do tempo em que diarréia era cocô mole

Daí a pessoa leva o filhote pra passear na praça, munida de todos os apetrechos Copísticos Brasileiros – bola, camiseta, corneta. E ensina pra cria “corneta, filho, isso se chama cor-ne-ta”.

Para logo em seguida ouvir risadinhas de um grupo de meninas, todas na faixa dos 5 aninhos.

– O que foi? – você pergunta ao grupo de meninas risonhas.

– Vuvuzela, tia.

– Hã?

– Isso aí na mão dele…se chama vuvuzela, não corneta… vu-vu-ze-la.

E se acaba de rir da sua cara, o tal grupinho de baixa idade e muita opinião formada.

Maldito conflito de gerações.

Eu sou da época em que resfriado era resfriado, dor de barriga era dor de barriga e diarréia era cocô mole. Agora parece que todas essas mazelas da saúde humana passaram a atender pelo carinhoso apelido de “virose”.

A pessoa vai dormir achando que sabe tudo e quando acorda descobre que a corneta virou vuvuzela, toda pereba agora se chama virose e o plástico virou inimigo oficial da primeira infância. Isso mesmo – parece que o inocente plástico de outrora, quando colocado no microondas, solta uma substância de nome paroxítono que pode mais ou menos dizimar com a população inteira da India.

Assim fica difícil acompanhar.

***

Mas eu só passei aqui voando pra vocês não acharem que eu desapareci, sequestrada por algum grupinho de elementos de baixa idade e muita opinião própria. Aliás, interessante como hoje as crianças são cheias de opinião, percebem?

Na minha época a gente engolia um bocado de sapo, simplesmente porque adulto era adulto e criança era criança. E adulto era dono de uma coisa a qual criança NUNCA conseguia se apropriar: a verdade.

Quer ver um exemplo?

Quando eu tinha 5 anos, guardava dinheiro dentro do porquinho. Daí um dia meu irmão mais velho veio e se apropriou de minhas economias. Eu, então, resolvi me apropriar de alguns objetos do quarto dele, mas tive que devolver tudo porque minha mãe falou que aquilo não era correto.

Ela disse que dinheiro tinha que vir de forma merecida. E que eu deveria encontrar alguma maneira honesta de ganhar – trabalhando, por exemplo.

Por dias e dias eu fiquei pensando, calculando e imaginado uma maneira honesta e merecida de capitalizar. Foi quando eu vi um tijolo. E descobri que se eu raspasse aquele tijolo, o que saía dali era um pó vermelho, parecido com o tal do blush que as mulheres crescidas usavam na bochecha.

O plano era relativamente fácil e envolvia:

1. raspar  tijolos;

2. embalar aquele pó todo em pequenas embalagens individuais;

3. escrever BLUSH (em letras vermelhas), em cada um dos pacotinhos;

4. sair vendendo na vizinhança.

Alguns dias e muitos calos depois eu já tinha pó suficiente pra ser aceita em cartel de drogas colombiano.

Mas ao visitar a primeira vizinha, a propensa cliente já riu na minha cara e ameaçou contar tudo pra minha mãe. Como eu era criança de antigamente, daquelas que engoliam um bocado de sapo e aceitavam a verdade dos adultos, eu respirei fundo e falei “sim, senhora” .

Então eu joguei fora todo o fruto do meu trabalho de dias e disse adeus à possibilidade de sair na Revista Caras Kids .

Fico pensando se isso tivesse acontecido nos dias de hoje. Do jeito que a criançada é to-da cheia de opinião, a Robertinha 2010 certamente argumentaria com a vizinha, nos seguintes termos:

– Pois fique a senhora sabendo que este blush é feito de tijolo, que é feito de argila orgânica, encontrada nas várzeas e córregos. A argila é submetida a um processo natural de prensa e corte, o qual resulta neste excelente produto natural biodegradável.  Agora dá licença que eu vou pegar minha vuvuzela e protestar contra esse blush químico, nocivo e testado em animais que a SENHORA insiste em usar. Humpf.

