponsável daquela, que me traz uma criança pra rua às 2 da manhã, pensar que tem o menor talento pra ser mãe, me diz?

Que mãe é mãe, não importa em que continente ela esteja.

A Cidade

– Amor, vai me dizer que você também não acha estranho?

– Estranho o que, Roberta?

– Essa perfeição toda, isso tudo é muito esquisito, amor! Pensa comigo: a cidade é linda, limpa, organizada, cheia de atrações infantis, extremamente segura, a comida é maravilhosa…Tudo parece muito perfeitinho, François! Alguma coisa deve estar muito errada e eu vou descobrir o que é. Ah, vou.

-Neurose.

– Que? Quem?

– Neu-ro-se, o nome da doença é neurose. E diz que só cura com acompanhamento médico.

Deixa ele me chamar de louca que eu não ligo, não. De hoje em diante, minha nova missão de-vi-da é descobrir que raios há de errado nessa cidade.  Porque cer-te-za que alguma estria, unha encravada ou celulite ela há de ter. Deixa comigo.


Falta de Paciência

Já tem um mês que filhote e eu estamos, evidentemente, grudados um no outro 24 horas por dia. E num hotel, ainda por cima, já que ainda estamos buscando apartamento.

O lado negativo de ficar tanto tempo junto é que a paciência fica inversamente proporcional ao tempo em que vocês estão grudados.

Exemplo: ontem ele decidiu que jogaria seus peixinhos de plástico na privada. Quando eu entrei no banheiro, virou pra mim e disse “essa é a piscina dos peixinhos, mamãe”.

Então vejamos o que diria uma mãe de espírito elevado, dotada de paciência e pernas depiladas:

Meu filho, mas o que é isso?! Eu entendo a associação que você fez, uma vez que este vaso sanitário pode sim remeter a uma idéia de piscina de seres pequenos, como são estas réplicas de peixinhos. Mas entenda que esta água não é limpa e pode acabar trazendo doenças. Vamos lavar bem as mãos?”

Agora vejamos o desfecho da mesma cena, desta vez por uma mãe cronicamente estafada, pernas  peludas e cutículas saindo pelo ladrão:

“Caralho, Noah, a mão na privada não! Vamo já lavar essa mão antes que você pegue uma difteria, uma febre tifóide, uma malária, uma conjuntivite e a porra toda. Mas que merda, filho!”

Adaptação

Pois o filhote já fala hello, bye bye e thanks. A melhor amiga dele, aqui no hotel, é da Finlândia, vejam vocês. Eu não tenho idéia de como raios eles dão conta, mas os bichinhos se comunicam, brincam, trocam segredos e combinam de brincar mais amanhã.

Cingapura é composta, em grande parte por estrangeiros, muito europeu, muito americano, enfim são milhares e milhares de gringos, que, como nós, vieram parar aqui em terras asiáticas a trabalho.

melhores amigos, eles se comunicam em piscinês

Noah sempre empresta seus brinquedos pra um garotinho suíço, pouco mais velho que ele. Dia desses o suíço finalmente trouxe um brinquedinho pra piscina e Noah foi brincar um pouquinho com tal bonequinho do amigo suíço. O suíço não gostou e arrancou o brinquedo das mãos do filhote. Vocês acreditam que a mãe suicenta, mesmo sabendo que o filho dela brinca com os brinquedos do Noah TODOS OS DIAS, pediu pro meu filho devolver o bonequinho muito do paraguaio, porque esse era o brinquedo favorito do filho dela???

Ai, na hora pensei tanto em vocês. Arranquei o brinquedo do Noah, devolvi pro suíço e disse assim pra mãe dele:

– Eu entendo isso de brinquedo favorito, não se preocupe. O jacaré com que seu filho sempre brinca também é um fa-vo-ri-to do meu filho, mas sou EU que insisto que ele empreste, que aprenda a dividir.

(tudo isso dito com ar desaforado, mãozinha na cintura, ao melhor estilo “suburbana-versus-gringa”)

Alguns minutos depois o suicinho já estava pegando os brinquedos do filhote de novo.

Então vejamos o que diria uma mãe de espírito elevado, dotada de paciência e pernas depiladas:

“Filho, não guarda rancor e empresta o seu brinquedo pra ele. Assim você ensina pro menino que dividir é legal.”

Agora vejamos o desfecho da mesma cena, desta vez por uma mãe cronicamente estafada, pernas  peludas e cutículas saindo pelo ladrão:

“Filho, corre lá e arranca o jacaré da mão daquele moleque. Que nem fodendo que aquele projeto-de-mão-de-vaca-suíça vai brincar com suas coisas”.

