Arquivo do mês: abril 2010

alô, deputado? sou eu, mamãe!

Daí que a AVAAZ divulgou uma lista com nomes e telefones de todos os parlamentares, pra que a galera pudesse ligar e saber quem é a favor e quem é contra a aprovação da Lei Ficha Limpa.

A hora que eu vi aquela lista meu coração só faltou saltar pela boca, tamanha emoção de saber que eles de fato existem, os deputados! Sim, porque político é tudo meio gnominho – a gente vota neles e depois nunca mais ouve falar, concorda?

Então eu só passei aqui rapidinho pra contar que faz uma semana que eu ligo, diariamente, pra uns 2 ou 3. Ligo em meu nome e em nome de todas as blogueiras que avalizaram a campanha. E sabe de uma coisa? A galera presta atenção SIM quando você diz que está ligando em nome de muitas malucas mães. Vocês não vão acreditar mas eu tive deputados me retornando a chamada! Juro. Re-tor-nan-do.

Ontem eu resolvi editar uns trechinhos desse que é o meu mais novo hobby – ligar pra duende deputado! Som na caixa e olho fechado – que as imagens dão tontura, blagh.

ps: Eu acabei de falar com a Cristiane, do Movimento de Combate de Corrupção Eleitoral, que me confirmou que a votação será mesmo na próxima terça-feira e que os políticos estão com a corda no pescoço, tamanha pressão popular.O texto foi parcialmente modificado mas ele ainda é muuuuuito melhor do que o que vivemos hoje. Parabéns a todos nós e dá-lhe pressão até terça-feira! Após a votação (que poderá ser acompanhada pela TV Câmara, ao vivo) eu vou divulgar aqui a lista dos que votaram contra e dos que votaram a favor. Combinadas? 

Segue a programação para os panelaços do fim-de-semana (melhor que cineminha, galera!)

30 de abril – sexta-feira

RIO GRANDE DO SUL

Dom Pedrito  –  Caminhada e panelaço com concentração no calçadão da Praça General Osório. Das 10h30 às 16h30. Com plantio de árvores. 

SÃO PAULO

Analândia – Caravana “Todos Contra a Corrupção” e Audiência Pública na Avenida Hum, 264,  Centro  (Próximo à Câmara Municipal) às 19h.

1º de maio – sábado

SÃO PAULO

Ribeirão Bonito – Coleta de assinatiuras no estacionamento da Amarribo  e plantio de árvores na Rua São Paulo. A ação também acontecerá no dia 2 de maio.

2 de maio – domingo
 

PARÁ
Belém – Passeata na Praça da República. Concentração em frente ao Teatro da Paz às 8h30. 
 
RIO DE JANEIRO
Rio de Janeiro –

– Passeata com concentração da Praia de Ipanema, Posto 9, a partir das 9h30.

– Manifestação na orla de Ipanema e Leblon. Concentração no Arpoador às 9h30. Organização da associação de educação ambiental, Energy Marcon.
 
SÃO PAULO
Sao Paulo  –  Caminhada e coleta de assinaturas no Parque do Ibirapuera  – Praça do Porquinho (entrada pela Av. IV Centenário, próximo ao portão 6) a partir das 10h.

Aguas da Prata – Música, plantio de árvores, coleta de assinaturas  e exposição de cartazes. das 10h às 18h, no calçadão do Bosque Municipal.

4 de maio

Improvisação de um grupo de teatro de rua, sob a coordenação da Avaaz, às 16h no gramado em frente ao Congresso Nacional.

Os organizadores pedem que levem materiais de limpeza, baldes, vassouras e espanadores para a “faxina” simbólica do Congresso Nacional.

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bebês que fazem birra, trabalham no metrô e engolem moedas

O sonho começa assim: eu na fila do guichê do metrô , conversando com uma senhora qualquer sobre o quanto Noah andava birrento, que as birras são mesmo um inferno, que o mais irritante a respeito das birras é essa coisa de jogar a cabeça pra trás e gritar.

