das mães dementes, das freiras e dos açougueiros

Quando eu era pequena eu queria ser assistente de açougueiro. No açougue perto de casa tinha o açougueiro e tinha o assistente dele, Antônio (vamos chamá-lo assim).

 Na minha cabeça, Antônio tinha a profissão mais legal do mundo e eu invejava cada minuto em que ele tinha a chance de colocar as mãos naquela carne geladinha, depois embrulhá-la num plástico fininnho, para logo depois embrulhá-la novamente num daqueles papéis vermelho-pardo.

Eu era da altura do balcão mas ficava na ponta dos pés e espichava os olhos curiosos de modo que conseguia enxergar aquele, que era pra mim,  o momento mais legal da profissão: Antônio sacava a bic de trás da orelha, jogava a bichinha pra cima, a caneta rodopiava e caia na mão dele, já na posição correta pra escrever. Daí era só escrever cento-e-vinte-cruzeiros no tal  papel pardo e entregar a carne ao freguês.

– Não, mãe, eu nunca vou mudar de idéia: quando eu crescer vou ser assistente de açougueiro e pronto.

***

Passado algum tempo, o encanto terminou e eu decidi que queria ser freira. Daí me disseram que como freira eu não poderia casar, e o meu desejo de ser freira quadruplicou. Perfeito, pensei.

Até que alguém do meu colégio (de freira) me contou que as freiras viviam a vida inteira no mesmo lugar. Nunca mudavam. E que, depois de mortas, eram enterradas bem ali, no cemitério atrás da escola. Que diga-se de passagem era bem mal assombrado.

Eu adorava a minha escola, mas a idéia de passar a vida inteira (e até a morte inteira!) ali, no mesmo lugar, me desanimou um pouco. Então eu pedi perdão a Jesus Cristo e mudei de idéia.

***

 Um dia eu descobri que a cobradora do banheiro do parque de diverões tinha sua própria carteira (escolar, aquelas de madeira) modelo abre-fecha. A carteira abre-fecha era a carteira dos meus sonhos e que ironicamente nunca foi minha. A carteira escolar abre-fecha tinha um tampo que abria, para que o aluno pudesse ali guardar seus livros de escola.

Pois não é que a cobradora do banheiro do parque de diversões guardava o dinheiro que recebia dentro de uma carteira escolar abre-fecha como aquela? Lembro como se fosse hoje: fiquei do ladinho dela e até ajudei a cobrar os “clientes”. Tem que ficar de olho, dizia ela, tem gente que quer mijar mas não quer pagar. Eu fiz que sim com a cabeça. Mas no fundo eu sabia que não ia gostar de trabalhar num lugar que só deixava a pessoa fazer xixi se ela  tivesse dinheiro.

Eu mesma, no auge dos meus 6 anos de idade, já tinha feito muito xixi na vida sem um puto no bolso. Acho que isso de cobrar de gente apertada não é pra mim, pensei.  E fui embora, sem olhar pra trás.

***

Dali pra frente já quis trabalhar na ONU, já quis ser bombeira e mulher de negócios (abre parêntese pra dizer que eu assinava  meus cheques de mentirinha com o nome Suelen Heiwort, nome este, que, na época, me remetia a uma importante mulher de negócios). 

E no final das contas acabei não sendo nada daquilo, mas sendo sempre um pouco de tudo o que eu queria ser: pura sorte e cara de pau, minha mãe sempre diz.

Tá. Mas não foi pra isso que eu vim aqui.

***

Entendam, eu sou uma adoradora profissional de escolas. Não, não me refiro ao mundo acadêmico e suas universidades inspiradoras de gente.

 Me refiro a escola, aquela que seu filho frequenta, com cheiro de suco e suor. Depois que Noah passou a frequentar a escola, então, aquele lugar virou um templo pra mim. E já que agora moramos pertinho da escola, vez em quando me dou ao luxo de passar por ela. E lá está ele: o cheiro de suco e suor infantil (que é bem diferente do seu cheiro, ô marmanjo!). 

Toda mãe sensata sofre um pouco na adaptação escolar. Eu até finjo que sofri, mas ao contrário: tinha até uma invejinha do meu filho (alô, seu terapeuta!) que ia ficar ali brincando com o tal do lúdico, com seus lenços coloridos e plantações de batata e peixes no aquário e tals. Enquanto eu tinha que voltar pro mundo adulto, onde te cobram pra mijar  e onde Suelen Heiwort não é bem uma moça de negócios.