Mãe Amiga

Outra consequência de se ficar grudada na cria 24 horas por dia, todos os dias, é que vocês passam a ter código e condutas que só melhores amigos possuem: risada de porquinho, concurso de arroto, linguagem própria. Este último vale um post, e aconteceu de maneira bem natural: do nada começamos a arrancar a última sílaba das palavras.

Estou na cozinha e digo “Noah, quer um pouco de su?” E começamos a rir. Então ele vai pra piscina e grita “socô, socô”. E a gente se acaba de rir. Mamãe virou mamã, cadeira virou cadê, suco é SU, socorro é socô. Hoje de manhã ele ampliou nossa linguagem secreta, chamando chafariz de chafalá (vide vídeo).

Noah também deu pra compor músicas com uma batida meio gospel, digamos assim. A letra me remete a uma mistura de música evangélica com A metade da laranja, de Fábio Júnior, e diz assim:

“Agonição, agonição, agonição

De amor, de amor”

Eu registrei essas e outras maluquices nesse vídeo. Isso que dá passar o dia inteiro a la grudê.

Um bom ano pra nós todos, gente bonita.

comentários maldosos (e o dia em que gisele me chamou de invejosa)

Eu nunca colecionei inimigos.

Não sei o que acontece, mas inimigos profissionais – aqueles encrenqueiros que zanzam por aí em busca de desafetos – tendem a me ignorar por completo e buscar treta em outro quintal.

Na blogosfera é igual  – dificilmente recebo desaforos gratuitos de leitores galos de briga. Até porque, cá pra nós, esse não é exatamente um blog polêmico, vai.  Eu não levanto teorias, não mostro a bunda em rede nacional (é que ninguém quer ver!)  e não tenho a pretensão de ensinar ninguém a ser mãe.

Dito isto, vez ou outra recebo uns comentários que pelamor, eu não mereço.

Já fui chamada de pessoa amargurada, veja você. Já fui acusada de passar a impressão equivocada de que a maternidade seria fácil e engraçada. E, ao contrário, alguém já insinuou que eu demonizava a maternidade de tal maneira,  que fazia com que mulheres sem filhos perdessem a vontade de tê-los.

Acho que comentário maldoso, maldoso MESMO só recebi um, que, em resumo, afirmava que se eu havia me recuperado tão rapidamente do aborto é porque eu não queria o bebê. Ouch, essa doeu.

Mas doeu só na hora. Porque eu logo conclui que não era nada pessoal. E que gente assim acorda determinada a detonar com o dia de qualquer pessoa que lhe cruze a frente. E no meio do caminho dela tinha o Piscar de Olhos. E foi nele mesmo, que ela lançou a cacetada.

***

Então, sim,  sou uma pessoa afortunada e praticamente inimigos-free. Porque, convenhamos, colecionar 7 ou 8 comentários desaforados em meio aos cerca de 3 mil comentários já feitos nos 100 posts deste blog, pra mim, é sorte que não acaba mais.

E eu nem me dou ao trabalho de ter que apagar comentário maledicente. Eu simplesmente não aprovo. Ah, não aprovo MESMO. Que o blog é meu e eu aplico nele as mesmas regras que aplico pra minha casa: e na minha casa ninguém entra com sapato sujo.

***

Mas na semana passada eu fiquei meio passada com um comentário anônimo. E queria aproveitar pra respondê-lo, posso?

Oi, Dona Anônima,

Recebi seu comentário. E não, não aprovei e nem vou aprová-lo. Este blog é gerenciado dentro do sistema ditatorial.

Não aprovei, primeiramente, pelo seu linguajar.  Veja bem,  estou longe de ser pessoa pudica. Mas palavrões aqui, só vindos de mim (ou das colega-tudo).

Segundo, porque acho que quem faltou com respeito aos portadores de TOC foi a senhora. Nunca foi minha intenção desmerecer as dificuldades de quem sofre de Transtornos Obssessivos Compulsivos.

Até porque a sombra do TOC me persegue desde a infância, se a senhora insiste em saber. Quantas vezes me vi tendo que contar até 50 de trás pra frente ou contar quantas frases tinham uma determinada música, só pra salvar meu pai de um possível acidente ou minha mãe de uma doença terminal?

Hoje ele me aborrece bem menos, porque penso nele como uma voz que sussurra medos infundados no ouvido da gente. Mas isso não quer dizer que vez em quando não acorde 3 ou 4 vezes durante a noite, só pra ver se a porta está mesmo trancada. Ou se o gás não está vazando. Ou se meu filho não foi raptado.

