Arquivo do mês: setembro 2010

da culpa, do colar de conchinha e do isopor de 126 mil reais

Daí a pessoa decide que seria legal abandonar parentes, amigos queridos e pertences em geral e mudar com a família pro outro lado do mundo.

Um lugar organizado, limpo, arborizado, praticamente sem crimes , com orangotangos, orquídeas e  parquinhos de chão emborrachado. Um país longínquo, com boa comidinha e terremotos-free.

Tudo muito perfeito – não fosse o fato que seu filho não fala inglês e não entende NENHUM dos quatro idiomas falados no futuro país.

Preocupada, você liga pra psicóloga, chora pro porteiro, conversa com a pedagoga da escola e vai dormir cheia de culpa.

E como culpa de mãe é ameba safada e penetrenta, que se apropria até do sonho da pessoa, você  fecha os olhos, a ameba penetrenta pula pra dentro do seu inconsciente e você começa a sonhar.

E no seu sonho, vocês já estão no novo país e seu filho já vai pra escola.

Quando ele chega em casa, vindo da nova escolinha, você repara um troço estranho pendurado no pescoço dele.

– Que é isso, filho?

– Um colar de conchinha.

– Colar de concha? De quem? Quem te deu isso?

– Foi a professora.

– Que estranho, um colar de concha.

– Sabe o que é, mamãe – é que eu tava com sede, muita sede. Então eu pedi água pra professora. Falei água, professora, água. Só que água em mandarim é colar de conchinha. Daí ela me deu o colar e eu fiquei lá, morrendo de sede, sem um pingo de água pra beber.

Fim do sonho. Pega na minha mão e diz que a culpa não é minha?

***

Eu fico me perguntando em que momento da nossa recente história ficou decidido que celebrar o aniversário de 2 anos do seu filho significa ficar 7 mil reais mais pobre.

– Alô, por favor, eu queria saber quanto custa fazer o aniversário de 2 anos do meu filho na sua casa de festa?

– Pra quantas pessoas?

– Umas 50.

– Tem que ser no mínimo 100.  E custa $%%$%#$@@$.

– Como???? Quanto????

– $%%$%#$@@$. Mas você ganha de brinde duas caixas de skol.

– Mas não dá pra fazer por menos, considerando que eu só tenho 50 convidados??

– Olha, não dá não.

– Putz.

– Mas, olha só – diz a moça –  às vezes, a gente ACHA que só tem 50 convidados, mas começa a vasculhar a agenda telefônica e acrescenta esse, esse, aquele, o primo daquele. Entendeu? No final você consegue reunir 100 pessoas e daí não fica tão caro! Entendeu?!

***

Moral da história:

–  Preciso ampliar minha rede de amigos. Porque, de acordo com a teoria da funcionária do buffet infantil, se eu ficar amiga do primo da amiga da minha amiga, todo o $%%$%#$@@$ desembolsado no aniversário do meu filho não ficará tão caro, posto que tem mais gente enchendo o bucho às minhas custas. Tenho cerca de 30 dias pra amortizar o investimento.

– São  7 mil reais por aniversário. Serão pelo menos 18 aniversários bancados por você. 7.000 X 18 = 126.000 motivos pra você chamar sua amiga, a amiga da amiga e a prima da amiga e colocar todo mundo pra enrolar brigadeiro.

– Com 126 mil reais você pode também mandar a cria pra Disney, pra Europa, pra Conchinchina. Pode colocar a cria pra estudar, pra aprender línguas (evitando, assim, que ela volte pra casa com a língua pra fora, cheia de sede e com um colar maldito de conchinha chinesa no pescoço).

– Com 126 mil reais você manda a cria pra Harvard, de onde ela voltará inteligente e cheia de idéias espetaculares. Entre elas: como extorquir 7 mil reais de uma pessoa em troca de uma cama elástica bagaceira, meia dúzia de castelos de isopor, a cara verde e orelhuda do Shrek e duas caixas de skol.