(Abre parênteses pra explicar que pela manhã eu lembrei que a tal mulher do sonho era nada menos que a bibliotecária italiana que me emprestava livros em Londres.  Bibliotecária-Italiana-Londres-Metrô-Rio de Janeiro. Tu-doa-ver.)

A fila anda e quando chega minha vez de comprar o bilhete, quem é o atendente? Noah. Sim. Meu filho, Noah. Não uma versão crescida dele mesmo, mas Noah de agora, Noah, 18 meses Noah. Sentadinho, vendendo bilhetes de metrô.

Antes que eu me manifeste, ele vira pra mim e diz:

– Mãe. Pensa comigo. Eu engatinhei cedo, eu andei cedo. Porque diabos você imaginava que eu fosse esperar fazer 2 anos pra começar a fazer birra?

E então ele começa a jogar dinheiro pra cima e a freneticamente engolir moedas.

Fim do sonho.

Interpretações?

hoje é aniversário do cara mais legal do mundo

E o cara mais legal do mundo é o teu pai, veja que golpe de sorte.

Eu acho meio injusto isso da gente não ter memória dos nossos primeiros anos de vida.

Porque se a gente tivesse, cria minha, você ia lembrar que esse cara, o teu pai…

…já te trocou cerca de 2.673 fraldas;

…te deu mais de 422 banhos;

…215 massagens de shantala;

…foram 12.476 beijos;

… 23.514 abraços;

…927 horas em claro;

…11.715 minutos de preocupação;

…e infinitas horas te olhando e te amando incondicionalmente.

Você é muito novinho e não vai lembrar disso disso, filhote, e é por isso que eu faço questão de fazer das minhas as suas palavras e desejar um feliz aniversário pro melhor pai do mundo – o seu!

( agora, cá pra nós – você troca 2.673 fraldas em um ano e meio de vida e o cara só vai começar a lembrar da sua pessoa a partir dos 4/5 anos de idade. Isso que a mãe natureza é mãe – imagine se fosse madrasta.)

***

Por absoluta falta de tempo  (e uma certa dose de cara de pau) segue o vídeo feito no último dia dos pais, com imagens de papai e bebê, dos zero aos oito meses de idade.

Feliz Aniversário. Te amamos muito, sempre.

Sanguenozóio e Mão na Barriga

E a Campanha Sanguenozóio segue bombando! Mais de uma centena de mães zóientas já clicaram no site do AVAAZ, só aqui no blog! Iupi!

Isso sem contar as que votaram através dos blogs de outras mamãs porretas, como o Tirando o Sapato, Sentada na Pia, Se for assim, tá bom!, Nicolando por aí, Pequeno Guia Prático para Mães Sem Prática, O Astronauta , Mamãe tá Ocupada, Para Mariana ,Minha Pequena Isis, Braços de Polvo e Coração de Manteiga e Mãe de Primeira Viagem.

(uia, me fala se esqueci de alguém?)

Daí você pode tanto fazer uma leitura negativa, dizendo “Mas só uma centena? Das mil pessoas que leram o post, somente uma centena resolveu perder 1 minuto e assinar?”

OU você pode ser Poliana (igualzinha a esta que vos escreve) e  pensar “Uau…mas isso é incrível! Quem segura essa mulherada com sanguenozóio, hein??!”

Porque o meu sonho é ver um deputado corrupto acordando mais preocupado, com mais rugas e uma gastrite de stress. Hoje eles têm preocupação ZERO, concordam? Político ladrão nesse país tem um vidão, dorme tranquilo e não tem úlcera nem olheira porque, em geral, conseguem fazer o que bem querem, da maneira que querem. E a gente só assistindo, em modo pause, inerte de pai e mãe.