Falta de respeito é a senhora se referir aos portadores de TOC como loucos.  Não, dona anônima, portadores de TOC  não são loucos.  Recomendo que a senhora procure um profissional, compre um livro a respeito ou use e abuse do nosso amigo google pra descobrir um pouco mais sobre o TOC e referir-se a ele com mais respeito.

A senhora também me acusa a tirar sarro da loucura alheia. Não, eu não tiro sarro de louco. Eu sou até bem fã da loucura. E acredito que, de celulite e louco, todo mundo tem um pouco.

Um exemplo. Faz tempo que eu corro no Aterro do Flamengo. E ali no Aterro tem uma pedra bem grandona, com uma estátua de uma garça linda, branquinha, empinada, olhando para o horizonte.

Ontem de manhã, correndo no Aterro, me aconteceu a coisa mais maluca e inusitada EVER, Dona Anônima. Tá sentada? A senhora não vai acreditar, mas a estátua de garça SE MEXEU.

Eu tomei um susto tão grande, mas tão grande, que meu coração disparou, eu fiquei meio sem ar, tropecei e só não caí porque sou moça equilibrada (?).

A primeira coisa que eu fiz foi ir falar com o pipoqueiro:

– O senhor também viu?? Mexeu, viu?

– Claro que mexeu – diz o rapaz da pipoca. As garças se mexem mesmo. E voam também, sabia? – e soltou uma risadinha debochada, daquelas  que só os pipoqueiros que já viram de-tu-do-nes-sa-vi-da sabem dar.

Ai, eu fiquei muito transtornada. Se aquela garça não era uma estátua, então todo dia, toda hora, o dia inteiro parava uma garça igualzinha NA MESMA PEDRA e ficava fingindo ser estátua?!

Por toda minha corrida, não consegui pensar em outra coisa que não fosse a garça dissimulada que fingia ser estátua.

Ou seriam várias garças, um bando delas, que se alternavam na difícil tarefa de estatuar??

Talvez fosse tudo um complô garcez! E elas só iam pra cima da tal pedra quando  viam que eu estava me aproximando!!

– Aí, moçada! Lá vem a otária. Qual de nós vai estatuar hoje?

– Hahahaha, eu vou, eu vou! Mas hoje vou me mexer um pouco pra ela ficar griladona!!

– Hehehe, maneiro!

Então, Dona Anônima, veja bem: eu não me sinto em posição de menosprezar ou desconsiderar nenhum dos dois grupos mencionados pela senhora.

Não menosprezo quem tem TOC porque eu mesma tenho meus momentos difíceis.

E nem sacaneio os loucos – porque, como a senhora acabou de perceber, o presente blog é escrito por uma pessoa que tem certeza absoluta que existe CONTRA ELA um bem planejado complô, arquitetado por um grupo de malignas garças do Aterro do Flamengo.

Estamos entendidas?

***

Ainda sobre comentários:  aproveito pra dizer que ando meio atrapalhada, tenho comentado pouco, me perdoem. A gente vai embora no começo de dezembro e eu e maridão temos matado uns três leões por dia. Perdoa, uma hora eu volto.

***

E já que o assunto hoje é comentário, não resisto: tenho que terminar esse post com um comentário que recebi em setembro passado, que se referia a um texto sobre a nossa amiga Gisele:

Isso é inveja sua.

Ora, se eu achei tempo pra responder ao comentário desaforado da Dona Anônima, como raios não vou responder a comentário vindo de nada menos que GISELE em pessoa, gente?

Mas daí …parte de mim tem certeza absoluta que não foi a Gisele em pessoa que comentou meu post e sim alguma desocupada por aí. Nesse caso…Olha só, Gi, se não foi você que fez esse comentárrio, então é favor comentar o seguinte comentário:

“Claro que não fui eu que escrevi isso, ô Nanica. Era o que me faltava! Eu tenho que cuidar da cria, do marido, salvar as baleias e ainda perder meu tempo vindo num blog escrito por uma louca com mania de perseguição???”

Mas, enquanto você não me manda de volta à minha insignificância, eis minha resposta ao seu comentário.

Oi, Gisele,

Mas é claro que se trata da mais pura e desavergonhada inveja.

Mas tenta entender. Me é humanamente impossível, no auge dos meus (discutíveis) 1 metro e 67 centímetros, nutrir quaisquer sentimentos nobres para com pessoa tão alta, magra, linda e cujo filho desfralda aos 6 meses de idade.

