Arquivo do mês: agosto 2010

mas e francês lá gosta de criança?

Depende, ué.

Nesse aspecto a França é igualzinha ao Brasil ou a qualquer outro lugar do universo:  há os que genuinamente gostam de criança, os que toleram mas não necessariamente simpatizam e os que preferem uma injeção anti-tetânica nas duas pálpebras a tolerar a presença de uma mini pessoa no mesmo ambiente.

Quando eu morava em Londres lembro de ter presenciado uma cena meio absurda: eu estava na Accessorize (gastando dinheiro com desnecessarize, of course), quando ouvi alguém gritando em português que  “esses ingleses não gostam mesmo de criança, fui super mal tratada, só porque estou com meu filho, eles preferem cachorro, esses ingleses”.

E tal.

E a moça saiu da loja, puxando o marido e o filho, enfurecida.

Não dei muita atenção.  Na hora de pagar acabei ouvindo a atendente da loja explicar à outra atendente  que era “um absurdo, olha só esses lenços sujos de chocolate, como é que a mãe deixa a criança com dedos lambuzados de chocolate pegar os lenços da loja, e os brincos a crianças também tirou do lugar…”

E tal.

Eu não tenho opinião nenhuma formada a respeito da relação Ingleses x Crianças, apesar dos 5 anos vividos em Londres. Não tenho essa opinião por um motivo lógico: eu não tinha filhos e portanto não prestava atenção no universo criancento. Se você me perguntar como são os parquinhos na Inglaterra eu não vou saber dizer MESMO. Mas se você me perguntar dos pubs…

Só usei o exemplo de Londres porque imaginei a repercussão que essa estória poderia acabar tendo: a mulher – logicamente sem razão – pode ter voltado ao Brasil e dito a meio mundo que os ingleses foram intolerantes com o filho dela (e que eles preferem cachorro, blá blá blá, comem mal, que povinho, e como chove!)

E quem não viu os lenços da loja cheios de chocolate e a funcionária tendo que catar os brincos que o filhotinho dela jogou no chão realmente poderia concluir o mesmo.

A maternidade deveria vir acompanhada de um Código de Boas Condutas Para Um Convívio Pacífico Para Com o Resto do Mundo.

Tem regra de comportamento em parquinho, regra de brinquedo emprestado (lembram?), posicionamento de carrinhos no elevador, regra de não oferecer comida a crianças que você não conhece e duas outras regras importantíssimas:

1. seu-filho-sujou-limpa;

2. sua-filha-quebrou-paga.

E, sim – essas regras são internacionais. Uma adaptaçãozinha aqui, outra ali – mas via de regra é isso: bom senso, bons modos e canja de galinha nunca deram celulite em ninguém.

***

Tudo isso pra dizer que sim – Noah foi muito bem tratado pelos franceses. Claro que da família eu já esperava isso – ele tem tios maravilhosos e um primo que há de ser o rapazinho mais genial que eu conheço.

Me refiro a ter sido muito bem tratado por estranhos.

Acho que criança tem mesmo esse poder de despertar o lado bom das pessoas. E elas têm essa colossal capacidade de fazer com que adultos venham a agir de maneira outrora impensável.

Como nesse almoço de família, lá na Bretanha, por exemplo.

Não me perguntem COMO Noah conseguiu essa façanha – mas quando eu vi lá  estavam os franceses no restaurante cantando “A Baleia”. Juro pra vocês.

Eu não consigo ensinar um francês a falar “bom dia”. E o moleque, pouco maior que uma baguete, consegue explicar aos familiares gringos que a baleia, minha gente, é amiga da sereia.

Esqueçam os diplomatas – relações exteriores deveriam ser executadas por crianças.

Vê se eu tô exagerando:

Nossa ansiedade maior era em relação aos parisienses, conhecidos por seus inegáveis acessos de rabugentices.

Pois mesmo lá as pessoas se mostraram bastante child friendly: Noah ganhou croissant da moça da padaria, piscadinhas da senhora na farmácia, distribuiu e recebeu bonjour ‘s por todos os lados.

Aliás, se fosse pra eu dar um pitaco tá aí: ensinar a cria a dar um olá na língua do país pra onde você vai viajar pode ser visto com muita simpatia. Porque é internacionalmente fofo, gente, ver aquela criança entrar no trem, no supermercado ou na padaria exclamando um bonjour, na França. Ou witaj!, na Polônia. Ou Konnichiwa!, no Japão. (agradeçam ao dindo google)

Vai por mim – o povo quase sempre responde com um sorriso.

Mas o momento em que o rapaz conquistou de vez o coração das velhinhas parisienses foi quando ele aprendeu a dizer…

(versão português 😉

o dia em que eu não morri

Putz, essa noite eu sonhei que passava dessa pra uma melhor. Nada trágico, nenhuma grande perda pra humanidade nem nada do gênero.

