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o buda e o michael jackson

E vocês acham que eu não sei que isso não se faz?

Sumir assim, de maneira tão foragida, surrupiada e misteriosa?

Sim, porque não há desaforo mais desalentado nessa vida de meu deus que evadir-se dos seus, deixando porra nenhuma de pista de seu paradeiro.

O cumadis, perdoa, vá.

Mas é que nesse momento há tanta, mas TANTA vida lá fora, que eu me recuso a ficar aqui dentro.

Nem foi tanto tempo assim desde a última vez que a gente se falou, mas de lá pra cá muita coisa sucedeu, a saber:

Noah está na escola e eu sou mulher depilada e fresquinha de tu-do.

Vida semi-organizada, casa semi-mobiliada e pernas devidamente depiladas, comecei a vagar por aí. Dia desses juntei toda minha faceirice e fui numa lojinha chinesa comprar umas quinquilharias xingui-lingui.

Chegando em Chinatown, vi esse templo budista lindo de chorar e resolvi dar aquela entradinha curiosa. Ali me deparei com um monge (tão ou mais depilado que eu) que veio em minha direção, sorriu aquele sorriso mongístico, me apontou um incenso de cheiro adocicado e me falou uma meia dúzia de palavras fofo-tibetanas.

Saí de lá leve, com a existência impregnada de incenso adocicado, feliz e espiritualizada e, flutuando, entrei na loja da esquina, que vendia os budas mais lindos que eu já vi.

Eu fui pra Chinatown em busca de quinquilharias xingui-lingui. Voltei de lá  matriculada no Yoga, decidida a levar a meditação a sério e com um Buda do tamanho de uma criança de 1 ano embaixo dos braços.

(o que me leva a suspeitar de que, além de doce, aquele diacho de incenso dá  um  barato for-tís-si-mo, vai por mim).

se te chamarem de doida a gente põe a culpa no incenso, tá mamãe?

***

Eu já vinha me enveredando nos caminhos da tal meditação desde que ainda estávamos no Rio. Nenhum motivo especial. Só achei que ser mãe estava me deixando doida, muito doida demais e que, por ser a maternidade tão intensa, tinhosa e barulhenta, ela estava acabando por me ensurdecer. Eu precisava ficar em silêncio pra poder ouvir as vozes que residem o fundo do fundilho dos meus pensamentos. Sim pessoal, as vozes. Num ri, não, vá.

Daí pensei: já que a vida me mandou pra Asia, que é o berço da meditação, então bora comprar um Buda estiloso, calar a boca por alguns minutos do dia e perseguir o sonho de ser pessoa mais centrada e misteriosa. Porque, né, se até a Madonna que já cuspiu na estátua da Virgem Maria e beijou a boca da Britney Spears consegue, então porque não eu?

Do que se pode especular dois desfechos a longo prazo, a saber:

Desfecho número 1:

A meditação, o yoga e um bocado de incenso adocicado surtem efeito e eu me livro de todas as neuras, preocupações, TOC’s e culpas, chegando ao patamar máximo de iluminação e vida plena. Elimino, completamente, a carne da minha vida. Compro um gato, o qual passo a chamar Dalai Lama e, uma vez por ano, me jogo num daqueles retiros na India, onde como lentilha e vegetarianices em geral, medito e faço voto de silêncio durante 15 dias seguidos.

Desfecho número 2:

Assim como abandonei a natação e o boxe, eu abandono a meditação e viro piada aqui em casa.

– Papai, lembra aquela vez que a mamãe comprou um buda do tamanho de uma criança de 1 ano e trouxe ele pra casa, de metrô?

– Hahahahaha, lembro, filho. Ela cismou que ia meditar todos os dias até o final da vida dela, que durou só dois meses, ô vida curta.

– Hahahahaha, foi na mesma época em que ela resolveu que o gato ia se chamar Dalai Lama, ói que original. O manhê, cê já voltou a comer carne ou vai esperar a libertação do Tibet antes? Hahahahahaha.

