Arquivo do mês: fevereiro 2011

o buda e o michael jackson

E vocês acham que eu não sei que isso não se faz?

Sumir assim, de maneira tão foragida, surrupiada e misteriosa?

Sim, porque não há desaforo mais desalentado nessa vida de meu deus que evadir-se dos seus, deixando porra nenhuma de pista de seu paradeiro.

O cumadis, perdoa, vá.

Mas é que nesse momento há tanta, mas TANTA vida lá fora, que eu me recuso a ficar aqui dentro.

Nem foi tanto tempo assim desde a última vez que a gente se falou, mas de lá pra cá muita coisa sucedeu, a saber:

Noah está na escola e eu sou mulher depilada e fresquinha de tu-do.

Vida semi-organizada, casa semi-mobiliada e pernas devidamente depiladas, comecei a vagar por aí. Dia desses juntei toda minha faceirice e fui numa lojinha chinesa comprar umas quinquilharias xingui-lingui.

Chegando em Chinatown, vi esse templo budista lindo de chorar e resolvi dar aquela entradinha curiosa. Ali me deparei com um monge (tão ou mais depilado que eu) que veio em minha direção, sorriu aquele sorriso mongístico, me apontou um incenso de cheiro adocicado e me falou uma meia dúzia de palavras fofo-tibetanas.

Saí de lá leve, com a existência impregnada de incenso adocicado, feliz e espiritualizada e, flutuando, entrei na loja da esquina, que vendia os budas mais lindos que eu já vi.

Eu fui pra Chinatown em busca de quinquilharias xingui-lingui. Voltei de lá  matriculada no Yoga, decidida a levar a meditação a sério e com um Buda do tamanho de uma criança de 1 ano embaixo dos braços.

(o que me leva a suspeitar de que, além de doce, aquele diacho de incenso dá  um  barato for-tís-si-mo, vai por mim).

se te chamarem de doida a gente põe a culpa no incenso, tá mamãe?

***

Eu já vinha me enveredando nos caminhos da tal meditação desde que ainda estávamos no Rio. Nenhum motivo especial. Só achei que ser mãe estava me deixando doida, muito doida demais e que, por ser a maternidade tão intensa, tinhosa e barulhenta, ela estava acabando por me ensurdecer. Eu precisava ficar em silêncio pra poder ouvir as vozes que residem o fundo do fundilho dos meus pensamentos. Sim pessoal, as vozes. Num ri, não, vá.

Daí pensei: já que a vida me mandou pra Asia, que é o berço da meditação, então bora comprar um Buda estiloso, calar a boca por alguns minutos do dia e perseguir o sonho de ser pessoa mais centrada e misteriosa. Porque, né, se até a Madonna que já cuspiu na estátua da Virgem Maria e beijou a boca da Britney Spears consegue, então porque não eu?

Do que se pode especular dois desfechos a longo prazo, a saber:

Desfecho número 1:

A meditação, o yoga e um bocado de incenso adocicado surtem efeito e eu me livro de todas as neuras, preocupações, TOC’s e culpas, chegando ao patamar máximo de iluminação e vida plena. Elimino, completamente, a carne da minha vida. Compro um gato, o qual passo a chamar Dalai Lama e, uma vez por ano, me jogo num daqueles retiros na India, onde como lentilha e vegetarianices em geral, medito e faço voto de silêncio durante 15 dias seguidos.

Desfecho número 2:

Assim como abandonei a natação e o boxe, eu abandono a meditação e viro piada aqui em casa.

– Papai, lembra aquela vez que a mamãe comprou um buda do tamanho de uma criança de 1 ano e trouxe ele pra casa, de metrô?

– Hahahahaha, lembro, filho. Ela cismou que ia meditar todos os dias até o final da vida dela, que durou só dois meses, ô vida curta.

– Hahahahaha, foi na mesma época em que ela resolveu que o gato ia se chamar Dalai Lama, ói que original. O manhê, cê já voltou a comer carne ou vai esperar a libertação do Tibet antes? Hahahahahaha.

E os dois se acabam de rir, enquanto eu, de cabeça baixa, divido minha picanha nada vegetariana com o gato Dalai Lama.

de metrô: filho num braço, buda no outro

***

Mas não foi pra falar de mim que eu vim aqui, não. Queria dizer que tenho lido todos os blogues comadrentos e compadrentos- comadres da velha guarda e as que vem surgindo por aí. Aliás, caraca, quanto blog novo. Quero muito fazer uma atualização dos blogues amigos, mas me falta coordenação pra realizar esse tipo de trabalho burocrático. As vezes eu acho que quem precisa de uma babá sou eu.

