das enchentes e da (brilhante) mente infantil

A casa onde morei até os 8 anos pegava enchente. Aliás, deixando os eufemismos de lado, a casa onde morei até meus 8 anos ficava era todinha embaixo d’água. Inteirinha submersa, só com a pontinha do telhado de fora, pra mostrar que ali tinha uma casa.

Sabe aquela menina que você via na TV, abanando da janela de casa, cercada de água por todos os lados? Aquela menina era eu! Verdade, pessoal. Aquela foi minha primeira (e última) gloriosa aparição no Jornal Nacional. Eram os anos 80 e Cid Moreira abria a matéria falando das terríveis enchentes do sul, das chuvas intermitentes e das doações aos desabrigados. E a matéria terminava com a imagem dessa menina banguela (eu!) na janela de casa, sorrindo e abanando.

Eu só não entendia como que uma coisa tão legal quanto aparecer na TV podia ser considerada uma “tragédia”, como eles cansavam de repetir nos noticiários.

– Tragédia, o quê? – eu pensava, no alto de minhas botas sete léguas.

***

Tirando festa de aniversário e feriado de 7 de setembro, enchente era a coisa mais legal do mundo pra mim. Primeiro porque não tinha aula. Segundo porque não tinha luz, e a casa (que já era enorme e mal assombrada) ficava ainda mais parecida com o esconderijo do drácula. 

E ainda tinha o fato de que, assim que a água começava a subir demais, minha mãe, descolada e corajosa que só ela, chamava o moço da canoa pra nos levar pra casa da vizinha da frente, que ficava num morro, onde uma enchente de até 18 metros não conseguia subir. Quando digo “nos levar” me refiro a mim e aos meus irmãos. Minha mãe ficava na nossa casa, sozinha, levando álbuns e documentos para o forro do telhado. “Que isso não tem preço”, ela costumava dizer.

Agora, pensa comigo. Passeio de canoa. Feriado. Velas ascesas. Todo mundo juntinho. Enchente pra mim era praticamente o Beto Carreiro World.

***

Fora todo esse lazer, enchentes ainda contavam com um fator que eu particularmente adorava: o racionamento de comida. Não que tenha nos faltado alguma coisa. Mas na minha cabeça a matemática rolava solta e lá ia eu pela cozinha, abrindo os armários e contabilizando:

– Temos 8 pães, 9 batatas, 12 bananas, 5 pacotes de macarrão e algum pouquinho de manteiga  e molho de tomate. Acho que podemos sobreviver uns 3 dias sem começarmos a sentir a fraqueza da desnutrição. Ufa.

***

Minha maior preocupação era ser separada de minha companheira e fiel escudeira, minha vizinha do lado, Andréa. Mas para que isso não acontecesse já havíamos acionado o moço da canoa que, meio contrariado, promovia o nosso encontro todas as manhãs. Levava uma, buscava a outra. Nem  minha mãe e nem a dela se opunham a esse mimo. Afinal, dessa maneira as duas se distraíam e brincavam o dia inteiro. Além do mais, tanto eu quanto a Andréa ameaçávamos fazer greve de fome se não pudéssemos nos encontrar durante a enchente. Era um pacto nosso.

Hoje em dia eu perdi contato com a companheira Andréa. Mas naqueles dias de enchente a gente não se desgrudava, fosse para contabilizar o estoque de comida (tudo que tinha na minha casa + tudo que tinha na casa dela, dividido pelos integrantes de ambas as famílias + o Totó, que era cachorro mas também precisava comer). Seja para bolar um plano de ação caso tivéssemos que fugir para arranjar mais comida. O que mostra que eu era ansiosa e cheia de T.O.C,  já naquela época.

Fora isso a gente brincava, a gente corria, jogava pedrinhas das janelas só pra ver pra onde a correnteza das águas as levavam. Temíamos pouco, talvez só as aranhas, que também queriam sobreviver, portanto escalavam as paredes das casas. Por isso minha mãe repetia incansavelmente:

– Sacode as botas antes de calçá-las, minha filha. Que pode ter uma aranha escondida ali dentro. Conheço alguém que morreu assim.

E minha mãe sempre conhece alguém que é primo de alguém que morreu de algum jeito. Acho que essa foi a maneira que ela encontrou de manter os 4 filhos longe do perigo. Como se isso fosse possível.

Voltando a checagem dos calçados: até hoje essa mania me persegue. Posso estar em Paris que dou uma olhadinha básica no fundo do sapato, pra ver se não se esconde ali algum aracnídeo, foragido de uma enchente qualquer.

***

Fora falta de energia e água, não tivemos maiores problemas com as chuvas que despencaram dos céus do Rio de Janeiro nesses dias. Foi uma menina, que vi ontem a noite na televisão, que me fez lembrar das enchentes da minha infância.

A menina fazia parte de uma família que perdeu tudo e que vivia uma tragédia sem par. A família inteira havia sido levada a um abrigo.

