Arquivo do mês: março 2011

eu não sabia que estava grávida

Desde aquele meu post sobre a amnésia pós-parto que eu venho recebendo um bocado de email (tipo, 2) me perguntando se eu tinha embarrigado. Daí me senti na obrigação de vir aqui e dizer que não, cumadis, eu não estou grávida.

E quando eu estiver, worry not! Vocês serão os primeiros a saber. Até porque esse é o tipo de coisa que eu não consigo esconder. E quem consegue, gente?!

Bem…as moçoilas do “Eu não sabia que estava grávida” conseguem.

O “Eu não sabia que estava grávida” é um programa da Discovery Home & Health que trata, claro, de gente que pariu sem nem desconfiar que estava grávida.

Por mais que eu tente, eu não consigo, não POSSO entender um troço desse. Minha Nossa Senhora do Teste de Farmácia, como raios pode alguém não SABER que está grávida?!! Nos primeiros três meses, vá lá! Mas ir pro hospital com contrações, aos 9 meses de prenhez, e dizer ao médico:

– Grááááávida, como assim??? Eu achei que tivesse sido a buchada do jantar que estivesse me fazendo mal!!!

Eis o episódio que assisti dia desses: a rapariga sentiu uma “dor de barriga” muito forte, foi pro banheiro, morrendo de dor e começou a fazer força pra…fazer cocô!

Cocô, galera, cocô.

Lá pelas tantas o marido vai lá ver o que está acontecendo e lá está a indivídua, de boca aberta, aos prantos.

E quem é que está dentro da privada? Adivinhem? Isso mesmo, o bebê.

O pior é que o casal fica naquela de “meu deus, não é cocô, é bebê, é bebê” e enquanto isso o baby fica lá, na privada, sozinho.

Bom, sozinho se formos bem otimistas, né, porque depois da força toda que ela fez, seguro que ele estava acompanhado do jantar da noite anterior. Jesus, perceba a atrocidade.

Tá, no final deu tudo certo, a surviver era uma fofa, linda de morrer, nascida a termo, sem sequelas e feliz. Feliz até que alguém, em um futuro nem tão distante, revele as exatas condições em que ela nasceu, literalmente na merda.

Pelo menos não dá pra dizer que ela não veio ao mundo de forma natural e “empoderada”, né verdade?

***

Lembro direitinho como foi que eu desconfiei que estava grávida do Noah.

Não, não foi o céu estrelado, ou uma brisa suave, ou uma música de fundo, nada disso. Foi um besouro, minha gente, um besouro que me fez ter certeza absoluta de que aquilo era gravidez.

Porque só uma grávida e somente ela poderia cair aos prantos ao ver um besouro virado de barriga pra cima. Eu chorava tanto que não conseguia nem ajudar o obeso besouro a virar de barriga pra baixo.

Então eu ficava ali, olhando, chorando e pensando:

– Coitadinho, vítima de seu próprio peso e desproporcionalidade corpórea.

Mal sabia, tolinha, que provaria, eu mesma e em pouco tempo, das agruras de tal desproporcionalidade corpórea.

***

No mais, Noah está numa fase de imitação tão, mas tão profunda, que eu me vejo em muitas das atitudes e coisas que ele diz. E, uia, como eu preciso de terapia.

Porque ele reproduz, com seus bichos de pelúcia, aquilo que vivencia com os pais, concorda?

Bichos enfileirados e ele inicia a sessão, em uma mistura de elogios e esporros.

Coisas do tipo:

– Muito bem, Pepe, comeu tudinho.

– Ai, como eu te amo, Jaca.

– Nossa, já sabe tocar violão!

Mas também coisas menos fofas, do tipo:

– Essa é a última vez que eu peço, Pepe: larga isso já.

– Não, Pepe! Depois sou eu que vou ter que limpar, né?

A pior, de longe, eu ouvi outro dia, enquanto caminhávamos às margens do rio. Noah vira pro Jaca, com quem anda a tira colo e solta essa:

– Jaca, no rio, não! Se você pular no rio vai afundar, os peixes vão te comer e você nunca mais vai ver a mamãe.