E os dois se acabam de rir, enquanto eu, de cabeça baixa, divido minha picanha nada vegetariana com o gato Dalai Lama.

de metrô: filho num braço, buda no outro

***

Mas não foi pra falar de mim que eu vim aqui, não. Queria dizer que tenho lido todos os blogues comadrentos e compadrentos- comadres da velha guarda e as que vem surgindo por aí. Aliás, caraca, quanto blog novo. Quero muito fazer uma atualização dos blogues amigos, mas me falta coordenação pra realizar esse tipo de trabalho burocrático. As vezes eu acho que quem precisa de uma babá sou eu.

Mas falando do que interessa, Noah está muito bem, obrigada. Fica na escola até as 2 da tarde e volta pro colo da mamá, onde permanece até que a última lâmpada se apague.

Muita gente já tinha me alertado, mas nunca na minha vida que eu ia acreditar que em tão pouco tempo o rapaz já fosse me sair com tanta palavra estrangeira no vocabulário. E tanto orgulho assim cabe num coração de mãe, gente? Tô me achando pessoa mega importante e desenvolta, quando o mérito é, na realidade, dele e somente dele.

Macaco virou monkey, desculpa virou sorry e rio virou RIVA. Distribui hellos por onde chega e bye-byes por onde sai.

Dia desses me olhou, apontou pra pia e disse:

– MOCHORRENDS, mamãe, MOCHORRENDS.

Levou coisa de 3 dias pra eu entender que o rapaz tava era, de fato, me mandando lavar as mãos (repita em voz alta WASH YOUR HANDS, e repare na semelhança fonética, please).

monkeys são amigos

***

Enfim, a escola. Na turma dele tem uma japonesinha linda de morrer, uma boneca de porcelana, que, ave maria, desenvolveu uma paixão precoce e turbulenta para com a pessoa do meu filho. Sei disso porque além de mãe sou mulher:  percebo sentimento mal intencionado de longe.

Em comum eles carregam a expatriação: os dois saíram da pátria que chamavam de sua e foram apresentados a esse mundo de meu deus. Um fala português, a outra japonês; Ele adora dançar, ela curte mesmo é um quebra-cabeça. A mais meiga leitura de Eduardo e Mônica, versão nipo-brasileira (quem lembra de eduardo & mônica, levanta a mãozinha!)

Daí que outro dia fui buscar o pequeno e a bonequinha japonesa estava chorando. Me chamou a atenção a maneira peculiar e silenciosa com a qual a garota chorava: as duas mãozinhas na frente do rosto, ela balançava o corpo pra frente e pra trás, soluçando, bem baixinho.

Pensei “Sorte é da mãe dela que não passa vergonha enquanto o filho berra e se joga no chão do shopping center”.

Passado um tempo, Noah me pediu algo, eu não dei e ele foi pro quarto dele. Achei esquisitíssima aquela ausência de piti e fui atrás: lá estava ele, sentado no chão, mãozinhas segurando o rosto, chorando silenciosamente.

Nisso marido entrou no quarto e disse “chega a ser bonitinho..”

– Bonitinhoooooo?? Tá louco, amor??? O rapaz vai crescer TODO repreendido, TODO cheio de minhoca não extravasada na cabeça, TODO Michael Jackson, deus o tenha?! E daí quando ele crescer e o terapeuta concluir que é TUDO culpa da mãe repressora, é você que vai pagar terapia, viu? A dele e a minha.

E a louca continua:

– Filho, pode levantar já daí e dar piti. Põe pra fora, grita, extravasa, roda a baiana, filhote! Eu, hein!

a culpa é da mãe, aquela repressora de emoções

***

Tirando a garotinha que chora baixinho, todos os outros amiguinhos da escola são porra loucas iguais a  meu filho, então certeza que ele está em ótima compania.

Porque não importa de que parte do mundo ela seja, criança de 2 anos é criança de 2 anos. Crianças dessa idade dão piti, tiram a gente do sério e são imensa e completamente adoráveis, com suas tiradas, declarações de amor e constante alegria de viver.

E talvez tenha sido essa a razão do meu sumiço: eu fiquei com medo de piscar os olhos e perder isso…

happy chinese new year!

