Arquivo do mês: julho 2010

malas prontas!

Você sabe que seu filho atingiu o auge dos modos cariocas quando, aos 20 meses de vida, ele avista um helicóptero grande no céu e exclama CARACA!

Fora o sotaque e as gírias o rapaz desenvolveu certas habilidades exibicionistas para impressionar pessoas do sexo oposto. Exemplo. Noah leva a mão à frente da boca para tossir, eu que ensinei. E pode me chamar de neurótica que eu não ligo – sou fã assumida dos bons modos.

Daí que toda vez que ele tosse com a tal mãozinha-bons-modos a mulherada acha o máximo e sai suspirando:

“oooh, ele coloca a mão na frente quando tosse, que fofo”

“ooooh, que fofo”

“oooooh”

E tal.

Pois ele entendeu que a coisa pega bem pra ele. Então toda vez que uma atendente de loja/velhinha no elevador/moça da padaria o cumprimenta, ele SEMPRE, repito, SEMPRE força uma tossezinha mequetrefe e aciona a tal mãozinha-bons-modos, só pra impressionar. Cof cof cof, faz o cara de pau.

Ele é meu filho, mas não vale nada.

Fora o sotaque, gírias e galanteios carioquentos ainda tem o fato de ele adorar Tim Maia. A música preferida segue sendo Do Leme ao Pontal, a qual ele gosta de ouvir pela manhã. Lepuntal, mamãe, Lepuntal.

Mas hoje de manhã ele se superou na carioquice aguda. Chegamos a praia, e ele já foi seguindo em direção a um grupo de estranhos. Então ele pára na frente do grupo, abana e diz:

– Oi, pissoal.

E segue caminhando, com sua sunga cor cenoura.

Funciona assim: você dá boa noite pro seu filho e vai dormir. Quando acorda descobre que ele foi abduzido e no lugar dele, deitado no berço, está  Nuno Leal Maia (ou qualquer genérico que represente a carioqueza exarcebada).

fui dormir noah...

...e acordei nuno...

***

Daí vocês podem se perguntar que tipo de pessoa leva o filho à praia em plena terça-feira de manhã?  O tipo de pessoa que decidiu que, dessa vez, virose nenhuma vai impedir que a família viaje, ué.

Noah não vai `a escola desde a última quinta-feira – justamente para estar saudável, lindo e loiro amanhã, dia em que viajamos.

Para conseguir trabalhar com ele a tira-colo eu usei a tática do “ajuda a mamãe, filhote”. E colocava ele pra “dobrar” roupa ao lado das minhas encomendas.

Antes de descer pro correio eu resolvi verificar mais uma vez se estava tudo ok. E qual não foi minha surpresa ao perceber que meu ajudante tinha achado por bem enfiar um SUTIAN meu dentro de uma das caixas. A encomenda ia pra Manaus, visualizem o desastre.

Vale dizer que eu venho desesperadamente procurando minha colher de pau preferida. Se alguém veio a receber referida colher é favor entrar em contato. Pela compreensão, obrigada.

***

E então Noah vai conhecer a terra que guarda 50% de suas origens. Aqueles 50% que não usam sunga cenoura.

A gente desembarca em Paris, dorme na casa da cunhada e de lá segue de trem para a Bretanha. Vai ser uma viagem ao tempo, uma região desenhada por aldeias medievais, e que foi residência de Asterix e do Mago Merlin, ói que sorte a nossa.

Juro que conto tudo na volta.

Mas eu fiquei impressionadíssima com as muitas dicas de entretenimento no avião, obrigada gente bonita!

Daí ontem eu catei Noah pelas mãos e rumamos em busca dos tais entretenimentos.

Foi meio que unanimidade essa coisa de levar besteiras comestíveis. Então resolvi admitir que cenoura e arroz integral podem até fazer muito bem, mas não distraem picas.

Comprei bala e chocolate. Dei um chocolatinho de test drive, pra ver se o rapaz não reagia mal. Nada. Adorou. Parecia que tinha nascido dentro de um ovo de chocolate, tamanha familiaridade.