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invadiram meu blog

Post vapt vaptu pra dizer duas coisas:

1. Lembra da Dona Zica?

Pois ao que parece ela continua firme e forte na vida dessa que vos escreve: a gripe persiste, o olho segue roxo e – atenção! – meu blog foi invadido por um desgraçado qualquer que achou deveras engraçado sair apagando meus posts (quatro, pelo menos).

Não contente em apagar minha história, o espírito de porco ainda achou por bem acrescentar palavras de baixíssimo calão aos posts não apagados. Tipo pereba, bunda, pinto, gay…e aquela outra muy graciosa palavra…a que rima com maçaneta, sabe qual? Pois é.

Reli alguns posts e apaguei muita safadeza escrita, mas certeza que outras muitas devem me ter escapado.  Triste, muito triste. Mas é isso que dar conectar ao blog em computador público e esquecer de fazer o log out antes de sair.

A sorte é que, ao escrever um post, o wordpress me manda ele todinho por email. Então recuperei dois dos posts. Mas os comentários se foram.

2. Outra coisa:

Não dá pra culpar a pessoa que não saiba muito a respeito de Cingapura, dá?Um país feito de uma só cidade, que é do tamanho de Salvador e fica na casa do carvalho acaba não fazendo lá muito parte da nossa realidade.

Como é sexta feira, vai chover fim de semana e você tem filho pequeno (e, portanto, não tem controle sobre sua outrora agitada vida social), eu copiei  esses quatro vídeos produzidos pela TV Record (ai-que-me-da) que esclarecem um pouco a respeito desse país distante, próxima moradia desta família retirante (ui, adoro quando rima).

Um pouco enjoativo isso de eles se gabarem tanto (uma das maiores economias do mundo, quase zero de violência, o maior zoológico, o único safari noturno, o maior número de milionários, o maior cinema dentro de aeroporto, a maior área tropical dentro da cidade, a ilha mais hightech, bla bla bla).

No momento, nenhuma dessas estatísticas me importa: eu só queria morar num lugar onde não apagassem meus posts. Humpf.

Bom fim de semana, gente bonita. Espero que gostem dos vídeos:

Cingapura?! Quéquéisso??

Sobre as comidas : gelatina de grama

Uma mãe bagunceira perdida num lugar onde tudo funciona

Vivendo com os orangotangos

Mamãe, eu quero morar no aeporto

Os vídeos eu tirei daqui.

piscar de olho roxo

Todo mundo sabe que ZICA atrai ZICA. E eis uma semana meio zicada, a minha.

Senão vejamos:

Tive a capacidade de acumular uns seis vírus da gripe em coisa de 8 dias: curei de uma, veio outra em seguida, depois outra, que chamou a outra, que telefonou pra outra, que mandou convite, que fez festinha, que resolveu que a minha pessoa era o pico ideal para uma orgia virótica.

O que restou de mim agora tem os olhos semi-cerrados, pouquíssima voz, lencinhos grudentos de secreções espalhados pelos bolsos e ZERO dignidade.

***

E como se não bastassem a fanhice, o rouquidão, a palidez e os grunhidos pulmonares que se assemelham a tenebrosos ruídos de rádio mal sintonizado, eu ainda arrumei um olho roxo pra minha pessoa.

E não, eu não me refiro a uma manchinha lilás djavan, do tamanho do estado de sergipe.

Eu arrumei foi um bem torneado círculo azul arroxeado a la mike tyson, herança de uma cabeçada bem dada pelo meu próprio filho, sangue do meu sangue. Sabe aquelas brincadeiras em que você, como mãe, pressente que alguém vai acabar se machucando? E se eu te disser que esse alguém pode ser você, cara amiga mãe?

Pior é que a dor foi tanta,  e o meu grito foi tão histérico, que eu desconfio ter criado nele um trauma incurável, posto que desde o acidente ele me abraça sem parar, não joga comida no chão, guarda todos os brinquedos e repete baixinho “diculpa, mamãe, diculpa”.

***

Olho roxo em qualquer lugar do mundo pode ser um acidente, um tombo, uma cabeçada ou uma topada na estante da sala.

Olho roxo no país de Janete Clair e Benedito Ruy Barbosa signfica somente uma coisa: que você tomou uma bifa do marido. Tô mentindo?