Mais do que as assinaturas e a divulgação pelas blogueiras companheiras (ui, adoro quando rima) o que conseguimos aqui foi a certeza de que dá pra fazer alguma coisa, sim. Passinhos lentos, mas a gente chega lá.

A partir de hoje este blog está a disposição de toda e qualquer mãe (e pai, né!) que queira bater panela. Precisa de mais assinaturas para aquela carta que você quer mandar pra prefeitura, reclamando da falta de espaço pra crianças? Pode contar com a minha assinatura e com esse blog para a divulgação. Quer dar uma idéia inovadora? Mandar um email pra imprensa? Reclamar? Chorar? Colocar os peitos pra fora

Também em relação a empresas privadas: Conhece alguma empresa que ganhe muuuuuuito dinheiro com a existência de bebês e crianças (Pampers, por exemplo?) e que desempenhe bem seu papel de responsabilidade social? Já viu alguma plaquinha em um parque da sua cidade, que diga “Johnson & Johnson preserva esse parque”? 

Porque eu procuro e procuro e tudo que vejo são empresas que lucram bilhões com o cocô (de rosas) dos nossos bebês e pouco fazem. Nunca vi um parquinho com o chão emborrachado e a plaquinha  “Nestle cuida de você” (adoro! adoro!)

Enfim, pessoal. Tenho dito.

****

Mudando totalmente de assunto. Fui revelar umas fotos e tinha essa moça grávida, bem grávida, do meu ladinho.

– Ficaram lindas as ampliações! – ela disse, me mostrando as fotos (porque gente que eu não conheço geralmente me adora, tá? pena que não posso dizer o mesmo dos que me conhecem…)

As fotos eram bonitas mesmo: ela e o marido passeando na praia (mão na barriga), os dois com uma montanha bonita atrás (mão na barriga) e uma especialmente bacana: ela e o marido em um veleiro (mão na barriga, of course).

– Tá linda essa no barco. Minha preferida – eu falei.

– Ai, também adorei, a gente A-MA o nosso veleiro. Assim que o pequeno nascer vamos levá-lo pra velejar!

Pensei:  Ai, judiação, ela é mãe de primeira viagem.

***

Porque grávida é a coisa mais linda desse mundo e tals, mas também é o último ser humano a saber o que oficialmente lhe espera, concorda?

Eu – que não sou de estragar barato de ninguém – é que não vou chegar pra moça e dizer “Olha só, eu sei que não está no manual mas você vai ter que cortar a unha desse bebê, tá? E essa não é uma tarefa fácil, fofa, você pode inclusive acabar cortando um naquinho (do dedo)”

Ai, ninguém merece tanta sinceridade.

***

Daí eu lembrei desse post, escrito quando Noah tinha uns 5/6 meses, “sobre as coisas que você não sabia antes de ser mãe”  e dedico esse trecho as grávidas de 1a. viagem, lindas, com seus cabelos esvoaçantes e suas fotos mão no barrigón.

Muito bem. Sobre o pós-parto:

– Eu pensei que fosse só comigo, mas depois ouvi de um montão de outras mulheres: parir dá um barato esquisitíssimo, você fica elétrica pelos primeiros 5 dias depois do parto. Parece que tomou um chá daqueles que monge não toma. Alucinada, você aponta pra própria barriga e ri que se acaba; puxa o cabelo do nenê e se esconde ; pisca pro zelador do prédio. Fora da casinha total.

– Passados os 5 dias de  euforia, bate a deprê. Eu lembro de olhar pro nada e dizer chorando “meu bebê acordou”…E depois chorar de soluçar, repetindo  ”ele dormiu, meu bebê dormiu”.  Uma Amy Winehouse de sutian beige.

– No primeiro mês você vai fazer tudo pela metade: lavar só metade do cabelo, comer metade do prato, fazer meio xixi. Parece que você nunca mais terá tempo pra fazer nada. E aliás esse é um dos mistérios da maternidade: se aquela criaturinha que recem nasceu dorme cerca de 15, EU DISSE 15 horas por dia, como é que, AINDA ASSIM, você desenvolve uma prisão de ventre crônica sob o pretexto de não ter tempo de ir ao banheiro? Tem dó.