Mas falando do que interessa, Noah está muito bem, obrigada. Fica na escola até as 2 da tarde e volta pro colo da mamá, onde permanece até que a última lâmpada se apague.

Muita gente já tinha me alertado, mas nunca na minha vida que eu ia acreditar que em tão pouco tempo o rapaz já fosse me sair com tanta palavra estrangeira no vocabulário. E tanto orgulho assim cabe num coração de mãe, gente? Tô me achando pessoa mega importante e desenvolta, quando o mérito é, na realidade, dele e somente dele.

Macaco virou monkey, desculpa virou sorry e rio virou RIVA. Distribui hellos por onde chega e bye-byes por onde sai.

Dia desses me olhou, apontou pra pia e disse:

– MOCHORRENDS, mamãe, MOCHORRENDS.

Levou coisa de 3 dias pra eu entender que o rapaz tava era, de fato, me mandando lavar as mãos (repita em voz alta WASH YOUR HANDS, e repare na semelhança fonética, please).

monkeys são amigos

***

Enfim, a escola. Na turma dele tem uma japonesinha linda de morrer, uma boneca de porcelana, que, ave maria, desenvolveu uma paixão precoce e turbulenta para com a pessoa do meu filho. Sei disso porque além de mãe sou mulher:  percebo sentimento mal intencionado de longe.

Em comum eles carregam a expatriação: os dois saíram da pátria que chamavam de sua e foram apresentados a esse mundo de meu deus. Um fala português, a outra japonês; Ele adora dançar, ela curte mesmo é um quebra-cabeça. A mais meiga leitura de Eduardo e Mônica, versão nipo-brasileira (quem lembra de eduardo & mônica, levanta a mãozinha!)

Daí que outro dia fui buscar o pequeno e a bonequinha japonesa estava chorando. Me chamou a atenção a maneira peculiar e silenciosa com a qual a garota chorava: as duas mãozinhas na frente do rosto, ela balançava o corpo pra frente e pra trás, soluçando, bem baixinho.

Pensei “Sorte é da mãe dela que não passa vergonha enquanto o filho berra e se joga no chão do shopping center”.

Passado um tempo, Noah me pediu algo, eu não dei e ele foi pro quarto dele. Achei esquisitíssima aquela ausência de piti e fui atrás: lá estava ele, sentado no chão, mãozinhas segurando o rosto, chorando silenciosamente.

Nisso marido entrou no quarto e disse “chega a ser bonitinho..”

– Bonitinhoooooo?? Tá louco, amor??? O rapaz vai crescer TODO repreendido, TODO cheio de minhoca não extravasada na cabeça, TODO Michael Jackson, deus o tenha?! E daí quando ele crescer e o terapeuta concluir que é TUDO culpa da mãe repressora, é você que vai pagar terapia, viu? A dele e a minha.

E a louca continua:

– Filho, pode levantar já daí e dar piti. Põe pra fora, grita, extravasa, roda a baiana, filhote! Eu, hein!

a culpa é da mãe, aquela repressora de emoções

***

Tirando a garotinha que chora baixinho, todos os outros amiguinhos da escola são porra loucas iguais a  meu filho, então certeza que ele está em ótima compania.

Porque não importa de que parte do mundo ela seja, criança de 2 anos é criança de 2 anos. Crianças dessa idade dão piti, tiram a gente do sério e são imensa e completamente adoráveis, com suas tiradas, declarações de amor e constante alegria de viver.

E talvez tenha sido essa a razão do meu sumiço: eu fiquei com medo de piscar os olhos e perder isso…

happy chinese new year!

Juro que a partir de agora estarei mais presente. Toda centrada, espiritualizada, mas sempre do fundão.

Esse post é dedicado a todas as fofas que me pediram sinal de fumaça, explicitamente, por email, por comentário ou em pensamento, em especial a Luciana, Robertinha, Patrícia, Paloma, Lia, Flavia, Carol, Dani, Paula, Thais, Cynthia, Tchella, Marcia, Mariana, Thaty, Kamila, Jussara, Rachel, Marycea (que leu o meu último post, mostrou pro marido, os dois se inspiraram e resolveram parar com a pílula – acredito que isso me autoriza a ser madrinha virtual do rebento, então?). A todas que me deram força no post de chegada a Cingapura e, em especial, a uma outra mãe do fundão, leitora que eu ADORO, dona de alguns dos comentários mais cômicos deste blog – Regina Tavares. A imagem da sua filha cantando Agonição de Amor me fez passar mal de gargalhar…porque raios você não nos presenteia com um blog, hain menina?