Se você, como eu, cresceu vendo a destemida Maria de Fátima vendendo a própria mãe pra “vencer na vida”, você vai entender o que estou dizendo.

E, como eu, vai incorporar seu melhor estilo Betty Faria e só sair por aí munida de um enorme par de óculos escuros. Que é pra evitar que o povo ache que seu estimado marido se trata, na verdade, de um baita de um “safado, cafajeste, crápula” e outros chingamentos de cunho novelístico.

Mas a verdade é que uma hora vai anoitecer e você vai acabar tirando seus óculos.  E daí, minha irmã, pode ter certeza: o povo vai se compadecer da Betty Faria que mora dentro de você.

Como o taxista de ontem. Foi ele ver o roxo do meu olho direito que a cabecinha dele começou a processar os dados novelentos  olho+roxo+janete+benedito+maria de fátima+betty faria = pena/muita pena dessa criatura.

Mal me cumprimentou e já trocou o CD.

A música começa, ele então me olha pelo retrovisor com muita compaixão e começa a cantarolar junto com Mariah Carey.

Eu nunca tinha ouvido aquela música, mas, traduzindo o pouco que ouvi, era algo do tipo…

você tem força dentro de você!

o herói mora dentro de você!

você pode vencer mais este problema!”.

E o homem se empolgava, cantava, levava a mão direita ao peito e, na hora do refrão, olhava pelo retrovisor…

você tem força dentro de você!

o herói mora dentro de você!

você pode vencer mais este problema!”.

Pra piorar o cenário tinha todo o meu funga-funga, a orgia virótica, lembra?

Mas até explicar que biscoito maizena não tem canto, e que aquilo era gri-pe e não cho-ro, o homem já achava que eu estava era me debulhando em lágrimas.

Chegamos e o taxímetro marcava 14,50. Dei 12 reais da carteira e disse:

– Espera um pouco, que o resto vou te dar em moeda.

– Não, não, deixa assim.

Eu insisto, mas ele fecha a porta, coloca a cabeça pra fora da janela, me olha bem nos olhos e diz:

– Vai com Deus. Muita, mas muita sorte nessa vida pra senhora.

Daí você pode dizer que é loucura da minha cabeça. Mas se você visse uma pessoa saindo de um taxi, com olho roxo, lenço na mão, fungando, óculos escuros em punho, a noite, e em plena Copacabana…vai dizer que você também não pensava na Betty?

***

E pra provar que zica atrai zica, mando uma que aconteceu comigo hoje de manhã. Chego no banco, minha gerente está de férias e eu me preparo pra fila comum dos desagerentados. Vi de longe, na fila, a “mala do restaurante da esquina”.

Abre parênteses pra explicar que a “mala do restaurante da esquina” trata-se de uma …erm…mala, que é gerente de um restaurante aqui perto.

Eis que um belo dia fui almoçar no referido restaurante, acompanhada de uma amiga querida e o filhote. A gerente mala se aproxima:

– Como elA chama?

– Noah. E ELE é menino.

– Nossa, Noah?!? Que nome esquisito, né, diferente… E, nossa, como ele fala! Qual a idade dele?

– 1 e 10

– Gente…ele é novinho! A minha tem 2 anos e meio e nem fala ainda! Mas ainda bem, viu? Porque meu pediatra falou assim, que criança que começa a falar muito cedo, tipo antes dos dois anos, com CERTEZA que vai desenvolver problemas na fala, tipo dislexia não sei de que.

E daí ela olha com cara de PENA pro meu filho e pergunta:

– Trago a conta?

Fecha parênteses.

Então, zicada que ando,  venho a cruzar justamente a mala imbecil que diz que MEU filho vai ter problemas graves num futuro próximo.

Sento longe, já pra que ela não me veja. Mas gente mala enxerga muito longe (assim como gente com bafo fala muito perto). Ela não só me vê com tenta sentar do meu lado.

Tento abstrair, meu telefone toca – ótima distração. Era uma amiga querendo saber que história era essa de Cingapura?! Vocês vão se mudar? Que legal!