O problema é que quando cheguei no paraíso Noah me telefonou.

– Oi, mamãe. Você morreu e esqueceu de comprar uva pra mim. Sacanagem, você sabe que eu não vivo sem uva.

– Ah, filho, não deu tempo. Pede pro papai.

– O papai detesta ir ao Hortifruti, mamãe, você sabe disso.

– Verdade…

– Outra coisa, manhê. Eu entrei no seu blog e não tem nenhuma foto minha na França! Não dá pra você postar daí não?

– Ah, filho, era o que me faltava. Mamãe tem mais o que fazer aqui no paraíso (que foi, gente? se o sonho é meu, eu morro e sou mandada pra onde eu quiser, licença?)

– Ah, mamãe, coloca as fotos no blog, vai.

– Ah, tem dó, Noah, pede pro seu pai.

– Papai tá ocupado.

-Ocupado fazendo o que, meu deus?

– Ué, casando.

Acordei aos berros, peguei o marido pelo braço e falei que achava um de-sa-fo-ro ele casar com alguém só pra não ter que ir na porra do Hortifruti comprar uva pro filho.

Passado o susto (dele) eu resolvi que seria bom que se eu morresse ele tivesse a senha do blog. Certo? Que caso contrário como é que vocês iam ficar sabendo, gente?

Então dei a senha do blog e fiz ele prometer que se eu batesse as botas ele escreveria um post de despedida, falando somente coisas maravilhosas sobre a minha pessoa.  E fiz ele jurar de pés juntos que terminaria tal post assumindo a culpa por nós termos ficado sem fraldas no vôo Rio-Paris.

Primeiro ele me olhou arregalado, como ele sempre olha quando acha que estou falando algum absurdo #frequente#. Mas depois ele logo perguntou:

– Mas será que alguém vai comentar meu post?

– Deixa comigo que eu vou falar com o pessoal.

– Vai falar o que, Roberta?

– Ué, vou falar que a gente conversou sobre isso, que eu te autorizei a escrever um post caso eu bata as botas e que é favor comentar o seu post póstumo de coisas bonitas sobre a minha pessoa. O pessoal vai entender, confia em mim.

– Ro, pelamordedeus, escuta o que você tá falando. Diz pra mim que você não vai pedir pros seus leitores que eles comentem o meu suposto post póstumo.

– Mas é claro que vou pedir.

– Eles vão achar que você é louca de pedra.

– Amor, ali a maioria é mãe, e mãe você sabe…

– Verdade. Uma pior que a outra.

–  ã-hã.

Então, gente, por favor: comentem o tal post postmortem. Pela compreensão, obrigada.

E François: você me deve 50 reais.

***

Então, filhote. Aqui estão algumas fotinhas de nossa linda aventura pela França. Como eu não vou morrer tão cedo, e ainda pretendo escolher conhecer sua esposa e dar pitaco na educação amar seus filhos vou deixar as outras tantas fotos pra depois, combinado?

Pois bem. Aos 21 meses, na nossa primeira viagem juntos ao país do seu pai, você:

* Foi de Paris a Quimper em um trem super-mega-rápido, onde constatou que as pessoas não respondiam bem ao seu “bom dia”. Então foi neste trem que você começou a gastar seu francês, disparando “bonjour” até pra maçaneta do banheiro.

bonjour passarinho, bonjour janela, bonjour maçaneta

* Descobriu a liberdade de se correr por uma praia tão vazia de gente mas tão maravilhosamente cheia de história…

e descobriu que sunga carioca é bem diferente de sunga bretona...

* E você teve a honra de dormir na casa construída pelo seu tataravô. Seu tataravô, aliás, era um homem inteligente e de muita visão. Então ele construiu uma casa de praia forte, resistente a ventos, temporais e alemães.

eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões

* E ali naquela areia em que você brincou (e brincou muito) brincaram também teu avô, teu pai, teus tios e primos. Olha o teu pai aqui, de costas, com seu super cabelo panelinha. E quem não mordia uma fofura dessa, me diz?

as botas do papai com minha sunga...orna, manhê?

* Conheceu becos, ruas, casas medievais. Aprendeu a dizer “que lidu, mamãe” todas as vezes que tua mãe dizia “olha que lindo, filho!”

ai, que lidu, mamãe

flores são nossas amigas

*Descobriu a alta cozinha, aquela que ganha estrela e tudo mais…

* Para logo depois entender que, enquanto adulto adora comida de guia gastronômico, criança curte mesmo é crepe, croissant e baguete…e tem coisa melhor? (tem, filho, tem coisa beeeeem melhor, believe me)


* E você viu seus pais mais apaixonados do que nunca (mamãe perdoou o fato do papai ter esquecido as fraldas, hi hi hi).

não se deixe enganar: esse casal esqueceu as fraldas do bebê

(…)continua

Não perca nos próximos posts:

“França e a família francesa. O dia em que Noah ensinou aos franceses a música da Baleia (aquela que é amiga da sereia)”

***

“Mas será possível ser feliz em Paris com crianças?”