Eu me senti tão, mas tão mal por estar comprando aquele veneninho todo pro filhote que, na fila do caixa, eu não parava de me justificar. Gente que estava láááá do outro lado da loja ainda podia ouvir palavras de justificativa como “primeira vez”, “não dou nunca, nunca”, “são 12 horas de vôo”, “nunca”, “jamais” “quinoa forever”.

E eis que a amadora aqui resolve testar as balas tic-tac sabor laranja. Seriam aquelas merdinhas poderosas o suficiente para interromper um bem dado piti aéreo? Já dei duas balinhas, uma em cada mão.

Dali a pouco ouço alguém me chamar do carrinho.

– Mamãe!

Eu resolvi não dar atenção, estava ocupada procurando o elevador e segui empurrando o carrinho.

– Mamãe!

Continuei ignorando, mas diante do olhar meio espantado da galera que passava pela gente, resolvi parar e ver o que ele queria.

A cena era a seguinte:  filhote sorrindo, um tic-tac em cada narina, só com as pontinhas pra fora.

Pânico. Juro que eu fechei os olhos e me imaginei chegando ao hospital com a criança naquele estado, tentando explicar que tudo não passava de um mal entendido, que eu era da turma da granola, mas que eu ia viajar e…e…

– Tem gente que deveria ser proibida de ser mãe – diria a enfermeira –  Aquela ali dava tanta porcaria pra criança que tinha tic-tac saindo pelas narinas.

Pânico. Tira do carrinho. Um dos tic-tacs saiu na hora, com a risada do filhote ao ver minha cara de terror. O outro, porém, resolveu seguir o caminho inverso e entrar de vez.

Pânico meu e dele, que já não estava achando isso tão engraçado assim. Assoa, filho, deixa a mamãe…espera filho, assoa o nariz! Nada. A porra não saia e ele já estava começando a chorar. Fora que o rosto da criatura estava bordô, de tão forte que é a tal balinha.

A minha sorte é que anjo da guarda de mãe faz plantão. Me deu um estalo e eu lembrei que ele tem foto sensibilidade e que espirra assim que sai no sol ou na claridade. Saí do shopping e não deu outra:

-Atchuuuuum.

E o tic-tac saiu.

E a gente riu.

E ele não quis mais tic-tac.

E eu finalmente descobri o que os médicos querem dizer quando nos alertam para os perigos das guloseimas.

***

Beijo, queridas e queridos! Até a volta!

Ah! E boa hora pra quem é de boa hora – um parto tranquilo e feliz, gravidinhas!

massa de modelar? dvd? lexotan?

Pronto. O minuto de silêncio já era. Hora de sacudir a poeira, agradecer por todo o imenso carinho de sempre e tocar a vida pra frente – que atrás vem gente apressada, né não?

Então chega de silêncio e bora tagarelar sobre coisa boa.

A partir de hoje Noah estará 24 horas por dia grudado na saia justa desta que vos escreve. O motivo parece meio bobo, exagerado e descabido, mas eu mesma sou pessoa boba, exagerada e descabida (não caibo nas minhas calças 38), então faz todo sentido.

Na semana que vem nós vamos viajar.  E como já  experimentamos o traumático cancelamento de uma viagem porque o pequeno ficou, de véspera, muitíssimo doente, então resolvi deixá-lo longe da escola e das perebas em geral pra que ele esteja saudável, lindo e desencatarrado pro dia da viagem. Prevenida é a mãe, eu sei.

Mas qualquer coisa é melhor do que ver seu filho sofrendo, fungando e tossindo do Rio de Janeiro a Paris. E os demais passageiros agradecem. Eles ainda vão ter que aturar um alopradinho gritando “cocô no bum-bum, mamãe!” e roubando saquinhos de vômito, mas pelo menos da tosse e do catarro eles se livraram.

E sim, eu já estou tensa com a parte aérea da viagem – Noah já me deu motivos de sobra pra isso, tô mentindo?