Preciso de tempo, muita meditação e elevação espiritual para que, de minha parte, floresçam sentimentos alvos e bondosos.

Beijos e sorte na sua jornada.

PS: Você sabia, Gisele,  que suas primas (as garças), estão armando um complô contra mim?? Depois sou eu a invejosa, neah?

par ou ímpar?

Então você decide que é mais do que hora de largar um pouco a cria e sair pra balada com o maridão. E não – eu não me refiro ao bom e velho jantar a dois.

Tô falando de sair, sair MESMO: tomar marguerita, dançar lady gaga, ficar amiga da tiazinha do banheiro e voltar pra casa as 4 da manhã, com o sapato na mão.

– O problema é que a gente chega no bar e já começa a falar do Noah, né? Lembra da última vez? ,  diz o insinuante marido.

– Lembro. A gente só falou nele.

– Vamos fazer diferente dessa vez, vai. Tentar manter uma conversa adulta e tal.

– Por mim, vamos, ué.

– Sei.

– Sei o que, François? Você  tá insinuando que EU que sou a monotemática da relação e que não sei falar de outra coisa que não no nosso filho??

– ã-hã.

– Muitíssimo enganado, meu bem. Daquela vez eu fiquei falando nele porque eu AINDA não era uma mãe amadurecida, tá? Iiiiih, hoje é TO-TAL-MEN-TE diferente. Sabe aquela mulher que sabe MUI-TO-BEM separar os papéis de mãe-esposa-amiga-trabalhadora? Pois é. Essa pessoa sou eu. Duvida? Me testa pra ver! Quer falar do que, de economia? Vai, me testa, me testa!

***

Empolgada  e iludida você então decide provar que 1. SIM você é mulher multi-papéis e, portanto, sabe manter uma conversa adulta em um bar; e  2. SIM você reconhece e admite que referida conversa adulta não deve, em hipótese alguma, envolver fraldas, brinquedos ou doenças infantis de qualquer espécie; 3. SIM existem margueritas pós maternidade. YES!!!

Cheia de orgulho de si própria enquanto membra fundadora do M.Q.S.F.O.C.A.F. – Mães que Sabem Falar de Outra Coisa Além dos Filhos – você elabora a sua listinha de afazeres pré-balada:

1. tirar  bolor e teias de aranha de sapatos sexy-mama;

2. andar pela casa com o modelito escolhido + sapatos sexy-mama + trilha sonora que faça você se sentir a mais Sarah das Jessicas Parkers.

3. ensaiar entrada triunfal no bar, com sapatos já devidamente treinados;

4. ensaiar risada pré-maternidade, quando você ainda não se preocupava com a violência e o aquecimento global (risada com cabeça jogada levemente para trás).

5. não utilizar chocolates como método de acalmar ansiedade (lembrar que a saia está EXATAMENTE a um Alpino de não fechar)

6. ensaiar conversinhas que demonstrem o quanto você amadureceu e aprendeu a não ser a típica mãe monotemática. exemplos que funcionam:

* “vocês viram o novo filme do woody allen?”

*”ai, sabe que eu tô louca pra ler o livro de tony blair!?”

*”gente, mas essa paris hilton não pára de mostrar as tetas, né? parece até eu quando estava amamentando!” (não, não, não – nada de amamentação).

7. marcar hora com cabelereiro-gay e implorar que ele tire aquele tequinho de massinha vermelha que Noah grudou na raiz do seu cabelo enquanto você dormia.

***

A primeira coisa que você deve fazer numa pré-balada-adulta-de-assuntos-maduros é evitar aquele salão mais pertinho da sua casa, que é deveras conveniente e baratinho, mas que é lotado de manicures mães.

Daquelas que insistem em te descrever a cor do catarro do filho que sofre de bronquite.

Não, não, não. Escolha um salão adulto, de preferência dos que servem prosecco e são infestados de gays e vogue’s.

Comece a ensaiar conversas adultas com o público gay. Ria, jogando a cabeça pra trás. Peça um prosecco. Tire sarro da capa da Pais & Filhos.

Na saída se olhe no espelho, se ache a mais godiva do irajá, e deixe salão com cara de misteriosa. Pronto. Agora você está pronta para o mundo adulto.

Um mundo glamuroso e distante, onde sapatos de salto fazem toc-toc, copos fazem tim-tim e cabelos são massinha-free.

***

A escolha do bar é importante. Se tem criança melhor não ir. Quem é mãe sabe o quanto é deprimente sair sem a cria e acabar descobrindo que o lugar está lotado de crianças. Porque se é pra sair com filhos, melhor sair com os seus e não com os dos outros, concorda? Ah, eu acho.