Eu sei, gente, eu sei. Mas alguém aí tem a fórmula de se viver sossegada quando se mora DE FRENTE pro rio, com uma criança de 2 anos e pouco? Hein?

Foi o que eu pensei.

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e daí? peço penico?

Dia desses eu tive um sonho bizarro.

No sonho eu queria dar início ao temido desfralde, toda serelepe, munida de penico, adaptador e toneladas de paciência. Sento a cria no peniquinho e saio do banheiro.

Quando volto ele está sentado no penico, com um CHARUTO na boca e um JORNAL na mão. Vira pra mim e diz:

– Ai, mamãe, tô pronto pra isso não. Relaxa, deixa o tempo passar, deixa o meu esfíncter amadurecer e me procura de novo dentro de uns 6 meses. Combinados?

Acordei aliviada.  Noah nem completou 2 anos e 5 meses ainda, acabamos de mudar de país, ele está aprendendo inglês e mandarim ao mesmo tempo, está distante da família…Pra que arrumar sarna pra se coçar, certo? Além do mais, sonho de mãe há de ser prenúncio, aviso, mandinga, macumba. Eu sonhei, tava lá, o cara não tá pronto. Ponto.

Vírgula.

Desde a semana passada que o rapaz me olha, tira a fralda e pede, por gentileza, que eu faça algo a respeito.

Um cinegrafista amador filmou o momento em que a família conversava, despretensiosamente, sobre os dedos feios da Cuca (do Sítio), quando o pobre bípede fraldado anuncia, em alto e bom tom, que a fralda está machucando e que ele quer fazer cocô no banheiro, porra.

Machucando, entenderam?

E daí? Posso fazer que não é comigo? Sento e choro? Peço penico?

ps: o violão ainda está com a etiqueta porque eu acabei de ganhar, pô. Tá bom, tá bom, eu sou daquelas que deixa o plástico no banco do carro novo. Whatever.

ps2: há exatos 2 anos atrás, ele “desfraldou” pela primeira vez, e ói que caca.

a falta de memória pós-parto

Dia desses soube de uma colega que desenvolveu brotoejas láááá nos idos do nono mês de gestação. Isso mesmo: BROTOEJAS no NONO mês. Nono mês, amiga leitora, vulgo “o mês em que você perdeu a capacidade de amarrar o próprio cadarço”.

Pensei: Ora ora, se não vem a ser mais uma piadinha de mau gosto daquela ingrata daquela mãe natureza.

Lá estão mamãe e papai natureza, sentados, decidindo sobre a vida e as agruras das grávidas:

– Ela já tá no nono mês. Que é que eu mando agora?

– Já mandou azia?

– Já.

– Incontinência urinária? Andar de pinguim? Enjôos? Má digestão?

– Já. Já. Já. Já.

– Gases?

– Sim, e fiz questão de mandar gases corneta, com ruídos tipo-sopro-de-balão-esvaziando, que é pra que não passem despercebidos.

– Hum…umbigo invertido? Peitos doloridos? Manchas no rosto?

– Check. Check. Check.

– Ah, já sei! Brotoejas. Mande brotoejas.

– Ok, tô mandando.

– Excelente. E se a moça der mole e ficar grávida por mais umas duas semanas, mandamos… caspas e …já sei! Hemorróidas. Isso! Caspas e hemorróidas.

***

Eu sou a pior pessoa do mundo pra você perguntar sobre os tempos áureos da gravidez. Tive todos os sintomas, inclusive aqueles que só se ocorrem em 3% da população feminina do planeta.

Tive os sintomas corriqueiros, acrescidos de coisas esquisitas e raras, como veias no rosto que imitam formato de aranha.  Também tive veias verdes (?) na barriga, que pareciam cobras. Aranhas, cobras, veias – meu sistema vascular era um verdadeiro Instituo Butantan.