Pensando nisso venho fazendo uma listinhas de providências pra que tudo saia da melhor maneira possível. Primeira coisa:

Organizar entretenimento barato para distrair  a cria durante  o vôo:

1. DVD do Cocoricó

Problema: Noah anda meio enjoado do Cocoricó.

Solução: Levar também um DVD alternativo, tipo  pornografia pesada A Turma da Mônica.

2. Brinquedinhos da loja de 1,99

Problema: Brinquedinhos de 1,99 tendem a quebrar em pequenos pedaços, os quais podem provocar engasgamento. E engasgamentos devem ser evitados, posto que passageiros de vôo internacional não suportam o barulho de pessoa engasgada.

Solução: Comprar somente brinquedos de 1,99 que quebrem em pedaços grandes OU  em pedaços pequenos o suficiente para serem engolidos sem estardalhaços ou engasgamentos (ps: esses pedaços pequenos, engolidos sem estardalhaços, tendem a reaparecer na fralda no dia seguinte e devem ser inutilizados!).

(é brincadeira, né, ô conselho tutelar!)

3. Apelar para guloseimas e quitutes mergulhados em gordura trans

Problema: Por não estar acostumado a comer toda essa besteirada, Noah pode acabar tendo uma reação esquisita e mal cheirosa (e mal cheiro DEVE ser evitado, a todo custo!)

Solução: 1. Encarregar somente o pai da troca de fraldas durante o vôo, assim você se protege dos gases tóxicos que resultam da ingestão de tamanha porcariada (ps: se o pai não aceitar vale roubar no par ou ímpar!) 2. Fazer caretinha de mal cheiro pro passageiro de trás, como se fosse o passageiro ao lado que tivesse peidado.


Plano B – a ser executado caso o entretenimento barato não surta o efeito desejado e a cria dê piti aos 70 mil pés

– Desculpar-se em francês impecável; E logo em seguida comentar o quão injusta foi a desclassificação da França na copa do mundo.

– Deixar o marido se virar com os conterrâneos e assistir Friends enquanto ele resolve os atritos franco-brasileiros.

– Dizer aos passageiros que tudo não passa de um filme (vocês não sabiam??!). Prometer cachê e explicar que o filme é sobre uma criança barulhenta e hiperativa, que detona com a paz de todos os passageiros, mas acaba virando herói, ao descobrir que a companhia aérea fabrica os pães que serve a bordo com restos de papel higiênico, copos plásticos e gordura hidrogenada.

– Se fingir de louca, balançando o corpo pra frente e pra trás e engolindo, um a um, os brinquedinhos de 1,99.

**

Mas se nada disso funcionar, juro que não vou estressar.

Que quem é que vai lembrar de perrengue aéreo,  gordura trans, brinquedo barato e o raio do Cocoricó ao se deparar com uma paisagem dessa, me diz?

Mas eu estou super aceitando dicas, viu? Está aberta a temporada de pitacos de entretenimento a bordo. Como entreter uma criança que se vê trancafiada em um micro espaço aéreo onde não se pode correr, nem falar alto, nem roubar saquinhos de vômito, nem nada daquilo que faz com que seja tão legal ser terrorista criança!

Massa de modelar?

DVD?

Lexotan?

** atualizando:

1. Pausa pra comentar comentários! Estou adorando as dicas, que maravilha de gente viajada e descolada!

2. O comentário da Pati do Coisas de Mãe é profissional, vocês sabem, né? Ela é autora do livro “Crianças a Bordo – Como viajar com seus filhos sem enlouquecer”

Eu vou aproveitar pra jabalizar, que coisa boa a gente tem que divulgar, pô! Então. O livro da Pati tem 100 páginas (mas cabe no bolso) e dá valiosas dicas pra quem quer se arriscar no maravilhoso (mas não menos assustador) mundo da viagem com as crianças. Passa no blog dela e se informa sobre como comprar!