***

Ai, enfim. Daí que mãe assim é uma praga pra escola em si, concorda? Que a pessoa vai pra deixar o filho e ir embora, essa é a idéia. Pois eu sempre fico um pouco mais. Noah nem me vê, mas eu estou ali: troco idéia com o porteiro, vou até a cozinha dar hello as cozinheiras, experimento o plat du jour, entro na fila do bebedouro e por aí vai.

E mãe assim desenvolve uma inveja nociva para com aquela pobre moça, a nutricionista da escola, que não só se dá ao luxo de dar uma espiada na filhota dela o tempo todo, como trabalha NA escola. Ela não passa por toda a ciumeira, saudade e curiosidade de saber o que eles fazem, como retratou a Roberta aqui.

E eu pergunto: isso é um mundo justo, dona nutricionista? 
***

Daí nasce o problema: eu gosto muito do que faço, muito mesmo pois ganho para vender coisas legais e úteis a gente bacana, com quem bato papos fenomenais diariamente. O que no fundo é o que eu sempre gostei de fazer. Por sinal, gentes, obrigada, sempre.

Mas quero fazer o que faço DEN-TRO da escola, será que é possível?

***

Anyways, sonhar não custa nada. Enquanto não me permitem passar mais horas lá dentro, seja como consultora de moda ou astróloga infantil (idéia! idéia!), o negócio é ir quando dá. Meu conselho para quem quer participar mais do dia-a-dia na escola do filhote é:

– Vá as reuniões pedagógica, todas.

– Durante a reunião pedagógica sente na primeira fileira, faça perguntas, levante a mão, sirva café. 

– Se a escola do seu filho, como a do Noah, preza as cantigas de roda saia assoviando “samba samba samba lelê” pelos corredores.

***

E se ainda assim você sentir que está longe, muito longe desse mundo delicioso de suco e  suor, então convença a diretora a deixá-la trazer seu lap top e trabalhar no pátio da escola. Não será fácil, mas argumentos não faltam:

– Diretora, eu entendo que seja uma escola que segue a idéia construtivista, mas ainda assim é imprescindível ,nos dias de hoje, que as crianças assistam de perto como funciona o capitalismo desenfreado. Eu vou sentar aqui, pode fazer de conta que eu não existo. Beijão.

– Diretora, eu estive conversando com um hindu sábio pacas e ele  me disse que eu teria que passar grande parte do dia aqui, nesta casa. Alguma coisa a ver com energias pendentes de vidas passadas, entende?  Mas não quero incomodar, pode deixar que eu sei o caminho do cafezinho. Beijão.

Se ela for mãe ela vai entender.

(mas vai entender bem mais se for psiquiatra)

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26 Respostas para “das mães dementes, das freiras e dos açougueiros

  1. Rô, vc é o meu EU carioca que eu perdi no Rio em 1996 e achei agora na blogosfera. [Eu fui muito feliz no Rio em 1996, por isso a data]!
    Ano passado, pedi demissão de um emprego chato para viver de frila e, nos meus planos mirabolantes, fazer qualquer coisa na escola. Invejando a psicóloga da escola, que vê suas duas filhas em atividade diariamente (a nutricionista não tem filhos), eu bolei um projeto de comunicação super bacana e a escola nunca aceitou (e não tem nem site até hoje, veja só…). Como moro perto da escola, já me imaginava lá, commeu lap top, fazendo a comunicação interna e externa. Mas eles não aceitaram (humpf!), não vão contratam ninguém tão cedo e eu acabei arrumando outro emprego. Mas meu sonho não acabou. No mais, não falto a nenhum evento escolar, vivo querendo fazer algo lá dentro e levo a escola (leia-se professor de música) até para as festas da Ciça. Aliás, ele garantiu parte do sucesso da festa de 3 anos!
    Beijos

  2. Vacilou, Rô. Devia ter virado freira. Assim você ia viver, morrer e passar a eternidade na escola. Mas aí não ia ter o Noah, né? Enfim, não dá pra ter tudo…

  3. Ah, e quanto a trabalhar no açougue: eco!!

  4. ahuahuauha
    De mãe e louco todo mundo tem um pouco….

    ah, eu tive essa carteira escolar!! Acho até que tem uma foto na casa da minha mãe!! ahahahaha

    Beijo grande!