Juro que a partir de agora estarei mais presente. Toda centrada, espiritualizada, mas sempre do fundão.

Esse post é dedicado a todas as fofas que me pediram sinal de fumaça, explicitamente, por email, por comentário ou em pensamento, em especial a Luciana, Robertinha, Patrícia, Paloma, Lia, Flavia, Carol, Dani, Paula, Thais, Cynthia, Tchella, Marcia, Mariana, Thaty, Kamila, Jussara, Rachel, Marycea (que leu o meu último post, mostrou pro marido, os dois se inspiraram e resolveram parar com a pílula – acredito que isso me autoriza a ser madrinha virtual do rebento, então?). A todas que me deram força no post de chegada a Cingapura e, em especial, a uma outra mãe do fundão, leitora que eu ADORO, dona de alguns dos comentários mais cômicos deste blog – Regina Tavares. A imagem da sua filha cantando Agonição de Amor me fez passar mal de gargalhar…porque raios você não nos presenteia com um blog, hain menina?

par ou ímpar?

Então você decide que é mais do que hora de largar um pouco a cria e sair pra balada com o maridão. E não – eu não me refiro ao bom e velho jantar a dois.

Tô falando de sair, sair MESMO: tomar marguerita, dançar lady gaga, ficar amiga da tiazinha do banheiro e voltar pra casa as 4 da manhã, com o sapato na mão.

– O problema é que a gente chega no bar e já começa a falar do Noah, né? Lembra da última vez? ,  diz o insinuante marido.

– Lembro. A gente só falou nele.

– Vamos fazer diferente dessa vez, vai. Tentar manter uma conversa adulta e tal.

– Por mim, vamos, ué.

– Sei.

– Sei o que, François? Você  tá insinuando que EU que sou a monotemática da relação e que não sei falar de outra coisa que não no nosso filho??

– ã-hã.

– Muitíssimo enganado, meu bem. Daquela vez eu fiquei falando nele porque eu AINDA não era uma mãe amadurecida, tá? Iiiiih, hoje é TO-TAL-MEN-TE diferente. Sabe aquela mulher que sabe MUI-TO-BEM separar os papéis de mãe-esposa-amiga-trabalhadora? Pois é. Essa pessoa sou eu. Duvida? Me testa pra ver! Quer falar do que, de economia? Vai, me testa, me testa!

***

Empolgada  e iludida você então decide provar que 1. SIM você é mulher multi-papéis e, portanto, sabe manter uma conversa adulta em um bar; e  2. SIM você reconhece e admite que referida conversa adulta não deve, em hipótese alguma, envolver fraldas, brinquedos ou doenças infantis de qualquer espécie; 3. SIM existem margueritas pós maternidade. YES!!!

Cheia de orgulho de si própria enquanto membra fundadora do M.Q.S.F.O.C.A.F. – Mães que Sabem Falar de Outra Coisa Além dos Filhos – você elabora a sua listinha de afazeres pré-balada:

1. tirar  bolor e teias de aranha de sapatos sexy-mama;

2. andar pela casa com o modelito escolhido + sapatos sexy-mama + trilha sonora que faça você se sentir a mais Sarah das Jessicas Parkers.

3. ensaiar entrada triunfal no bar, com sapatos já devidamente treinados;

4. ensaiar risada pré-maternidade, quando você ainda não se preocupava com a violência e o aquecimento global (risada com cabeça jogada levemente para trás).

5. não utilizar chocolates como método de acalmar ansiedade (lembrar que a saia está EXATAMENTE a um Alpino de não fechar)

6. ensaiar conversinhas que demonstrem o quanto você amadureceu e aprendeu a não ser a típica mãe monotemática. exemplos que funcionam:

* “vocês viram o novo filme do woody allen?”

*”ai, sabe que eu tô louca pra ler o livro de tony blair!?”

*”gente, mas essa paris hilton não pára de mostrar as tetas, né? parece até eu quando estava amamentando!” (não, não, não – nada de amamentação).