– Os três primeiros meses são difíceis, mas eles passam voando e você vai até sentir falta deles. Apesar de que…não, acho que não.

– Você está fadada a rever todos os seus conceitos, opiniões e teimosias. Nada daquilo que acreditava tão firmemente é tão verdade que não possa ser substituído por outra verdade, que não a sua. Relaxa, aceita, respira. Quando se está grávida, é fácil acreditar que o bebê vai mamar de 3 em 3 horas, dormir de 4 em 4 e que você vai parar de trabalhar  por anos, só pra ficar com ele.  Mas daí ele nasce. E as coisas complicam. E daí, minha irmã, melhor aceitar que nem tudo será da maneira que você esperava. E que crenças pré nascimento são como promessas de fim de ano: they ain’t gonna happen, darling.

– Você vai rir com o riso e chorar com a tosse.

– Vai se descabelar com a febre.

– Vai ligar pro pediatra com a fralda em mãos e dizer:

“Alô doutor, é que o cocô tá mais mostarda que o de costume…Que? O senhor tá jantando?” ;

– Vai se acabar de chorar ao ver tragédias do mundo na tv.

– Vai descobrir que consegue sobreviver dormindo 5 horas por noite; 

– Que não existe outro ser com o cheiro do seu neném. Com o sorriso do seu neném. Que não existe outro neném como o seu neném. E que ele geralmente é mais lindo e inteligente que todos os outros.

– Vai acreditar em todo aquele clichê de amor incondicional e morrer por alguem. Tudo verdade.

 Acima de tudo, vai descobrir que alguns momentos da vida, deveriam ser imortalizados…

primeiro dia das mães...

 

PS: Essa foto foi tirada no primeiro dia das mães.  Noah tinha 5 meses, começava a engatinhar mas ainda era relativamente comportado e calmo. Tenho certeza que, na época, alguma mãe de uma criança de 2 anos deve ter olhado essa foto e pensado:

– Ai, judiação, é mãe de primeira viagem. Deixa esse bebê fazer 1 ano e começar a correr por tudo, pra ver se ela mantem essa pose romântica de último capítulo de novela. Deixa ela.

Panelaço Descontrol

Queridas mamãs, papás, titios, titias, simpatizantes e os nada-disso-muito-pelo-contrário. Hoje o assunto é sério (ai, era meu sonho dizer isso um dia?)

Está tramitando no Congresso Nacional  o Projeto de Lei no. 518/09, carinhosamente chamada de  Lei Ficha Limpa.

Se aprovada a lei vai mudar os critérios de “ineligibilidade” nesse país. Olha que espetáculo!

1. Ih…mas dá pra explicar melhor?

Falando em bom e claro português: hoje, mesmo pessoas que respondem por crimes gravíssimos, tipo homicídio, tráfico de drogas, violência sexual e – ói como são espertinhos – DESVIO DE DINHEIRO PUBLICO podem ser CANDIDATOS! Pessoal, juro por deus – a bandidagem toda pode se candidatar.  A Lei Ficha Limpa quer tornar ineligíveis suspeitos (e não apenas condenados) de crimes graves.

2. E de onde veio esse tal de Projeto de Lei Ficha Limpa? Da onde saiu esse troço!?

A Lei é de iniciativa popular, sou eu, você e ele mudando o Brasil!  Suuuper Geraldo Vandré! Aposto que você não sabia disso, mas a Constituição diz que qualquer cidadão brasileiro pode propor novas leis. Minha vida inteira mudou depois que fiquei sabendo disso (hoje).

3. Ai, ai, até parece que isso vai dar em algum lugar, nunca deu…

Daí é que você se engana, rá!  Quer ver? Em 1999 uma outra lei de iniciativa popular possibilitou a cassação de, até o momento, mais de mil políticos por compra de votos e outras senvergonhices! Se foi possível em 1999, será possível agora, gente bonita!