  5. Olá!! kkkk..tô aqui me rachando de rir..menina,não é que tb viajava sendo uma “mulher de negocios’??? ficava assinado cheques,mil papeis,falando ao mesmo tmepo no telefone e “datilografando”,pq naquela epoca nem sei se tinha computador, o que dirá “netbook”..huahauhaua..
    mas convenhamos:assistente de açougueiro??ieca!!! kkkkkk….
    😉

  6. hahahaahahhahahahaa
    eu achei que era a única apta a ser avaliada por psiquiatra, mas não estou sozinha!!

    óbvio que eu já pensei coisas doidas parecidas e tb ficava assinando mil cheques e brincando com os cartões vencidos da C&A da minha mãe, hehehehe

    agora, sobre a doideira de se envolver na escola do filho… te conto: não tenho filho, né, mas arrumei de me envolver com uma escola só pq adoro a “causa”. Fiz projeto de comunicação, assessoria e logomarca pra uma escola sem cobrar nada, só pra participar, hahahaha. E a logo eles usam até hoje, tá? Eu só parei de trabalhar com eles porque vim morar em outro país, mas super me comovo também!

    Atóron um cheirinho de suco e suor tb!

    beijão!
    Carol

  7. HAHAHAHA Identificação total!

    Também fico inventando em minha louca cabeça mil e um motivos para me enfiar na escola de Pitoco, sou louca por colégios desde pequena e, antes de matricular meu pequeno, visitei montes delas, mesmo já tendo escolhido a primeira que vi, só pelo prazer de espiar o ambiente e fazer consertos nele dentro de minha mente doentia. Ficava me imaginando como dona daquela escola, consertando tudo, dando altos pitacos no planejamento pedagógico das professoras. Vc acredita que eu compro revistas destinadas a professores? Esta semana até emprestei algumas para a coordenadora pedagógica de Pitos. Ela chegou a me perguntar se eu trabalhava com educação, meus olhos brilharam, meu coração pulou forte, mas disse a verdade. Disse que era apenas uma mãe louca por educação, e ela, compreensiva, me mostrou um cantinho da sala dela com pilhas e mais pilhas de revistas sobre educação e disse que eu pdoeria vasculhar quanto quisesse. Ahhhhhh!!!!! Enlouqueço!!!!

    Quanto a visitas, faço também, fico espiando de longe, lavo a beiça no bebedouro como vc, vejo se os brinquedos estão limpos, procuro fontes de perigo para alertar o dono, vou a qualquer reunião e puxo papo com TODOS os funcionários.

    Crazy moms!

  8. Como neutralizar as energias negativas para com a nutricionista??? hohoho

    Diretora….beijão!

    hahahahahahahah

  9. Engraçado como quem trabalha na escola não vê toda essa maravilha…rs. É bacana sim, claro, mas também tem seus perrengues. Levar a cria junto é muito bom, claro, mas não dá pra espiar o tempo todo. Todo caso, é melhor que deixar numa outra escola pela manhã e pegar no final do dia…rs. Tenta implorar pra diretora, finge que desmaia, quem sabe ela fica com dó… hihihi. Beijo.

  10. Ro, adorei o post super alto astral e confesso que sinto saudade da época em que ia amamentar a Laura no meu horário de almoço e fica ouvindo as conversas das crianças que seguiam no pátio para a hora da soneca. Depois, enquanto punha a pequena para arrotar, fica espiando da janela da salinha de amamentação aquele monte de crianças dormindo tranquilas no tatame, enquanto uma professora tocava violão baixinho e cantava para elas… aaaaaah, que saudade!!!!