7. marcar hora com cabelereiro-gay e implorar que ele tire aquele tequinho de massinha vermelha que Noah grudou na raiz do seu cabelo enquanto você dormia.

***

A primeira coisa que você deve fazer numa pré-balada-adulta-de-assuntos-maduros é evitar aquele salão mais pertinho da sua casa, que é deveras conveniente e baratinho, mas que é lotado de manicures mães.

Daquelas que insistem em te descrever a cor do catarro do filho que sofre de bronquite.

Não, não, não. Escolha um salão adulto, de preferência dos que servem prosecco e são infestados de gays e vogue’s.

Comece a ensaiar conversas adultas com o público gay. Ria, jogando a cabeça pra trás. Peça um prosecco. Tire sarro da capa da Pais & Filhos.

Na saída se olhe no espelho, se ache a mais godiva do irajá, e deixe salão com cara de misteriosa. Pronto. Agora você está pronta para o mundo adulto.

Um mundo glamuroso e distante, onde sapatos de salto fazem toc-toc, copos fazem tim-tim e cabelos são massinha-free.

***

A escolha do bar é importante. Se tem criança melhor não ir. Quem é mãe sabe o quanto é deprimente sair sem a cria e acabar descobrindo que o lugar está lotado de crianças. Porque se é pra sair com filhos, melhor sair com os seus e não com os dos outros, concorda? Ah, eu acho.

Importante também que o bar escolhido não remeta – de forma alguma – a um cenário infantil. Porque, gente,a moda agora é decorar  banheiro de bar com a hello kitty e o pobre do snoopy. Depois o povo reclama de prisão de ventre crônica?! Soy contra.

Outros truques para manter o pensamento longe da cria:

– Afaste-se daquela moça que te recebe no bar, a tal da hostess. Porque embora ela já tenha 18 anos completos, o comprimento da saia dela vai te lembrar e muito a sessão infantil da sua loja preferida.

– Fuja também de conversinhas despretensiosas com a moça da mesa ao lado. Lembre-se: ela pode ser mãe e, se descobrir que você também é, vai certamente iniciar a longa e inconfundível conversa do “porque a minha…”

– Atenha-se aos sinais da vida. Alguns indícios de que o sujeito da mesa ao lado é pai, ou que a moça pra quem você está segurando a porta do banheiro é mãe, são gritantes:

*foto de criança na carteira;

* nuca de mulher tatuada com “te amo, minha alice”; braço de homem tatuado “francisco pra sempre”;

* e o inconfundível pingente:  “sou mãe…me abraça?”

***

Mais tarde, na pista de dança.

– Amor, vam’bora? Já são 2 da manhã!, diz o responsável marido.

– Que?? Não tô te ouvindo!! Adoro essa música!!!, retruca a pombagira esposa.

– São 2 da manhã, amor. Bora? Amanhã de manhã você já sabe, né? Noah acorda as 7.

– Que?? Noah??? Que Noah?? Ai, amor, seja adulto, só sabe falar de filho, filho, filho. Olha essa música, u-huuu!

– Tá bom, então, cê que sabe.

– Marguerita, amor. Duas. U-huuuuu.

***

Mais tarde, no quarto do casal.

– Amor, olha só, não vou poder acordar as 7, não. Já são 4 e eu ainda tenho que tirar a maquiagem (soluça)

– Eu avisei.

– Ah, não, François. Você acorda e convence ele a assistir DVD, vai?

– Não, não. Nós dois acordamos, diz o marido.

– Par ou ímpar?

– De jeito nenhum. Você rouba no par ou ímpar, Roberta! Aliás, me ensina o truque, vai?

– Qual truque? (soluça)

– De roubar no par ou ímpar.

– Claro, amor. Assim ó…

(e num impulso alcoólico margueritento, a outrora decidida multi-papéis-mulher-mãe-esposa-gambá entrega ao rival o seu mais bem guardado e valioso segredo EVER: como roubar no par ou ímpar).

***

3 horas depois…

A cria acorda, chama pela mãe e diz que quer “bincá”.