E eu aproveito a fila longa pra matar o tempo e contar tudo pra minha amiga.

Desligo a ligação e sinto alguém me cutucar no ombro. Era a mala, sentada atrás de mim:

– Vai mudar de país! Nossa, corajosa, uau!

– ã hã – eu respondo.

– Sabe que…desculpa, mas eu ouvi você dizendo pra sua amiga que você também já morou em outros lugares e que gosta de mudar bastante, né?

– ã-hã –  resmungo, olhando pra minha senha.

– Interessante.

Silêncio. Ela me cutuca de novo. Viro pra trás, já sem paciência:

– Que?

– Sabe que minha vó dizia assim, que o pai dela também adorava viver a vida viajando, intensamente, que nem você. E que gente assim geralmente tem uma fome tão grande de viver porque no fundo sabe que vai morrer cedo? Era o que minha avó dizia, né, não sei se é verdade.

***

Sabe o que mais me desespera?  Hoje ainda é quarta-feira.

***

Notas & agradecimentos:

1. Muito obrigada a TODOS que me mandaram positive vibes, palavras de força, promessas de felicidade e letras da música do Ritchie. Hospedagem pra todo mundo, na faixa, com café da manhã. Love you all.

2. Zicas a parte, estou muitíssimo lisonjeada com as propostas de compra do nome e do site Minha Mãe que Disse! . Informo, entretanto, que estou interessada em mantê-lo, gente, pela possibilidade de comércio entre os dois países. Também não me sinto em posição de vender, dar ou ceder a minha lista de clientes.  E isso se deve a um motivo somente: nenhuma das seiscentas e tantas clientes cadastradas me autorizaram a divulgar seus contatos. Pela compreensão, obrigada!

3. Recebi exatos seis emails (os quais ainda não tive tempo de responder) pedindo dicas de como começar um negócio no estilo do Minha Mãe. Gente, olha só, eu não tenho lá muita vocação para Sebrae, não, mas posso dividir, de bom grado, minha experiência pessoal. Portanto, assim que me sobrar um tempinho, juro responder com carinho e tal-e-coisa. Vou mesmo. E quem tiver interesse, em um futuro próximo, em se tornar um distribuidor de produtos importados para bebês pode me mandar um oi no mamae@minhamaequedisse.com.br

4.  E Noah está vendendo as coisas que já não usa/não usará em Cingapura. Ainda não tive tempo de postar tudo (sério?) mas pode começar a dar uma olhadinha aqui no Noah Vende Tudo!

hambúrguer de pombo e… bye bye brasil!

Minha infância, como a infância da maioria das pessoas, foi infestada de piolhos, pirulitos cheios de corante e equívocos de toda sorte.

Eu achava, por exemplo, que era esquisito isso de ter gente passando fome se tinha tanta banana no mundo.  Só com o tanto de banana que tinha na minha casa dava pra matar a fome de pelo menos umas 17 crianças por uns 5 dias e meio. Somem-se a essas, as bananas da vizinha, e o mundo estava completamente alimentado.

Aí minha mãe me explicou que as pessoas precisavam de um cardápio um pouco mais completo. E que ninguém podia viver só de banana.

Foi quando eu pensei nos pombos.

Pombo era feito de carne, era baratinho e ninguém gostava deles vivos. Então eu levantei o braço e falei pra professora que o meu projeto na Feira de Ciências seria sobre como acabar com a fome na áfrica com banana e hambúrguer de pombo.

A professora disse que era muito nobre da minha parte querer acabar com a fome mundial.  Ela veio na minha direção sorrindo, passou a mão na minha cabeça e, como uma boa professora saída dos anos 80, barrou o meu projeto pra sempre.

***

Como qualquer criança, também já fui vítima de alguns equívocos cometidos por terceiros. Um deles me marcou muito, quando eu tinha uns 4 anos.

Era dia da árvore e todas as crianças tinham que ir pra escola vestidas de arbusto.