4. Ah, tá. Então, resumindo…

O que se quer com a nova lei é melhorar o perfil do candidato. Ninguém mais aguenta Coronel, pessoal! Tem que filtrar! Se o sujeito já está sendo acusado de corrupção ou homicídio, o que diabos ele quer fazer em Brasília? E com o nosso dinheiro?

5. E o que que eu ganho com isso?

Um país melhor? Mais justo? A certeza de que o dinheiro vá parar onde deveria parar. Nos hospitais, por exemplo. Nas estradas, pra que nossas pessoas queridas não integrem essa vergonhosa estatísica de 100 óbitos/dia. Nas escolas, nas escolas, nas escolas. 

6. Gostei! Gostei! O que que eu faço?

Divulga, espalha, fofoca!

Para assinar e fazer parte da campanha visite o site da ONG mundial AVAAZ.  Leva 30 segundos, juro!

Para maiores informações visite a página do Movimento de Combate a Corrupção Eleitoral

E veja a matéria do Estadão.

E para inspirar outras mães leoas, segue a clássica resposta de nossa amiga Mari, quando eu perguntei se ela gostaria de fazer parte de uma blogagem meio politiquenta:

“Menina, tô ficando com sangue nos zóio. Daqui pro panelaço descontrol é um pulinho.”

Mãe Com Sangue no Zói – eu, por mim, mando fazer camiseta.

O Parto de Paulo Maluf

Daí você engravida, enjoa, engorda, anda feito pinguim, passa por aquele perrengue todo do nono mês e quando vai parir – me nasce o Paulo Maluf.

Ontem, na fila do banco, esse pensamento não me saía da cabeça.

Difícil de acreditar, mas Maluf já foi bebê. Paulo Maluf, pessoa do mal, cidadão caçado pela Interpol pelo desvio de milhões e milhões de reais dos bolsos dos paulistanos, já foi um recém-nascido cuti-cuti, de gengiva desdentada e perninha torta.

A mãe de Maluf teve contrações dolorosas, passou horas em trabalho de parto e andou feito zumbi durante meses, já que Malufinho gostava de mamar de madrugada. E tudo isso pra que? Pra ele crescer e desviar 600 milhões de reais pra conta dele na Suíça e enriquecer as custas de quem trabalha duro.

Também já foram bebês de colo  José Sarney e  Jader Barbalho.  Os anões da previdência já foram anões bebês e cabiam dentro de um cueiro. E antes de roubar e desviar os tubos do erário público Garotinho já foi, na verdade,  Bebezinho.

Até o falecido ACM  já teve o cordãozinho umbilical cortado, fez cocô de mecônio e mamava, feliz da vida, nos peitones da mamãe (dele).

***

Como a fila do banco não andava eu continuei divagando: quando trazemos uma nova pessoinha no mundo, esperamos de coração que ele faça o bem e seja feliz, certo?

Acho que nenhuma mãe e nenhum pai (em condições normais de temperatura e pressão) querem que o filho cresça para roubar dinheiro que deveria construir hospitais e salvar vidas.

Então você alimenta a criaturinha…

Noah - 1 dia

 

Respira a criaturinha…

Um mês e meio

 

Toma puxão de orelha…

11 meses...Ouch!

 

Dá um help com os primeiros passos…

10 meses

 

Serve (literalmente) de apoio…

1 ano

 

E você espera estar dando as ferramentas para que ele faça as escolhas certas, ou então, que assuma a responsabilidade pelas escolhas equivocadas. 

Você (pai/mãe/avó/quem cuida)  espera estar fazendo a coisa certa. Mesmo quando você abre a porta do quarto dele pela manhã, sente um cheiro amedrontador e percebe que ele aprendeu a abrir a fralda sozinho…

A cor é de chocolate. Mas o cheiro...