Em alguns momentos da gravidez eu tinha a sensação de ter engolido uma catraca de ônibus. Não pelo tamanho da barriga, mas pelo gosto de ferrugem na boca, blagh. Não demorou muito pra eu descobrir que o tal gosto metálico era mais um sintoma da gravidez, percebidos por apenas 1,5% das mulheres de uma tribo distante do pacífico.

Eu enjoei um bocado, mas não o suficiente pra sair vomitando. Afinal de contas, vomitar emagrece. E a mãe natureza tinha outros planos pra mim:

– Não deixa ela vomitar, não, senão ela não vai conseguir engordar os 22 quilos que eu tenho reservados pra ela.

Aliás eu já contei aqui sobre os quilinhos percebidos durante a gestação. Engordei tanto que pensei que o rapaz já fosse nascer todo adolescente. Mas eles nascem com uns 3 quilos, daí tem 2 quilos de água, mais uns 2 de placenta…todo o resto é banha e cara de pau.

Mas me redimindo sobre o excesso de peso da gravidez, eu tenho lá minhas explicações: engordei mais do que deveria simplesmente porque meu estado gravídico perdurou cerca de 42 semanas. O que me confere o título de gravidez mais longa da história.

E o rapaz ainda me nasce de cesariana. Cesariana, já ouviu falar? Aquela cirurgia onde te cortam SETE camadas de pele, músculo (?) e gordura, abrem o útero, retiram o bichinho e encerram a orgia bisturídica com uns 85 pontos.

Os pontos são internos, de modo a não serem vistos quando você usa biquini. E eu pergunto: quem é que tem coragem de biquini depois do embagulhamento coletivo das  7 camadas abdominais, me diz?

***

Bebê nascido e devidamente acoplado ao peito nos primeiros 5 minutos de vida. Perfeito, pelo menos algo deu muito certo!

Mais ou menos. Porque assim que ele dá a primeiríssima sugada, minha memória musical entra em transe, e me manda a seguinte trilha sonora:

“Do-na, desses traiçoeiros,

So-nhos, sempre verdadeiros (…)”

Tá?

Juro pelo meu filho.

Ali está você, diante do acontecimento mais incrível de sua tenra existência, seu filho degustando seu leite, respirando o seu espírito, dando origem a vida e tudo o que você consegue pensar é em DONA, do ROUPA NOVA.

Existe, ó mãe natureza, alguma coerência e justiça nisso tudo?

***

Mas olha só, nem todo mundo vivencia a gravidez dessa maneira. Conheço grávidas que tiveram tempos prenhes de dar inveja: não sentiram nada, engordaram nada, não tinham crises de mau humor.

Mas é claro, gente! A mãe natureza não é burra, ela faz  isso de propósito: escolhe umas poucas mulheres, faz com que elas se sintam ainda mais lindas, tranquilas e poderosas, e usa as pobrezinhas como garotas propagandas de procriação.

Tô falando, é  TUDO de caso pensado.

Porque se toda grávida passasse 9 meses de descontrole e celulite, quem ia querer um troço desses, me diz?!

Daí você pode me perguntar: ah, mas se gravidez é esse perrengue todo, então porque é que as pessoas decidem ter mais filhos?

Ora, pelo amor louco, que nasce junto com a cria.  Muito amor e muita falta de memória.

Com a palavra, ela, a mãe natureza:

– Já nasceu?

– Já.

– Ok. Então manda uns hormônios cheios de amor incondicional e paixão a primeira vista.

– Combinados com hormônios de amnésia?

– Isso, amnésia, muita amnésia. Daquelas de fazer esquecer até hemorróida.

***

E já que estamos falando de esquecimento – hoje é meu aniversário.

Quem sabe a mãe natureza me mande uns hormônios de esquecimento, pra modo de eu esquecer as noites mal dormidas, os perrengues de toda sorte e os pitis da cria e me preparar  para- quem sabe – um segundo round gravídico.

Quem sabe.