***

“Quem esqueceu as fraldas? – Desvendando o mistério do desfraldamento airfrance.”

***

“Alguém me explica? Porque Paris tem  parques maravilhosos, seguros e de chão emborrachado? “

***

“Alguém me explica II? Após menunciosas pesquisas, a constatação: fralda brasileira é uma merda”

Voltamos – Parte I

Cheguei.

E não, eu não deveria estar aqui postando.

Pensa comigo:  mala a ser desfeita, 315 pedidos a serem processados, 1 filho a ser criado e 3 kilos a serem perdidos – e a gata ignora tudo isso e vai escrever no blog.

Então este será um postezinho bem mequetrefe,  preguiçoso e jet-leguento. Pra facilitar elaborei uma lista com as DMF – Dúvidas Mais Frequentes.

Ou FAQ, como eles dizem lá.

FAQ – Mas Roberta, você não acha que seria muito mais produtivo e sensato ir lavar cuecas  e desfazer as malas em vez de escrever no blog?

Não mesmo. De que me vale ir pra França se eu não posso nem vir aqui me exibir um pouco, me diga? Se é pra pessoa viajar e guardar tudo pra si melhor suspender Paris e marcar a próxima viagem pra Piracicaba, oras.

FAQ – Você conseguiu manter a sua promessa de ser fina e francesa e viajar com pouca bagagem dessa vez?

Claro que não. Viajamos com três malas lotadas, prontos para todo e qualquer imprevisto – falta de luz, neve, tsunami, mudança de moeda e golpe militar. Ser prevenida é chique.

(Ou vocês acham que a mocinha que aparece com 12 modelitos diferentes na matéria “Arrasando em Paris” , da Revista Vogue, viaja somente com uma necessaire em punho? )

FAQ – Conseguiram chegar ao aeroporto com antecedência e tal?

Chegamos ao aeroporto com bastante antecedência, check in impecável, tempo pra fazer tudo, cabelos ao vento e aquele olhar de mulher-mãe-experiente-decidida-e-organizada. Se algum paparazzi tivesse a imbecilidade de se interessar por mim era nessa hora que eu gostaria que ele me fotografasse.

FAQ – Algum fato curioso antes do embarque?

Na saída do check in uma super revelação: Noah me olha, me abraça e diz “Tabéta”. Demorou pra eu entender, mas caiu a ficha: a moça da Air France devolveu meu passaporte e disse “Roberta”.  E Noah ouviu. E ele finalmente entendeu que as outras pessoas, estranhamente, não me chamam de mamãe. Elas se referem a mim como Tabéta.

FAQ – Sé-rio? E daí?

Bom, como tínhamos tempo eu decidi que era hora de bater um papinho com o filhote:

– Filho. Seguinte. 1 ano e 9 meses é idade suficiente pra você entender que papai e mamãe são na verdade duas pessoas que, como você, têm nome e vida própria.  Tá. Vida própria é exagero, mas nome a gente tem. A mamãe se chama Roberta. E o teu pai, nas horas vagas, atende por François. Isso. Fran-ço-is. Entendeu?

Lógico que entendeu. E aproveitou para esclarecer o caso tic-tac.

***

FAQ – Tudo bem. Noah entendeu que a mãe tem nome e o pai também. Mas o que isso tem a ver com a viagem pra França?

Well. Assim que colocou os pés em Paris, ainda no aeroporto, Noah parou de chamar o pai de papai e passou a chamá-lo François. Sem mais nem menos.

A mamãe seguiu sendo mamãe (até porque, apesar de original, o nome Tabéta é deveras desprovido de charme e dignidade, percebem?) Mas papai passou a atender simplesmente por François.

FAQ – Fale um pouco da sua experiência no avião com uma criatura de 1 ano e 9 meses.

Tô pronta pra falar sobre isso, não. Mas posso adiantar que a coisa foi feia e traumatizante.

FAQ – Ah!! Conta uma presepada aérea, vai.

Tá bom. Só uma. Antes de sair de casa rumo ao aeroporto, devidamente munidos de brinquedos, guloseimas, dvd’s, e demais distrações para a aeronave, decidimos que levaríamos as fraldas (20 delas!) distribuídas em duas bagagens de mão. Pelo menos foi isso que eu entendi – eu colocaria 10 na bolsa azul e François 10 na mochila cinza – metade/metade. Ambas pra dentro da aeronave.