Nunca vou esquecer de como fiquei eufórica ao ver que minha mãe tinha separado uma roupa inteirinha verde, inclusive sapatos e meias. E, para completar o visual arbóreo, eu levava ainda galhos atrozes e reluzentes, nas pernas, nos braços e na cabeça.

Entrei no carro e minha mãe foi dirigindo pra escola. Lembro direitinho de experimentar a sensação de felicidade plena: eu era uma árvore, minha mãe era incrível e a vida era perfeita.

Nem a fita Basf emperrada no toca fitas do carro, que tocava a mesmíssima música de Maria Bethania havia MESES me incomodava. Eu era uma árvore e árvores são imunes a esse tipo de chatice cotidiana.

Nem o garoto Cleiton, que me perseguia no parquinho da escola e roubava meus biscoitos mirabel, seria capaz de arruinar meu dia. Eu era uma árvore e árvores eram bondosas, compreensivas e, a depender da espécie, podiam até ficar carregadas de mirabel de janeiro a abril.

Então eu me despeço da minha mãe e cuidadosamente saio do carro, eu e meus dezoito galhos.

Subo lentamente a escadaria da escola. Quando enfim me aproximo do portão de entrada começo a ouvir risadas, primeiramente tímidas, e logo depois histéricas. Olho em direção às risonhas criaturas e elas estão, na verdade, apontando pra mim.

Sinto um frio no estômago e um pavor súbito, daqueles que criança sente quando percebe que pode estar diante de um fiasco-devastador- de-moral. Daqueles que te forçam a ser transferida de escola, trocar de cidade e a mudar o nome pra sempre.

Mas não, eu não tinha porque me amedrontar. A vida era perfeita e eu era uma árvore vistosa e feliz.

Exceto… que aquele não era o dia da árvore.

– Vamos ter que te mandar pra casa, Roberta – disse a diretora.  A sua mãe se enganou, o dia da árvore é só daqui uma semana!

– E é melhor você esperar a mamãe aqui na minha sala. Porque lá fora, a criançada, já viu..

E a diretora tenta controlar o riso, mas se abre em uma colossal gargalhada.

E eu fico ali na sala dela, esperando a minha mãe vir me buscar: eu, meus 18 galhos e minha inconfundível cara de trepadeira desavisada.

***

De todos os meus equívocos de infância, a escolha profissional era a mais gritante: eu já quis ser freira, assistente de açougueiro e cobradora de banheiro público. Como eu conto aqui.

Mas uma coisa era certa: eu queria muito voar. Não sair voando feito pombo que não virou hamburguer. Voar no sentido de viajar, conhecer o mundo. Era avistar um turista na minha cidade que eu saia correndo me apresentar:

– Oi, meu nome é Roberta. Se quiser posso te mostrar a cidade.

E era o turista sorrir que eu começava a perguntar da onde ele vinha? o que ele fazia? na cidade dele tinha lago? praia? cachoeira? dá pra chegar de carro? sabia que nos estados unidos só se chega de avião?

E por aí ia.

Lembro do dia em que me afeiçoei a um grupo de turistas holandeses, com o qual eu só me comunicava através de gestos.

-Vocês querem comer? (gesto de mãos que levam comida à boca)

– Lá, comida boa (gesto de mãos que fazem círculos na barriga, acompanhado de gesto de positivo com o dedão)

– Nadar? Aquela praia nice, nice beach! Aquela outra praia suja, blagh! (cara de quem viu cocô boiando no mar)

Antes de ir embora, uma moça bem simpática do grupo de holandeses me presenteou com um postal da Holanda, com aqueles típicos moinhos de vento. Eu achei o postal tão, mas tão lindo, que coloquei ele dentro da minha pasta de papéis de carta. Aquela noite, antes de dormir eu pensei: um dia eu vou conhecer essa tal de Holanda.

***

E daí eu cresci, parei de encher o saco dos turistas e fui trabalhar.  Conheci a Holanda e mais alguns tantos lugares.

Morei em 6 cidades distribuídas em 3 países diferentes e tô nem aí se os livros de auto-ajuda insistem em dizer que a felicidade deveria estar dentro da gente. Foda-se a auto-ajuda: eu gosto mesmo é de buscar a felicidade em um montão de lugar diferente.