Você então explica que hoje a brincadeira é…ASSISTIR DVD DEITADO!!!

– Filho, olha só, assistir DVD deitado é muuuito legal, ó, vem aqui (e boceja, se esparramando no sofá).

– Não, mamãe, passiá.

– Passear, filho?? Não, passear é podre. Deita aqui do ladinho da mamãe, deita.

– Mamãããããe, qué passiá!!

E vocês se dão por vencidos e se arrastam até a porta: o casal destruído, o filho feliz e agitado e uns cinco engoves vencidos – todos rumo a um lindo pesadelo passeio no Jardim Botânico.

– Blagh, passando mal. Se ele fizer cocô você limpa, vai! – diz a mãe de óculos escuros, camiseta do avesso e sapatos ZERO glamour.

– Hum…par ou ímpar?

***

Ao que se pode concluir que:

M.Q.S.F.O.C.A.F. – Mães que Sabem Falar de Outra Coisa Além dos Filhos é lenda urbana. Nunca cruzei com sequer UMA mãe que conseguisse se abster de mencionar a cor do cocô ou os hábitos alimentares da prole.

– E de que me adianta o woody allen, o tony blair, a lady gaga, a economia, moda, aquecimento global e outras conversas adultas, se, no final, a porra da fralda suja de cocô sempre sobra pra mim?

– Sapatos sexy-mama são lindos e glamurosos. Mas eles deixam calos e fissuras que são simplesmente incompatíveis com a longa caminhada a que você, madame multi-papéis, será submetida no dia seguinte.

– Falando em compatibilidade : Marguerita e Maternidade são tão compatíveis quanto Paris Hilton e amamentação.

–  Conversa de mãe é que nem massinha no cabelo: você até pode se livrar dela por um tempo – mas, acredite: ela vai voltar.

o dia em que eu não morri

Putz, essa noite eu sonhei que passava dessa pra uma melhor. Nada trágico, nenhuma grande perda pra humanidade nem nada do gênero.

O problema é que quando cheguei no paraíso Noah me telefonou.

– Oi, mamãe. Você morreu e esqueceu de comprar uva pra mim. Sacanagem, você sabe que eu não vivo sem uva.

– Ah, filho, não deu tempo. Pede pro papai.

– O papai detesta ir ao Hortifruti, mamãe, você sabe disso.

– Verdade…

– Outra coisa, manhê. Eu entrei no seu blog e não tem nenhuma foto minha na França! Não dá pra você postar daí não?

– Ah, filho, era o que me faltava. Mamãe tem mais o que fazer aqui no paraíso (que foi, gente? se o sonho é meu, eu morro e sou mandada pra onde eu quiser, licença?)

– Ah, mamãe, coloca as fotos no blog, vai.

– Ah, tem dó, Noah, pede pro seu pai.

– Papai tá ocupado.

-Ocupado fazendo o que, meu deus?

– Ué, casando.

Acordei aos berros, peguei o marido pelo braço e falei que achava um de-sa-fo-ro ele casar com alguém só pra não ter que ir na porra do Hortifruti comprar uva pro filho.

Passado o susto (dele) eu resolvi que seria bom que se eu morresse ele tivesse a senha do blog. Certo? Que caso contrário como é que vocês iam ficar sabendo, gente?

Então dei a senha do blog e fiz ele prometer que se eu batesse as botas ele escreveria um post de despedida, falando somente coisas maravilhosas sobre a minha pessoa.  E fiz ele jurar de pés juntos que terminaria tal post assumindo a culpa por nós termos ficado sem fraldas no vôo Rio-Paris.

Primeiro ele me olhou arregalado, como ele sempre olha quando acha que estou falando algum absurdo #frequente#. Mas depois ele logo perguntou:

– Mas será que alguém vai comentar meu post?

– Deixa comigo que eu vou falar com o pessoal.

– Vai falar o que, Roberta?

– Ué, vou falar que a gente conversou sobre isso, que eu te autorizei a escrever um post caso eu bata as botas e que é favor comentar o seu post póstumo de coisas bonitas sobre a minha pessoa. O pessoal vai entender, confia em mim.