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27 Respostas para “do tempo em que diarréia era cocô mole

  1. Rô querida, você foi uma criança bizarrinha e ingênua como eu fui rs … me fez lembrar um episódio: lembra daquelas borrachas que imitavam bolacha doce? Eu dei para o pobre do pedreiro, e ele comeu, contou pra minha mãe e eu não argumentei nada antes de ir pro castigo rs. Vc pelo menos era espera, e fabricava blush com rótulo e tudo.. um vez eu fiz uns papéis de carta caseiros desenhados por mim e tentei pra vender pras amigas, sem comentários…beijo

  2. É querida, desista!
    Já não fazem (fazemos) mais crianças como as de antigamente…

  3. Hehehe
    Acho que deveriam até mudar o nome “criança”. Porque eles não são nem perto do que a gente foi…
    Beijos!

  4. Ai Roberta… Você só me faz rir… Eu vendia avon! Sim, menina precoce que fui, pegava a revistinha antiga da mãe da minha melhor amiga, recortava os vidros de perfume e vendia na rua, quer dizer, do portão do meu prédio… kkk Conseguimos vender alguns!!! kkk
    Boa ideia, vou contar esta minha experiência empreendedora qualquer dia desses!! kkk
    E sobre o blush, me dá dois que quero maquiagem orgânica! Beijos.
    Beijos.

  5. Robertona foi a precursora da maquiagem mineral! Menina, se essa idéia tivesse vindo uns 20 anos depois – quando vc já teria autoridade de “adulta” – vc estaria r-y-c-a.
    (Só tinha que lembrar de esconder o cofrinho melhor…)
    Beijo!

  6. Com uma propaganda dessa, acho que até eu que meu máximo de maquiagem é o trio: batom-rimel-lapis de olho, encararia um blush.

    E você? já tá boa?

    bjs

  7. Cara, acho esse nome vuvuzela uó. Me recuso a pronunciá-lo. Corneta é corneta, que saco. E blush, na minha infância, era rouge. Condicionador era creme rinse, diarreia era caganeira e por aí ia. Ah, e as crianças respeitavam mais os adultos (e suas cornetas), hehehe.
    Beijos

  8. Ahahahah eu tmb me apropriei do porquinho do meu irmão. Mas na verdade eu troquei as moedas de R$1,00 por de R$0,01. Coitado!!!

    E vendia brincos auto-colantes (vc se lembra deles?). Vendia para a vizinhança toda e até cheguei a tirar o da minha orelha e vender. Não sei porque inventei de ser psicóloga. Como comerciante venderia muito mais.

    Ah e vuvuzela é mais comprida do que as nossas cornetas, que pra mim serão sempre cornetas.

    Bjssssssssss

  9. Será que mudou tanto assim? Tudo bem que eu ainda não tenho 30, mas quase. Quando eu tava na 6a série, tinha colega de classe que vendia lança-perfume na micareta. E nego que rasgava as cadeiras novas acolchoadas da escola e dizia pros professores: “eu pago teu salário”.

  10. hahahahaha nem li o post ainda, mas ja estou me matando de rir com o titulo.

    PELO AMOR DE DEUS preciso de um post seu la no blog.

    Vc manda muito bem, my friend.

    bjos bjos

  11. Juro que não aguento mais a palavra vuvuzela. Bafana Bafana também já deu. Aliás, essa Copa só se salva se o Brasil ganhar o Hexa. Senão, uó do começo ao fim.
    E eu sou do tempo que Crunch se chamava Kri e Tinker Bell se chamava Sininho. Ou eu que tô muito velha, ou esse mundo tá mesmo pra acabar.
    beijos querida!

  12. Rô, esqueceu de dizer que a gente respeitava os professores e os mais velhos. Hoje crianças simplesmente olha para professores e dizem ‘Eu que mando pois meu pai paga teu salário’. Acho o cúmulo da má educação, pois nossa geração(que velho isso) respeitava demais e tinha medo, aí a essa de agora não respeita nem um pouco e não tem medo de nada (vide milhares de acidentes com jovens de 15 anos dirigindo). Nos resta criar nossos filhos pra respeitar as regras e as outras pessoas, por que senão o mundo só tende a piorar!
    beijos

  13. Esse post divertido também me rendeu lembranças. Eu não tentei vender blush de tijolo, mas promovi um desfile de roupas de boneca no meu quintal. Vendi ingressos a centavos para as meninas da vizinhança, mas meus primos “atentados” invadiram meu desfile que transcorria com muito glamour na passarela construída sobre minha banheira cor de rosa.rs
    Levantaram os vestidos das bonecas e acabaram com o primeiro e único empreendimento de minha existência. Desde então, descobri que minha vocação era ser apenas uma mera e pobre assalariada. rs Obrigada pela oportunidade de resgatar essas memórias soterradas sob fraldas. rs Beijos

  14. Menina, pois vou te contar que no meu tempo diarréia era piriri-gangorra!!!! hahaha (ou será que isso é coisa de mineiro?).