E foi por isso que, quando maridão me perguntou o que eu acharia de viver em Cingapura, eu não só topei como pulei no colo dele (o dó), dei gritinhos histéricos e abri champagne.  Tá bom, não tinha champagne, mas a skol tava gelada.

***

Então é isso, gente bonita e agradável: estamos mudando de continente.

Se antes vocês tinham lugar pra ficar no Rio de Janeiro, agora descolaram hospedagem em Cingapura, que é do lado da Tailândia, do Vietnam, do Camboja, da Indonésia…upgrade total, tô mentindo?

Estou feliz, muito feliz. Feliz de voltar à minha natureza ciganóide, feliz de saber que vamos morar em um país completamente diferente de tudo que já vivemos, feliz porque vamos começar uma aventura, a primeira grande aventura que já vivemos em família.

Ao mesmo tempo pensando como raios eu vou lidar com uma criança que passa pela mais tumultuada fase de birras EVER, enfrentando essas 1000 mudanças que estão por vir.  Pra começar:

1.o rapaz vai para uma escola francesa, em um país cujas línguas oficiais são o inglês, o malaio, o tâmil e o chinês.

Resultado: Claro que aos 5 anos de idade ele vai se rebelar, casar com uma polonesa e viver em alguma vila distante ao norte da Russia, de onde me mandará um postal quando o terceiro filho nascer.

2. Vai se separar de todos os amigos/família, tudo de uma vez!

Resultado: vai se revoltar contra a pessoa da mãe (eu), pintar o cabelo de branco-Supla, adicionar a Comunidade do Comando Vermelho à sua página do Orkut e colar um poster da mulher melancia na parede do quarto.

***

Enfim, um milhão de coisas, a saber:

1.Ainda não sabemos a data, mas há quem diga que o Natal já será em terras asiáticas.

2. E claro que não estou me despedindo, o Piscar de Olhos continua, firme e forte.

3. O Minha Mãe que Disse vai saldar  o estoque  restante, e desde já  informa as queridas 615 clientes cadastradas (u-au) que voltará, em uma versão quimono-saquê chiquéééééérrima e baratééééérrima. Se deus quiser e buda permitir.

4. Vou criar um blog para vender carrinho, brinquedos e demais apetrechos do pequeno Noah. Já já divulgo.

5. Perdoada pela falta de comentários, respostas, carinhos e abraços? Sobra-me vontade, falta-me TEMPO e LUCIDEZ.

E esse post não é pra ficar em tom de despedida. Pois como se sabe, não existe distância pra amizade virtual (é ela ficar emocionada, que começam as pérolas…)

Espero que fiquem felizes por mim e que mandem palavras de coragem, amor, esperança, pensamento positivo e frases de impacto by paulo coelho.

Eu queria postar algumas fotos de Cingapura, do tempo que eu estive lá, aaaaanos luz atrás, mas não tive coragem: a umidade lá é tão desgraçada que, em todas as fotos, eu pareço estar envolta em algum tipo de gelatina incolor lubrificante.

Então recorri ao Trip Adviser e posto algumas fotinhas de Cingapura e seus adoráveis vizinhos.

Cingapura pros pais…

Cingapura pra cria…

E tem os adoráveis vizinhos.

O Vietnã…

A Indonesia…

Tailândia…

E é isso. Agora é empacotar, carregar, pagar, transferir, despedir, chorar…

Bye bye, Brasil.

par ou ímpar?

Então você decide que é mais do que hora de largar um pouco a cria e sair pra balada com o maridão. E não – eu não me refiro ao bom e velho jantar a dois.

Tô falando de sair, sair MESMO: tomar marguerita, dançar lady gaga, ficar amiga da tiazinha do banheiro e voltar pra casa as 4 da manhã, com o sapato na mão.

– O problema é que a gente chega no bar e já começa a falar do Noah, né? Lembra da última vez? ,  diz o insinuante marido.

– Lembro. A gente só falou nele.

– Vamos fazer diferente dessa vez, vai. Tentar manter uma conversa adulta e tal.