Ocorre que antes de embarcar Noah fez cocô. E eu fui ao fraldário trocá-lo. Quando abri a fralda ele estava TO-DOAS-SA-DO. E  que mãe gosta de ver a cria assada, me diz? Virei pra funcionária e falei:

– Olha que fralda desgraçada que deixou meu filho todo assado. Eu nunca compro essa marca, foi meu marido.

– Eita que marido é bom mas é ruim, né? – disse a moça do fraldário.

Daí eu lembrei que as outras 10 fraldas que estavam na mochila cinza eram da marca que eu gosto e que não assam a bunda do filhote. Respirei fundo e disse:

– Olha o que eu faço com essas fraldas, ó.

E fui tirando uma por uma da bolsa azul, doando as fraldas ao fraldário do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro.

De um jeito que só uma mulher-mãe-experiente-organizada-e- decidida o faria.

Corta.

Mais tarde, dentro do avião…

– Ai, amor, tudo certo, que bom, que bom! Olha a carinha dele, olha como tá feliz! Meio assado, mas feliz. Mas também eu deixei TO-DAS aquelas fraldas malditas lá no fraldário. Vê se não compra mais aquela marca, tá?

– Você o que???

– Deixei lá. Mas não se preocupa. Tem mais 10 fraldas na mochila cinza, que você colocou…você colocou, né???

– Nãããããããoooooooooo!!!!!!!!!!!!

Corta. Senhoras e senhores, embarque encerrado. Dentro de alguns instantes daremos início a decolagem. Nosso tempo de vôo até Paris será de aproximadamente 11 horas e ZERO fralda.

– Robertaaaaaaa, como é que você me deixa as fraldas no fraldário??

– Ué,  era pra você ter colocado aquelas outras 10 fraldas dentro da mochila cinza, porra! E agora? Ai, meu deus!

– Pede pra moça do lado…

– Que moça do lado, François?? O filho dela deve ter uns 5 anos, já usa cueca, entendeu? Cu-e-ca. Putaqueopariu. Olha só. Você que é francês, vai lá no comissário com cara de gay e pergunta se ele não tem fralda no estoque.

– Que estoque, Roberta?? Você acha que a Air France estoca fralda?? E que tipo de pai e mãe esquece de trazer fralda pro avião, cacete.

– Vai lá, amor, os gays sempre te amam. Vai, é a nossa única esperança!!

E ele foi. E voltou com 4 fraldas RN. Repito: QUATRO FRALDAS TAMANHO RECEM NASCIDO. Para um moleque de quase dois anos.

Ah. E o cara não era gay, aparentemente. E tinha dois filhos. E disse com ar de superioridade que “fralda é a primeira coisa que se coloca na bagagem de mão”. E eu senti vontade de enfiar a porcaria da fralda RN dentro do nariz francês dele.

FAQ – Gente, que tipo de pai e mãe viaja sem fralda ? Mas deu pra se virar com as RN?? Elas são tão pequeninas!

Deu porque a gente regulou líquidos pra ele. Eu sei, eu sei:  que tipo de pai e mãe regula água pro próprio filho? O mesmo tipo que coloca fralda fio dental na bunda assada da cria.

FAQ – Caraca. Espero que pelo menos Noah tenha se comportado no avião?

Realmente prefiro não falar sobre o assunto. Mas para que tenham uma idéia do inferno aéreo, segue trecho do comentário feito a este post pela Melissa, uma moça educadíssima que estava sentada perto da gente no avião:

(…) Sim, sou eu – Melissa – a moça que estava sentada com o menino de 5 anos na mesma fileira que vocês, só que na janela, no vôo GIG-CDG. Sou testemunha ocular de sua noite mal dormida. Mas não se preocupe, vou deixar constado aqui que Noah não incomodou a mais ninguém a não ser a seus próprios pais. Uma coisa aquele ar seco e aquela pressão horrorosa do avião têm: abafam ruídos que é uma beleza!(…)

FAQ – Mas então seu filho dá piti no avião, não deixa a tal Melissa dormir e você ainda por cima dá o endereço do seu blog pra ela? Você não acha que isso já é tortura demais?

Pois é. Mas é que eu sofro da síndrome do “tem que me amar, preciso ser amada, por favor me ame!” Então dei o endereço do blog para que a Melissa constatasse que sou mulher-mãe-experiente-organizada-e-decidida.

Mas graças a deus não desperto interesse algum nos paparazzi. Porque, convenhamos,   “Fulana é vista emendando duas fraldas RN uma na outra em classe econômica de avião…”

E há glamour parisiense que me salve de uma lembrança dessa?

***

Fotos e demais francesices em breve!