3. Lia, querida, roubar no par ou ímpar é uma técnica milenar que não deve ser divulgada, assim, tão irresponsavelmente. Posso te dizer que pouquíssimas pessoas têm o privilégio de sobredito conhecimento. Ente eles o autor de “O Segredo” (hã??) Enfim, pergunte ao Mestre dos Magos, vai que ele libera…

minuto de silêncio

Dedicado a todas as mulheres que já se pegaram pensando “9 meses, hoje”.

Um abraço muito forte, muito sincero e eternamente solidário a todas as mulheres que, como eu, acordaram, olharam pro maldito calendário e sentiram uma porrada indescritível na boca do estômago.

9 meses, hoje.

Desculpem o desabafo, mas é um nó seco e desgraçado na garganta. Já já eu volto.

a bundchen, a dieckmann & o didi mocó

A moça é alta, magra, milionária e não gasta dinheiro com fralda. Não porque ela não tenha filhos. Mas porque o filho de 6 meses já faz cocô no penico.

Se houvesse algum resquício de justiça nesse mundo, nunca que eu ia me deparar com uma declaração de Gisele Bundchen dizendo que o filho de 6 meses já está sendo treinado para o desfralde. E com sucesso.

Eu sou da turma que acredita que “tudo não terás, darling”.

Se você nasce com a beleza de Gisele, com a sorte de Gisele e com a perspicácia de Gisele você jamais deveria passar ilesa pelo desfralde. Jamais deveria ter um filho que dorme a noite toda. E nunca, em hipótese alguma, deveria sair por aí dizendo que o rapaz não teve cólica nem refluxo.

Há de haver um equilíbrio, dona Bundchen. Ou a pessoa nasce maravilhosa OU tem um filho que não dá trabalho nenhum. Você escolheu nascer maravilhosa. Então bora acordar de madrugada e estourar o limite do cartão comprando pampers. Oras.

A única vez que me senti parecida com Gisele foi na gravidez dela, quando finalmente ficamos com a barriga do mesmo tamanho. Só que ela estava grávida de 5 meses e eu NÃO estava grávida, perceba o disparate.

Gisele uma vez afirmou que não se achava tão bonita.  E que bonita mesmo era Carolina Dieckmann. E posso falar? Com a Carolina eu me identifico.

***

Carolina,  assim como eu, achava que não havia mais nada de interessante a se fazer durante a gravidez a não ser comer. Tanto Carolina quanto eu,  almoçávamos `as 12:00, às 13:00 e novamente às 14:00 porque a gente “esquecia” que já tinha almoçado (que foi? todo mundo sabe que memória de grávida é uma merda.).

Não quero entrar em detalhes mas posso afirmar que Carolina e eu, juntas, engordamos o peso total de um adulto bem alimentado. E fico feliz em saber que ela contribuiu mais com o peso desse adulto do que eu.

E é engraçado, porque apesar de todo meu sobrepeso, o povo na rua tinha a pachorra de me dizer que eu estava ótima, e que eu era “só barriga”. E eu de fato era só barriga: uma barriga na bunda, uma barriga no queixo e outra na bochecha.

Enfim, eu te entendo, Carol. Assim como você eu comia 300 gramas de pão de queijo e, em seguida, entrava em processo de negação e dizia ao marido que a barriga só estava assim grande porque  todas as mulheres da família acumulavam muuuito líquido amniótico na pança.

Só que daí a cria nasceu, o líquido amniótico saiu e o pão de queijo ficou lá, acoplado aos glúteos.

E daí só me restou mesmo chorar e culpar os hormônios. E comer mais, já que na minha família as mulheres só conseguem amamentar comendo 22 alpinos por dia. E tradição familiar é tradição familiar.

***

Falando da Carolina Dieckmann lembrei que vi uma entrevista, onde a entrevistadora perguntava se algum dia ela (a Carolina) ia fazer um filho que se parecesse com ela, já que os dois filhos eram a cara do(s) pai (s).

Sou obrigada a me identificar aqui também. Porque putaquel como eu ouço isso.

A diferença é que é muito mais difícil pros filhos dela do que pro meu, concorda? Sim, porque de que adianta ser filho de Carolina Dieckmann se você acaba nascendo a cara do pai?