– Por mim, vamos, ué.

– Sei.

– Sei o que, François? Você  tá insinuando que EU que sou a monotemática da relação e que não sei falar de outra coisa que não no nosso filho??

– ã-hã.

– Muitíssimo enganado, meu bem. Daquela vez eu fiquei falando nele porque eu AINDA não era uma mãe amadurecida, tá? Iiiiih, hoje é TO-TAL-MEN-TE diferente. Sabe aquela mulher que sabe MUI-TO-BEM separar os papéis de mãe-esposa-amiga-trabalhadora? Pois é. Essa pessoa sou eu. Duvida? Me testa pra ver! Quer falar do que, de economia? Vai, me testa, me testa!

***

Empolgada  e iludida você então decide provar que 1. SIM você é mulher multi-papéis e, portanto, sabe manter uma conversa adulta em um bar; e  2. SIM você reconhece e admite que referida conversa adulta não deve, em hipótese alguma, envolver fraldas, brinquedos ou doenças infantis de qualquer espécie; 3. SIM existem margueritas pós maternidade. YES!!!

Cheia de orgulho de si própria enquanto membra fundadora do M.Q.S.F.O.C.A.F. – Mães que Sabem Falar de Outra Coisa Além dos Filhos – você elabora a sua listinha de afazeres pré-balada:

1. tirar  bolor e teias de aranha de sapatos sexy-mama;

2. andar pela casa com o modelito escolhido + sapatos sexy-mama + trilha sonora que faça você se sentir a mais Sarah das Jessicas Parkers.

3. ensaiar entrada triunfal no bar, com sapatos já devidamente treinados;

4. ensaiar risada pré-maternidade, quando você ainda não se preocupava com a violência e o aquecimento global (risada com cabeça jogada levemente para trás).

5. não utilizar chocolates como método de acalmar ansiedade (lembrar que a saia está EXATAMENTE a um Alpino de não fechar)

6. ensaiar conversinhas que demonstrem o quanto você amadureceu e aprendeu a não ser a típica mãe monotemática. exemplos que funcionam:

* “vocês viram o novo filme do woody allen?”

*”ai, sabe que eu tô louca pra ler o livro de tony blair!?”

*”gente, mas essa paris hilton não pára de mostrar as tetas, né? parece até eu quando estava amamentando!” (não, não, não – nada de amamentação).

7. marcar hora com cabelereiro-gay e implorar que ele tire aquele tequinho de massinha vermelha que Noah grudou na raiz do seu cabelo enquanto você dormia.

***

A primeira coisa que você deve fazer numa pré-balada-adulta-de-assuntos-maduros é evitar aquele salão mais pertinho da sua casa, que é deveras conveniente e baratinho, mas que é lotado de manicures mães.

Daquelas que insistem em te descrever a cor do catarro do filho que sofre de bronquite.

Não, não, não. Escolha um salão adulto, de preferência dos que servem prosecco e são infestados de gays e vogue’s.

Comece a ensaiar conversas adultas com o público gay. Ria, jogando a cabeça pra trás. Peça um prosecco. Tire sarro da capa da Pais & Filhos.

Na saída se olhe no espelho, se ache a mais godiva do irajá, e deixe salão com cara de misteriosa. Pronto. Agora você está pronta para o mundo adulto.

Um mundo glamuroso e distante, onde sapatos de salto fazem toc-toc, copos fazem tim-tim e cabelos são massinha-free.

***

A escolha do bar é importante. Se tem criança melhor não ir. Quem é mãe sabe o quanto é deprimente sair sem a cria e acabar descobrindo que o lugar está lotado de crianças. Porque se é pra sair com filhos, melhor sair com os seus e não com os dos outros, concorda? Ah, eu acho.

Importante também que o bar escolhido não remeta – de forma alguma – a um cenário infantil. Porque, gente,a moda agora é decorar  banheiro de bar com a hello kitty e o pobre do snoopy. Depois o povo reclama de prisão de ventre crônica?! Soy contra.