***

Bom, ficam dois recados pra você, filho:

1.  Espero que você continue assim, risonho e gente fina, alegre e carinhoso e que siga o caminho do bem, sempre. O mundo é meio esquisitão e muitas vezes injusto. Mas esse planeta é bacana e é o melhor lugar pra se viver (parece que Marte não vale muito a pena, não, viu filho). “Pratica todo o bem que tu puderes”, foi a frase escrita por Dona Marísia, sua avó, no meu “álbum de recordação” da infância.

(álbum de recordação é um troço que já não existe mais e que te mostra que a mamãe já tem praticamente a idade do planeta terra).

2. Fila de banco é ruim, mas pode render um bate-papo ou um tempinho pra você pensar em alguma coisa que nunca tinha pensado, tipo no Maluf mamando nos peitos da mamãe (dele). Isso significa que tudo tem um lado positivo (*), até fila de banco.

(*) verdade seja dita, mamãe nunca conseguiu achar um lado positivo em telefone ocupado,  fio de manga presa no dente e na aflição de pisar de meia no chão molhado.

das enchentes e da (brilhante) mente infantil

A casa onde morei até os 8 anos pegava enchente. Aliás, deixando os eufemismos de lado, a casa onde morei até meus 8 anos ficava era todinha embaixo d’água. Inteirinha submersa, só com a pontinha do telhado de fora, pra mostrar que ali tinha uma casa.

Sabe aquela menina que você via na TV, abanando da janela de casa, cercada de água por todos os lados? Aquela menina era eu! Verdade, pessoal. Aquela foi minha primeira (e última) gloriosa aparição no Jornal Nacional. Eram os anos 80 e Cid Moreira abria a matéria falando das terríveis enchentes do sul, das chuvas intermitentes e das doações aos desabrigados. E a matéria terminava com a imagem dessa menina banguela (eu!) na janela de casa, sorrindo e abanando.

Eu só não entendia como que uma coisa tão legal quanto aparecer na TV podia ser considerada uma “tragédia”, como eles cansavam de repetir nos noticiários.

– Tragédia, o quê? – eu pensava, no alto de minhas botas sete léguas.

***

Tirando festa de aniversário e feriado de 7 de setembro, enchente era a coisa mais legal do mundo pra mim. Primeiro porque não tinha aula. Segundo porque não tinha luz, e a casa (que já era enorme e mal assombrada) ficava ainda mais parecida com o esconderijo do drácula. 

E ainda tinha o fato de que, assim que a água começava a subir demais, minha mãe, descolada e corajosa que só ela, chamava o moço da canoa pra nos levar pra casa da vizinha da frente, que ficava num morro, onde uma enchente de até 18 metros não conseguia subir. Quando digo “nos levar” me refiro a mim e aos meus irmãos. Minha mãe ficava na nossa casa, sozinha, levando álbuns e documentos para o forro do telhado. “Que isso não tem preço”, ela costumava dizer.

Agora, pensa comigo. Passeio de canoa. Feriado. Velas ascesas. Todo mundo juntinho. Enchente pra mim era praticamente o Beto Carreiro World.

***

Fora todo esse lazer, enchentes ainda contavam com um fator que eu particularmente adorava: o racionamento de comida. Não que tenha nos faltado alguma coisa. Mas na minha cabeça a matemática rolava solta e lá ia eu pela cozinha, abrindo os armários e contabilizando:

– Temos 8 pães, 9 batatas, 12 bananas, 5 pacotes de macarrão e algum pouquinho de manteiga  e molho de tomate. Acho que podemos sobreviver uns 3 dias sem começarmos a sentir a fraqueza da desnutrição. Ufa.