– Ro, pelamordedeus, escuta o que você tá falando. Diz pra mim que você não vai pedir pros seus leitores que eles comentem o meu suposto post póstumo.

– Mas é claro que vou pedir.

– Eles vão achar que você é louca de pedra.

– Amor, ali a maioria é mãe, e mãe você sabe…

– Verdade. Uma pior que a outra.

–  ã-hã.

Então, gente, por favor: comentem o tal post postmortem. Pela compreensão, obrigada.

E François: você me deve 50 reais.

***

Então, filhote. Aqui estão algumas fotinhas de nossa linda aventura pela França. Como eu não vou morrer tão cedo, e ainda pretendo escolher conhecer sua esposa e dar pitaco na educação amar seus filhos vou deixar as outras tantas fotos pra depois, combinado?

Pois bem. Aos 21 meses, na nossa primeira viagem juntos ao país do seu pai, você:

* Foi de Paris a Quimper em um trem super-mega-rápido, onde constatou que as pessoas não respondiam bem ao seu “bom dia”. Então foi neste trem que você começou a gastar seu francês, disparando “bonjour” até pra maçaneta do banheiro.

bonjour passarinho, bonjour janela, bonjour maçaneta

* Descobriu a liberdade de se correr por uma praia tão vazia de gente mas tão maravilhosamente cheia de história…

e descobriu que sunga carioca é bem diferente de sunga bretona...

* E você teve a honra de dormir na casa construída pelo seu tataravô. Seu tataravô, aliás, era um homem inteligente e de muita visão. Então ele construiu uma casa de praia forte, resistente a ventos, temporais e alemães.

eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões

* E ali naquela areia em que você brincou (e brincou muito) brincaram também teu avô, teu pai, teus tios e primos. Olha o teu pai aqui, de costas, com seu super cabelo panelinha. E quem não mordia uma fofura dessa, me diz?

as botas do papai com minha sunga...orna, manhê?

* Conheceu becos, ruas, casas medievais. Aprendeu a dizer “que lidu, mamãe” todas as vezes que tua mãe dizia “olha que lindo, filho!”

ai, que lidu, mamãe

flores são nossas amigas

*Descobriu a alta cozinha, aquela que ganha estrela e tudo mais…

* Para logo depois entender que, enquanto adulto adora comida de guia gastronômico, criança curte mesmo é crepe, croissant e baguete…e tem coisa melhor? (tem, filho, tem coisa beeeeem melhor, believe me)


* E você viu seus pais mais apaixonados do que nunca (mamãe perdoou o fato do papai ter esquecido as fraldas, hi hi hi).

não se deixe enganar: esse casal esqueceu as fraldas do bebê

(…)continua

Não perca nos próximos posts:

“França e a família francesa. O dia em que Noah ensinou aos franceses a música da Baleia (aquela que é amiga da sereia)”

***

“Mas será possível ser feliz em Paris com crianças?”

***

“Quem esqueceu as fraldas? – Desvendando o mistério do desfraldamento airfrance.”

***

“Alguém me explica? Porque Paris tem  parques maravilhosos, seguros e de chão emborrachado? “

***

“Alguém me explica II? Após menunciosas pesquisas, a constatação: fralda brasileira é uma merda”

Alguém viu minha identidade por aí???

E, não, colegas – eu não me refiro ao documento de identidade.

Acontece assim: primeiro você desaprende a andar de salto. Depois vira a mãe do Noah (Ou da Clara. Ou do Felipe. Ou dos gêmeos.) Desconhece assuntos que não envolvam fralda, escola, catarro e birra. E perde o contato com seus amigos “desfilhados”.

(Abre parênteses pra explicar que não, sua amiga sem filhos não “esqueceu” de retornar a ligação. Ela sabiamente preferiu pegar um cineminha a ouvir suas estórias sobre adaptação escolar  e nebulizadores.)

Será que sou só eu, ou ser mãe implica mesmo em perder um pouco da identidade? Não é de hoje que eu me vejo meio monotemática. Quando Noah tinha 6 meses eu escrevi isso aqui. E de lá pra cá a coisa piorou, amiga leitora.