    E ainda bem que aqui não tem essa turminha de baixa idade e de opinião formada que fale PORTUGUES, senao eu teria tambem ficado com cara de tacho (desculpe, expressao de infancia). Menina, custei a me tocar o que seria essa tal de vuvuzela!!! E eu aqui, dizendo que como uma corneta fazia falta pra assistir os jogos…

    Beijos e sigamos em frente!

    PS: vc perguntou sobre a historia da escolinha do Nic e é aquilo mesmo… só quando ele tiver 3 anos. Mas daí, estamos seriamente considerando em morar numa cidade pequena e idílica um pouco afastada de Vancouver, mas ainda perto, sabe? E la nao tem fila pra childcare nao. E tem casa com quintal. E montanha e rios. E urso. É, deixa eu parar por aqui. Vc entendeu, ne?

    Beijos, de novo!

  15. Eu sou a irmã mais velha, então eu que metia a mão no porquinho da mais nova, tadinha! Mas tb tive meus momentos empreendedores como desfile de bonecas (que já li por aqui), montagem de colares…vcs tiveram tear? Eu tentei fazer cachecóis para vender…aquilo demorava uma eternidade! Desisti antes de ficar rica!
    Bjs querida, estava c/ saudades dos seus posts!

  16. Me diverti pra caramba com esse post.
    Quando ouvi o nome vuvuzela, fui procurar no wiki pra saber se o nome sempre foi esse e eu era a única que não sabia!!!!
    Amei seu jeito de escrever e vou virar freguesa! 🙂
    Bjinho

  17. Huashuashaushasu!!! Pra mim corneta ainda é corneta!!! E esses seres vuvuzelantes que não me encham os picua! hahahahaha

    Gostei da sua idéia de fazer blush artesanal! Pena que não foi bem aceita… é que só gente podre de chique entende o que é BÃO! hahahaha

    Beijos e bom restinho de semana!

  18. só é vuvuzela lá na terra da Copa, ou vi dizer que as cornetas daqui são importadas?? Vou exigir o selo original no produto…ahuahuaha
    mas … sabe pq as crianças de hj são assim?? Porque nós, as de antigamente, decidimos que nossos filhotes não seriam como nós, seriam mais espertos e cheios de opinião…ahuahuahha
    Beijo grande, estava com saudades!!

  19. esse choque é um loucura.
    falei pra isaac pegar a corneta outro dia e ele fcou parado me olhando.
    peguei a corneta e ele: “vuvuzeia”.
    fazer o que?
    culpa do galvão!!!!
    kkkkk
    bjo
    carol

  20. R-O-B-E-R-T-A! Vc se supera a cada post! Adoro!

    Sobre os plásticos, nem me fale. Já té vi que alguns blogs falaram da tal substância mas ainda não acompanhei não.

    Meu dilema atual é como trocar as fraldas e a roupa da minha pequena em menos de 1 hora…vc tem dicas? Tô precisando…

    Beijos!

  21. É… me senti uma velhota agora…rs. Mais uma vez, você acertou em cheio! Mas, me diga, porque não deu uma “Vuvuzelada” na orelha delas?…rs.

  22. Roberta, vc é uma palhaça! Adorei.

  23. raspar tijolo é sensacional…rsrsrs! Vc não existe!
    E tb detesto vuvuzela, é corneta e pronto.
    beijos

  24. Adorei o discurso da Robertinha 2010.

    Mas achei sacanagem da tua mãe! Quer dizer que assaltar o porquinho da irmã mais nova é trabalho honesto? Fala sério!

    E a Jabulani? Todos os objetos têm nome próprio nessa copa, vou te contar. É o capitalismo selvagem! Tem nome africano, então custa mais caro.

  25. Que delícia de blog!!!como quero ser avó logo, já virei leitora assidua. parabéns!

  26. Peça pelo lado positivo, a gente queria crescer logo para poder ter razão. quem sabe a nova geração curte mais a terra de peter pan?

  27. Sim menina, que história é esta de vuvuzelas, corneta corneta e corneta!!!!!!!!! e o lanche mirabel, alguém lembra????? minha mãe comprava caixas de mirabel pra gente levar pro lanche, mas não podia ficar comendo em casa não, era só pro lanche do colégio!!!!

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