***

Minha maior preocupação era ser separada de minha companheira e fiel escudeira, minha vizinha do lado, Andréa. Mas para que isso não acontecesse já havíamos acionado o moço da canoa que, meio contrariado, promovia o nosso encontro todas as manhãs. Levava uma, buscava a outra. Nem  minha mãe e nem a dela se opunham a esse mimo. Afinal, dessa maneira as duas se distraíam e brincavam o dia inteiro. Além do mais, tanto eu quanto a Andréa ameaçávamos fazer greve de fome se não pudéssemos nos encontrar durante a enchente. Era um pacto nosso.

Hoje em dia eu perdi contato com a companheira Andréa. Mas naqueles dias de enchente a gente não se desgrudava, fosse para contabilizar o estoque de comida (tudo que tinha na minha casa + tudo que tinha na casa dela, dividido pelos integrantes de ambas as famílias + o Totó, que era cachorro mas também precisava comer). Seja para bolar um plano de ação caso tivéssemos que fugir para arranjar mais comida. O que mostra que eu era ansiosa e cheia de T.O.C,  já naquela época.

Fora isso a gente brincava, a gente corria, jogava pedrinhas das janelas só pra ver pra onde a correnteza das águas as levavam. Temíamos pouco, talvez só as aranhas, que também queriam sobreviver, portanto escalavam as paredes das casas. Por isso minha mãe repetia incansavelmente:

– Sacode as botas antes de calçá-las, minha filha. Que pode ter uma aranha escondida ali dentro. Conheço alguém que morreu assim.

E minha mãe sempre conhece alguém que é primo de alguém que morreu de algum jeito. Acho que essa foi a maneira que ela encontrou de manter os 4 filhos longe do perigo. Como se isso fosse possível.

Voltando a checagem dos calçados: até hoje essa mania me persegue. Posso estar em Paris que dou uma olhadinha básica no fundo do sapato, pra ver se não se esconde ali algum aracnídeo, foragido de uma enchente qualquer.

***

Fora falta de energia e água, não tivemos maiores problemas com as chuvas que despencaram dos céus do Rio de Janeiro nesses dias. Foi uma menina, que vi ontem a noite na televisão, que me fez lembrar das enchentes da minha infância.

A menina fazia parte de uma família que perdeu tudo e que vivia uma tragédia sem par. A família inteira havia sido levada a um abrigo.

Quando perguntada sobre o que ela achava do abrigo, a pequena respondeu:

– Bom, aqui é legal… tem mais espaço pra brincar.

***

 E tem gente que se recusa a aprender com as crianças?

***

Não poderia deixar de dizer que as doações fizeram TODA a diferença nas enchentes que minha família encarou. Entre elas um casaco de ursinho que eu adorei, enviado por alguma “menina de São Paulo”.  Se alguém tiver mais informações sobre como doar, por favor divulgue. Eu vou lá preparar a minha sacolinha. Tenho certeza que ela vai parar em ótimas mãos.

***

Atualizando, se você quer doar, mas não sabe por onde começar (ui, até rimou)

– A Isadora, do Grãozinho de Areia, informa que o Mopi da Tijuca e da Barra está recebendo doações. Mais informações aqui.

– A Carla está recebendo doações em Laranjeiras. Para entrar em contato com ela é só mandar um email para carla.codeco@gmail.com

– O globo.com divulgou uma lista de locais que recebem doações no Rio de Janeiro. Ao todo, são dez unidades da Guarda Municipal:

Rua Afonso Cavalcanti, 455, em Cidade Nova 
Avenida Pedro II, 111, em
São Cristóvão 
Rua Bambina, 37, em
Botafogo 
Avenida Ayrton Senna, 2001, na
Barra da Tijuca 
Rua Armando Cruz, s/nº, em
Madureira 
Praça Barão da Taquara, 9, em
Jacarepaguá 
Rua Prof. Abelardo Lobo, s/nº, na
Lagoa 
Rua Biarritz, s/nº, em
Bangu 
Rua Conde de Bonfim, 267, na
Tijuca 
Rua Minas Gerais, 200, em
Campo Grande