E não pára por aí. Além de meio perdidinha e monotemática de pai e mãe você vê aflorar ainda outras surpresinhas da sua personalidade. Adjetivos como CHATA/PENTELHA/CONTROLADORA hoje descrevem cerca de 52% de meu adorável ser.

Outro dia uma leitora-cliente-que -se-tornou-amiga veio aqui em casa e disse que estava se achando uma pessoa meio chatinha. E que toda vez que o marido jogava a filha pra cima (mas que mania é essa que todo homem tem??!)  ela ficava atrás dos dois falando “cuidado com o lustre, ai meu deus, vai bater no teto”.

Eu sou (ou melhor, eu ESTOU) igualzinha a ela.

Talvez a coisa melhore com o tempo. Ou com um segundo filho?

E eu acho que minha situação é agravada pelo fato de que, quando não estou sendo mãe, estou vendendo coisas pra mães, escrevendo/lendo coisas de mãe. E aí me sobram 20 minutos e eu faço o que? Fico pentelhando deputado, em nome de…adivinha? Mães?! Ai, que preguiça.

E daí? Faz o que? Senta e chora? Vai pra terapia? Enche a cara com as amigas solteiras e, quando elas perguntarem como anda a sua vida, você fala “ai, já volto”, corre pro banheiro e fica lá até que elas mudem de assunto?

Vocês também se sentem meio assim?

(Porque terapia MESMO eu vou precisar se vocês me responderem  “Ai, Roberta, nada a ver:  eu sou suuuuuper a mesma pessoa de antes”.)

***

ps: Os comentários do post Filhos do Neocid deveriam ser publicados em livro. Foi libertador pra mim saber que todo mundo (da nossa geração) é meio filho de neocid, cigarrinho de chocolate e suco de revólver. Geração Unidos da Sobreviventes.

hoje é aniversário do cara mais legal do mundo

E o cara mais legal do mundo é o teu pai, veja que golpe de sorte.

Eu acho meio injusto isso da gente não ter memória dos nossos primeiros anos de vida.

Porque se a gente tivesse, cria minha, você ia lembrar que esse cara, o teu pai…

…já te trocou cerca de 2.673 fraldas;

…te deu mais de 422 banhos;

…215 massagens de shantala;

…foram 12.476 beijos;

… 23.514 abraços;

…927 horas em claro;

…11.715 minutos de preocupação;

…e infinitas horas te olhando e te amando incondicionalmente.

Você é muito novinho e não vai lembrar disso disso, filhote, e é por isso que eu faço questão de fazer das minhas as suas palavras e desejar um feliz aniversário pro melhor pai do mundo – o seu!

( agora, cá pra nós – você troca 2.673 fraldas em um ano e meio de vida e o cara só vai começar a lembrar da sua pessoa a partir dos 4/5 anos de idade. Isso que a mãe natureza é mãe – imagine se fosse madrasta.)

***

Por absoluta falta de tempo  (e uma certa dose de cara de pau) segue o vídeo feito no último dia dos pais, com imagens de papai e bebê, dos zero aos oito meses de idade.

Feliz Aniversário. Te amamos muito, sempre.

Recado pro Pai do Noah

Amor,

Desculpa se eu sempre peço pra você PELAMORDEDEUS não colocar o Noah de cabeça pra baixo quando ele acabou de comer. E  te lembro o tempo todo de colocar um casaquinho na mochila pra ele. E de não esquecer o protetor solar.

Entenda, eu sei que, como melhor pai do mundo, você cuida muito bem dele. Mas a natureza nos fez assim. A missão da mãe é ser a pentelha da história. E lembrar de trazer o guarda-chuva.

Eu sei que sem a gente o mundo seria bem mais divertido.

(Mas ele teria apenas 2 e não 6 bilhões de habitantes.)

Agora olha o vídeo que eu fiz pra você. Feliz Dia dos Pais.

Assim vivem os tartarugos marinhos (da série “não basta ser pai…”)

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