Quando perguntada sobre o que ela achava do abrigo, a pequena respondeu:

– Bom, aqui é legal… tem mais espaço pra brincar.

***

 E tem gente que se recusa a aprender com as crianças?

***

Não poderia deixar de dizer que as doações fizeram TODA a diferença nas enchentes que minha família encarou. Entre elas um casaco de ursinho que eu adorei, enviado por alguma “menina de São Paulo”.  Se alguém tiver mais informações sobre como doar, por favor divulgue. Eu vou lá preparar a minha sacolinha. Tenho certeza que ela vai parar em ótimas mãos.

***

Atualizando, se você quer doar, mas não sabe por onde começar (ui, até rimou)

– A Isadora, do Grãozinho de Areia, informa que o Mopi da Tijuca e da Barra está recebendo doações. Mais informações aqui.

– A Carla está recebendo doações em Laranjeiras. Para entrar em contato com ela é só mandar um email para carla.codeco@gmail.com

– O globo.com divulgou uma lista de locais que recebem doações no Rio de Janeiro. Ao todo, são dez unidades da Guarda Municipal:

Rua Afonso Cavalcanti, 455, em Cidade Nova 
Avenida Pedro II, 111, em
São Cristóvão 
Rua Bambina, 37, em
Botafogo 
Avenida Ayrton Senna, 2001, na
Barra da Tijuca 
Rua Armando Cruz, s/nº, em
Madureira 
Praça Barão da Taquara, 9, em
Jacarepaguá 
Rua Prof. Abelardo Lobo, s/nº, na
Lagoa 
Rua Biarritz, s/nº, em
Bangu 
Rua Conde de Bonfim, 267, na
Tijuca 
Rua Minas Gerais, 200, em
Campo Grande


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30 Respostas para “das enchentes e da (brilhante) mente infantil

  1. Roberta, você é INCRÍVEL. Sem mais comentários.
    Beijos e que sorte a do Noah ter uma mãe tão…assim!

  2. Roberta querida. Gostei muito deste post, e me fez pensar como é maravilhoso saber a versão de um “causo” através de uma criança. Tragédia nunca é assim tão grande, sempre tem um lado lúdico, e vc é com certeza ma pessoal muito especial por ter guardado até hoje esse ponto de vista.
    Concordo com a colega acima, sorte do Noah ter uma mãe como vc, com os TOCs e tudo, que são saldadores as vezes…
    OBS: um dia tinha um marimbondo no meu tenis, desde então, sempre dou uma chacolhada antes de enfiar o pé. beijos

  3. hihihihi sensacional!
    as criancas ensinam muito, mas as mommys tb sao sábias, vide a sua!

    amay

  4. Encantador, suplime e tocante seu texto.
    O mundo das crianças realmente pertence ao País da Maravilhas né?
    Riquezas que trazemos da infancia e que não tem preço.
    Beijos!

  5. Rô, vc é de Blumenau?
    Eu não passei por enchentes na infância, mas morei num apartamento que tinha tantas infiltrações (mofo e goteiras) que tenho certeza de que isso contribuiu para o agravamento da minha asma. Mas eu achava legal porque aparecia um bichinho que se enrolava logo depois das chuvas. E a gente podia descer para colocar barquinhos de papel nos meio-fios alagados.
    Beijos

  6. Nossa, menina, adorei. Um dos posts mais bacanas nos últimos tempos. Dá vontade de continuar lendo mais e mais, pena que acaba… rs
    Tenho tanta saudade do mundo mágico que vivia quando era criança.. e quando os maiores problemas eram transformados em aventuras… assim mesmo como você retratou hoje…
    Acho que conseguirei chegar um pouco mais perto disso tudo de novo, quando tiver um baby…
    continue me presenteando com suas doces palavras…
    beijo!

  7. Ficou parecendo aquele filme, “A vida é bela”.
    Minha irmã (a que não é a sua ídola) se formou em arquitetura no fim do ano passado com um projeto sobre moradias temporárias para pós desastres. Até fez pesquisa de campo em Blumenau. Estou torcendo pra chegar a hora de ela conseguir por a mão na massa…

  8. Mas que sintonia heim? Adooooro!!!! bj bj bj

  9. Roberta, que história mais fofa, e engraçada claro, afinal vindo de vc, seu humor é delicioso e peculiar, ah e único também hahahaha, bom, realmente a visão de mundo da criança é mágica, pura e fantástica, que saudade dos meus dias de infância…rs, e sabe que não tinha enchente onde eu morava mas eu também tenho esta “terrible” mania de sempre fazer uma inspeção em todos os sapatos que vou vestir se eu estiver longe de casa? principalmente em ibiúna, onde tenho casa de campo, morro de medo de pegar uma aranha dentro do sapato, ou barata! bizarro….rs, temos mais uma coisa em comum… AMEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEI O LINK! chique no úrtimo no seu blog tão querido…

    um beijooooooooooooooooooooo, vamos falando….passo por aqui sempre, vc já sábe é minha parada obrigatória!