Eu não morro de amores pela idéia de ter um filho que não se parece nada comigo. Mas ao mesmo tempo fico aliviada por ele não ter nascido com meus pés. Porque meus pés são bem, mas bem esquisitinhos.

Não é que eles sejam tão feios. Na verdade eles são pré-evolução humana. Se você visse esses mesmos pés no corpo de um neandertal eles nem te chamariam atenção. O problema é que eu sou uma mulher mais ou menos evoluída nos pés de uma mulher das cavernas.

Mas como pra quase tudo existe um lado bom, por serem pés pré-históricos eles são altamente funcionais: consigo abrir os dedos e fisgar roupas, papéis e demais apetrechos sem deixar cair. Eu abro portas e armários com eles. Eu poderia lavar louça com meus pés pré-evolução.

Mas  apesar da funcionalidade, fico feliz por meu filho não ter herdado meus neander-pés. Fica bem mais fácil desfilar pelas areias de Ipanema com pés pós-evolutivos.  Vai por mim.

***

E quando seu filho nasce tão diferente de você só resta procurar traços da personalidade dele que se parecem aos seus.

Pois Noah deu pra ser palhacinho imitento. Imita todo mundo na cara dura.

Domingo passado foi a vez do segurança do parque. Paramos pra pedir uma informação e o tal segurança tinha um tique meio esquisito, fechava os olhos e piscava freneticamente. Agradecemos pela informação e saimos. Quando olhamos pro Noah ele estava com os olhos fechados piscando de maneira enlouquecida, feito doido foragido. O segurança não viu, ainda bem. Eu tentei ser politicamente correta mas não consegui: olhei pro maridão e sentei no chão pra rir até a barriga doer.

Hoje de manhã no elevador a vítima foi a vizinha. Ela deu uma risada alta e jogou a cabeça pra trás, batendo uma palminha. Pois o macaquinho se posicionou e forçou uma risada mequetrefe, jogando a cabeça pra trás e encerrando a performance com a derradeira palminha de foca.

Ele imita o avô andando, imita os amigos da escola, imita nosso porteiro. E foi assim que ele decobriu, aos 20 meses de idade, que ser engraçado é legal. E que ver a própria mãe, sentada no chão, gargalhando, com a mão na barriga, simplesmente não tem preço.

***

Quando eu era pequena eu não tinha cachinhos louros, não ia pra Disney nas férias e não tinha aqueles estojos que abriam compartimentos quando você apertava os botões.

A solução que eu encontrei pra ser amada foi ser meio palhaça. Então, assim como Noah, eu imitava. Imitava os alunos, imitava as freiras, o sotaque dos gaúchos e a Tetê Espíndola.

Um dia eu fui ao circo ver Os Trapalhões e o Didi disse pra minha mãe que eu era bonita e falante. Era o que faltava pra eu passar a acreditar que era filha legítima de Didi Mocó. Fechava os olhos e imaginava que um dia ele diria, em cadeia nacional:

“Gente, essa aqui é minha filha!”

E eu entraria chorando, com uma faixa na testa, cantando Physical, Physical da Olivia Newton Jones.

Ou seja, típica história da menina que nasce meio sem talento e vira palhacinha pra ser bem quista pelas pessoas.

E alguma coisa me diz que Noah pode ter herdado isso de mim. O que é uma pena porque eu preferia ele talentoso, sério e classudo.

Mas como essas coisas a gente não escolhe, eu já vou me conformando a ter um filho palhacildo. E a não ter sequer uma foto no futuro em que ele não esteja fazendo careta ou mostrando a banguelice.

Mas entre ter um filho que imita o jeito que eu ando e falo OU ter um filho com meus pés, eu fico com a primeira opção.

Difícil vai ser quando ele descobrir que eu tenho pés esquisitos. Se ele realmente puxou a mim não vai ter semana em que ele não vá sentar do meu lado, olhar pros meus pés, e sorrir dizendo:

“Mas, diz aí, mamãe… Quando você vai no salão fazer os pés, o pessoal ri baixinho e tal? Ou todo mundo faz de conta que eles são normais?”

maradona pelado? qual o lado bom disso??!