Outros truques para manter o pensamento longe da cria:

– Afaste-se daquela moça que te recebe no bar, a tal da hostess. Porque embora ela já tenha 18 anos completos, o comprimento da saia dela vai te lembrar e muito a sessão infantil da sua loja preferida.

– Fuja também de conversinhas despretensiosas com a moça da mesa ao lado. Lembre-se: ela pode ser mãe e, se descobrir que você também é, vai certamente iniciar a longa e inconfundível conversa do “porque a minha…”

– Atenha-se aos sinais da vida. Alguns indícios de que o sujeito da mesa ao lado é pai, ou que a moça pra quem você está segurando a porta do banheiro é mãe, são gritantes:

*foto de criança na carteira;

* nuca de mulher tatuada com “te amo, minha alice”; braço de homem tatuado “francisco pra sempre”;

* e o inconfundível pingente:  “sou mãe…me abraça?”

***

Mais tarde, na pista de dança.

– Amor, vam’bora? Já são 2 da manhã!, diz o responsável marido.

– Que?? Não tô te ouvindo!! Adoro essa música!!!, retruca a pombagira esposa.

– São 2 da manhã, amor. Bora? Amanhã de manhã você já sabe, né? Noah acorda as 7.

– Que?? Noah??? Que Noah?? Ai, amor, seja adulto, só sabe falar de filho, filho, filho. Olha essa música, u-huuu!

– Tá bom, então, cê que sabe.

– Marguerita, amor. Duas. U-huuuuu.

***

Mais tarde, no quarto do casal.

– Amor, olha só, não vou poder acordar as 7, não. Já são 4 e eu ainda tenho que tirar a maquiagem (soluça)

– Eu avisei.

– Ah, não, François. Você acorda e convence ele a assistir DVD, vai?

– Não, não. Nós dois acordamos, diz o marido.

– Par ou ímpar?

– De jeito nenhum. Você rouba no par ou ímpar, Roberta! Aliás, me ensina o truque, vai?

– Qual truque? (soluça)

– De roubar no par ou ímpar.

– Claro, amor. Assim ó…

(e num impulso alcoólico margueritento, a outrora decidida multi-papéis-mulher-mãe-esposa-gambá entrega ao rival o seu mais bem guardado e valioso segredo EVER: como roubar no par ou ímpar).

***

3 horas depois…

A cria acorda, chama pela mãe e diz que quer “bincá”.

Você então explica que hoje a brincadeira é…ASSISTIR DVD DEITADO!!!

– Filho, olha só, assistir DVD deitado é muuuito legal, ó, vem aqui (e boceja, se esparramando no sofá).

– Não, mamãe, passiá.

– Passear, filho?? Não, passear é podre. Deita aqui do ladinho da mamãe, deita.

– Mamãããããe, qué passiá!!

E vocês se dão por vencidos e se arrastam até a porta: o casal destruído, o filho feliz e agitado e uns cinco engoves vencidos – todos rumo a um lindo pesadelo passeio no Jardim Botânico.

– Blagh, passando mal. Se ele fizer cocô você limpa, vai! – diz a mãe de óculos escuros, camiseta do avesso e sapatos ZERO glamour.

– Hum…par ou ímpar?

***

Ao que se pode concluir que:

M.Q.S.F.O.C.A.F. – Mães que Sabem Falar de Outra Coisa Além dos Filhos é lenda urbana. Nunca cruzei com sequer UMA mãe que conseguisse se abster de mencionar a cor do cocô ou os hábitos alimentares da prole.

– E de que me adianta o woody allen, o tony blair, a lady gaga, a economia, moda, aquecimento global e outras conversas adultas, se, no final, a porra da fralda suja de cocô sempre sobra pra mim?

– Sapatos sexy-mama são lindos e glamurosos. Mas eles deixam calos e fissuras que são simplesmente incompatíveis com a longa caminhada a que você, madame multi-papéis, será submetida no dia seguinte.

– Falando em compatibilidade : Marguerita e Maternidade são tão compatíveis quanto Paris Hilton e amamentação.

–  Conversa de mãe é que nem massinha no cabelo: você até pode se livrar dela por um tempo – mas, acredite: ela vai voltar.