  10. Eu acho que te vi! 🙂

    E incrivel, mas eu tambem morei em lugar que alagava até metade da minha casa, até os 3 anos de idade. E uma vez, na faculdade, meus colegas contavam historias da epoca que eram supostamente pobres. Um comia pao com acucar porque nao tinha manteiga, o outro vestia a mesma blusa dois dias seguidos, ate que eu contei que morava na beira de um rio, minha casa alagava toda vez que chovia e um dia a Brasilia azul do meu pai foi carregada. Pronto, ganhei.

    Mas tambem me lembro com grande carinho que eu sempre ia pra vizinha que morava na ladeira. La tinham 3 meninas e eu adorava ir pra la brincar com elas, coisa que so acontecia nas enchentes.

    Um forte abraço, linda.

  11. Pingback: Tweets that mention das enchentes e da (brilhante) mente infantil « Piscar de Olhos -- Topsy.com

  12. Nossa, fiquei até arrepiada lendo seu texto hoje. Enfrentei 1 enchente na vida, e pra mim já foi marcante demais. Imagino passar a infância assim! Ser criança é bom por isso, ver o lado bom de tudo, até das tragédias. Vou divulgar as arrecadações no meu blog. Beijo.

  13. jornal nacional, gente! e além de tudo é famosa, que orgulho!! 😉
    gata, AMO seus textos. mas vc já sabe, né?
    beijo!

  14. Oi Roberta. Vim agradecer não só suas palavras como o fato de ter me linkado. Sinto-me honrada. E então sou brindada com um texto como esse!! Eu vi a garotinha falando ontem, e sorri! Em meio a tantas imagens e notícias duras, eu sorri! Por que senti o mesmo (sem jamais tê-lo vivido), que as crianças são capazes de transmutar, de maneira mágica, a realidade. Por que extraem o que há de bom de qualquer situação.
    Um beijo e duas vezes (ou seriam 3) obrigada!

  15. Pingback: Mais uma catástrofe! « Vem Ca Luisa

  16. Adorei cada palavra. E o final não poderia ser melhor!
    Bjs!

  17. olha o post de hoje lá no blog.

    bjs querida!

  18. Me lincou! Ueba! =)

  19. Adorei a forma como vc abordou a questão, maravilhoso, parabéns pelo post!
    Bjos,
    Camila

  20. Como sempre, incrível esse texto! Vc é o máximo!
    beijos mil, Re

  21. Tomara que teu nome seja Roberta, por que gostrei muito do teu texto e linkei lá no meu ultimo post, incrível, temos uma lembrança muito feliz das águas, eu explico lá no meu blog como te achei, e foi uma grata alegria te encontrar !
    beijoooo
    Nádia

  22. Oi Roberta, é a Bia, amiga da Isadora, do Futura….
    OMG! vc cada vez mais surpreende! que história de vida…e quanta sensibilidade!!!
    Estou também convocando todos para doação e ver que uma criança que um dia ganhava casaquinho em sacolas de doação e que vivia sem comida e no meio da água é hoje uma super mulher dá MUITO mais esperança na vida! Parabéns e que muitas meninas tenham uma luz como a sua.
    beijo
    Bia

  23. Gostei da poesia dos olhos de menina que já viveu frente à força das águas. Linda homenagem num post suave e delicado.

  24. me faz um favor? escreve um livro com os pensamentos do bebê filósofo, please? mas faça isso quando estiver insône, bêbada ou desvairada, porque a raqui na jugular foi sensacional e vc se encher de autocensura será uma perda irreparável para a literatura…
    beijo!

  25. Emocionei…de novo! Sabe, concordo com o povo aí de cima! Além de empresária, dona de loja chiquérima, acho que vc deveria pensar em escrever um livro! Vai escrever gostoso assim lá na China, Rô! Parabéns pelo incrível texto!
    Beijo!
    Dani
    PS: tô atrasada nos comentários, né…ando meio lerdinha esses dias…

  26. Vou ser redundante, mas belissimo texto, como sempre! A gente realmente fica com “gostinho de quero mais”, esperando pelo proximo post! Bj e obrigada pelo link!

  27. Olá!!! pra variar, adorei o post..viajei nas minhas lembranças de infancia..não, por aqui não tem enchentes..mas viajei em lembranças, e me deixou ainda mais apaixonada pelo mundo visto pela otica das crianças…parabens!! 😉

  28. Fofa você! Obrigada pelo recado carinhoso. Pode deixar que as mamys da blogosfera saberão rapidinho quando a pequena chegar. Falo pro paizão colocar lá no blog.
    E faço coro com as demais: escreve um livro djá! Vou amar!!
    beijos

  29. Que lindo esse seu post, e que divertido seu blog! Adorei e voltarei.
    bj.

  30. Amada, como vc conta essas histórias de enchente e não fala da bóia????????????

    Sua amada!!!

    Amo-te!

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