Querido filhote,

Mamãe já te falou aqui que pra quase tudo nessa vida existe um lado bom.  Na época eu te disse que as exceções à regra eram: telefone ocupado,  fio de manga preso no dente e a aflição de pisar de meia no chão molhado.

Mas hoje o Brasil perdeu de 2 x 1 pra Holanda e a mamãe decidiu rever os conceitos e agregar o “ser desclassificado da Copa do Mundo” aos itens nos quais não há NADA de positivo.

Porque, filho, perder é uma merda.

E eu descobri isso quando ainda era pequena, lá nos idos dos anos 80, quando o Brasil perdeu pra algum time cujo nome não consigo repetir, tamanho o trauma.

Naquele dia em diante eu aprendi duas coisas:

1. perder a Copa é muito ruim;

2. pior do que perder a Copa é se olhar no espelho, e perceber que aquelas mechas verde-amarelas que você fez com papel crepom estão completamente impregnadas aos cabelos, e vão ficar ali te lembrando da derrota por tempo indeterminado.

Como eu não posso te vacinar contra frustrações, venho aqui tentar amenizar o baque pós-derrota-de-copa. E aprender a perder é coisa nobre, mas é tarefa tão difícil quanto se livrar da tal mecha de papel crepom.

Então vamos lá:

Técnica We are the World, We are the Children

Técnica de conformismo especialmente utilizada quando o país que ganhou do Brasil é um país muito pobre. Respire fundo e repita o mantra: “Coitados, pelo menos uma alegria pra esse povo sofrido”.

ps: esta mesma técnica se aplica a países comunistas, em guerra ou com restrição ao consumo de bebida alcoólica.

ps2: esta técnica não se aplica, em hipótese alguma, à Argentina, que apesar da dívida externa de 20 bilhões de dólares, ainda se considera país rico, louro e sem celulite.

Técnica do Deixa eles, que eles estão com a vida ganha…

Utilizada quando o Brasil perde de um país rico. Requer espiritualidade mais desenvolvida, posto que perder de rico é foda. Mas respire fundo, seja um bom perdedor e conclua “Que bom que eles continuam. Somente um país rico pode se dar o luxo de parar a economia de uma nação só pra assistir televisão. Deixa eles.”

ps: Também não se aplica a los hermanos argentinos. Porque por trás daquela arrogância e da mania de achar que é europeu, os caras são duros, filhote. Pode fazer o teste: coloca um argentino de cabeça pra baixo e sacode pra ver se cai uma moedinha sequer.

Técnica do Vai trabalhar, vagabundo!

Essa eu aprendi hoje, depois do jogo. Entrei no elevador e lá estava o vizinho, com cara de gastura. Mal me acomodei no elevador e ele já disse:

– Melhor assim. Copa do Mundo traz prejuízos irreversíveis à economia do país.

– Com certeza  – eu respondi – Horrível.

– Aposto que Brasília, então, estava vazia. Aquele bando de &*%*^%$ gastando o nosso dinheiro com churrasco pra bandido. Idiotas.

– Imbecis.

– Safados. A Copa acabou, vai trabalhar vagabundo!

***

Então é isso, filho. Espero que esses conselhos sirvam pra alguma coisa, e que te ajudem a superar as muitas derrotas futebolísticas que você, como bom brasileiro, ainda vai engolir.

E se uma dessas derrotas se der contra a Argentina, filho, daí não tem jeito:  senta no papel crepom  e chora.

E reza pra que o Maradona não seja mais o técnico.

Porque além de lidar com a derrota, os brasileiros podem se ver obrigados a testemunhar Dieguito versão Visão do Inferno, já que o rapaz prometeu desfilar peladão no centro de Buenos Aires caso a Argentina saia vitoriosa.

(O que aumenta nossa lista de coisas que simplesmente não têm um lado bom, filhote.)