Importante também que o bar escolhido não remeta – de forma alguma – a um cenário infantil. Porque, gente,a moda agora é decorar  banheiro de bar com a hello kitty e o pobre do snoopy. Depois o povo reclama de prisão de ventre crônica?! Soy contra.

Outros truques para manter o pensamento longe da cria:

– Afaste-se daquela moça que te recebe no bar, a tal da hostess. Porque embora ela já tenha 18 anos completos, o comprimento da saia dela vai te lembrar e muito a sessão infantil da sua loja preferida.

– Fuja também de conversinhas despretensiosas com a moça da mesa ao lado. Lembre-se: ela pode ser mãe e, se descobrir que você também é, vai certamente iniciar a longa e inconfundível conversa do “porque a minha…”

– Atenha-se aos sinais da vida. Alguns indícios de que o sujeito da mesa ao lado é pai, ou que a moça pra quem você está segurando a porta do banheiro é mãe, são gritantes:

*foto de criança na carteira;

* nuca de mulher tatuada com “te amo, minha alice”; braço de homem tatuado “francisco pra sempre”;

* e o inconfundível pingente:  “sou mãe…me abraça?”

***

Mais tarde, na pista de dança.

– Amor, vam’bora? Já são 2 da manhã!, diz o responsável marido.

– Que?? Não tô te ouvindo!! Adoro essa música!!!, retruca a pombagira esposa.

– São 2 da manhã, amor. Bora? Amanhã de manhã você já sabe, né? Noah acorda as 7.

– Que?? Noah??? Que Noah?? Ai, amor, seja adulto, só sabe falar de filho, filho, filho. Olha essa música, u-huuu!

– Tá bom, então, cê que sabe.

– Marguerita, amor. Duas. U-huuuuu.

***

Mais tarde, no quarto do casal.

– Amor, olha só, não vou poder acordar as 7, não. Já são 4 e eu ainda tenho que tirar a maquiagem (soluça)

– Eu avisei.

– Ah, não, François. Você acorda e convence ele a assistir DVD, vai?

– Não, não. Nós dois acordamos, diz o marido.

– Par ou ímpar?

– De jeito nenhum. Você rouba no par ou ímpar, Roberta! Aliás, me ensina o truque, vai?

– Qual truque? (soluça)

– De roubar no par ou ímpar.

– Claro, amor. Assim ó…

(e num impulso alcoólico margueritento, a outrora decidida multi-papéis-mulher-mãe-esposa-gambá entrega ao rival o seu mais bem guardado e valioso segredo EVER: como roubar no par ou ímpar).

***

3 horas depois…

A cria acorda, chama pela mãe e diz que quer “bincá”.

Você então explica que hoje a brincadeira é…ASSISTIR DVD DEITADO!!!

– Filho, olha só, assistir DVD deitado é muuuito legal, ó, vem aqui (e boceja, se esparramando no sofá).

– Não, mamãe, passiá.

– Passear, filho?? Não, passear é podre. Deita aqui do ladinho da mamãe, deita.

– Mamãããããe, qué passiá!!

E vocês se dão por vencidos e se arrastam até a porta: o casal destruído, o filho feliz e agitado e uns cinco engoves vencidos – todos rumo a um lindo pesadelo passeio no Jardim Botânico.

– Blagh, passando mal. Se ele fizer cocô você limpa, vai! – diz a mãe de óculos escuros, camiseta do avesso e sapatos ZERO glamour.

– Hum…par ou ímpar?

***

Ao que se pode concluir que:

M.Q.S.F.O.C.A.F. – Mães que Sabem Falar de Outra Coisa Além dos Filhos é lenda urbana. Nunca cruzei com sequer UMA mãe que conseguisse se abster de mencionar a cor do cocô ou os hábitos alimentares da prole.

– E de que me adianta o woody allen, o tony blair, a lady gaga, a economia, moda, aquecimento global e outras conversas adultas, se, no final, a porra da fralda suja de cocô sempre sobra pra mim?

– Sapatos sexy-mama são lindos e glamurosos. Mas eles deixam calos e fissuras que são simplesmente incompatíveis com a longa caminhada a que você, madame multi-papéis, será submetida no dia seguinte.

– Falando em compatibilidade : Marguerita e Maternidade são tão compatíveis quanto Paris Hilton e amamentação.

–  Conversa de mãe é que nem massinha no cabelo: você até pode se livrar dela por um tempo – mas, acredite: ela vai voltar.