  11. fofa, tem um pouco dessa criatividade toda pra emprestar?? tá faltando aqui… rá!
    não creio nos limites dessa sua mente loucaaaaaaaaaa, me acabo nesses posts!!
    agora, vim aqui pra falar de outra coisa: dona suelen sei lá das quantas, tô me sentindo excluída desse seu capitalista mundo de negócios. Acontece que mandei duas (ou mais) msgs pelo minha mãe que disse, todas voltaram, e não recebi nenhuma resposta. A senhora pode me explicar, hein, hein???? Será que a banda larga da escola não tá dando conta do recado??
    (rsrs>>> brincadeirinha. Mas a parte das msgs que voltaram é real. Será que foi algum pau aí, ou aqui???)
    beijocas
    tha

  12. oooooooooops…
    dona suélen, não tinha visto o recado no post anterior. foi mal, viu. tô mandando os emeios de novo. agradecida, beijo-tchau.

  13. Rô, realmente acontece algo inexplicável com a sua mente que só a psicologia explica. Adooooro. Queria ter metade da sua cabeça criativa.
    Beijos

  14. Rô,
    sem palavras. Delícia de post que eu ainda não tinha visto. Boa sorte nas profissões adaptáveis à escolinha do Noah. Acho que o MInha mãe que disse podia abrir uma barraquinha por lá. Sucesso garantido, com certeza. E crianças com cheirinho de suor (costumo dizer com cheiro de galinha) pero muitíssimo bem vestidas.
    beijos

  15. Eu AMO os seus posts! Vc não existe!
    Sabe que esta de enrolar carne no plástico eu tb sempre gostei!! heheh! Mas nunca pensei nisto como profissão, agora trabalhar em escola de criança é um sonho! Quem sabe hen?!! Bjs

  16. hahahaha. Já vi mãe participativa, mas de levar laptop pra trabalhar no páteo, nunca! Adorei. Eu já quase cheguei lá, mas hoje me contento em palpitar. Sobre tudo. Com as professoras inclusive.
    E coordenadora, diretora, porteiro, secretária, caixa do supermercado e balconista da padaria. Um beijão!

  17. hahahahhaha
    eu, sinceramente, adoro-amo-preciso, dessas 3,5 horinhas matinais que o filhote está na escolinha, e apesar de que ter certeza de que a maternidade trouxe mudanças vocacionais definitivas na minha vida… não sonho em trabalhar na escolinha do João…. Mas volto aqui pra comentar esse post em setembro, quando ele vai pra “escola dos grandes” e terá que ficar to-do o dia!
    E juro que está nevando em Barcelona (?) em pleno março, e adoraria receber vocês aqui na nossa casinha, mas isso não é novidade, né?

    bjs

  18. Acho que quem já tem a vontade de fazer a diferença (começando pelo açougue ou convento…rs), depois que tem filhos, quer fazer a diferença no mundo, começando pela escolinha… eu vivo neste dilema de querer fazer algo, como meu filhote ainda não foi pra escola, fico querendo fazer todo mundo pensar no futuro, reciclar, economizar água, o básico… mas gostaria muito de começar a fazer algo efetivo pelo mundinho que vou deixar para meus filhos… quem sabe comece pela escolinha do meu filho? rs bjs seu senso de humor é uma delícia…

  19. Hahaha… senti que tem alguma coisa a ver com nossa conversa rápida na escada da escola! Eu queria ser comissária (na época aero moça) e ainda outro dia me deliciei quando a Sofia fez amizade com a chefe de cabine! Então te entendo perfeitamente!! Vamos encontrar um trabalho voluntário legal para você fazer lá!?
    Beijocas!

  20. Que tal um blog da escola??

  21. Rô, não comentei esse seu post porque vou falar dele lá no meu blog. Menina…super me identifiquei com a situação…ai…graças a Deus sou normal…ou será que não…
    Beijo!
    Dani

  22. Ai, Suelen, meu bem… já tô vendo tudo quando chegar minha vez de ver o Nic numa escolinha… Mas vou ficar tão mais tranquila (ou não,dada a sua experiencia!), se for uma tao legal quanto a do Noah.

    Beijos!!!

  23. Ah sim, de medico e louco todo mundo tem um pouco, mas mae tem muito!

    Minha estrategia eh participar de todos os comites possiveis onde ha vagas para pais. To no comite de pesquisa, de apreciacao dos funcionarios, de levantar fundos, tem um comite dando sopa eu to la….obviamente aproveitando para espiar, cheirar e rir das conversas que acontecem no nivel do joelho…

    bjinhos paranoides, psicoticos=maternais,
    Keiko

  24. Olá!!!! Acompanho seu blog já a algum tempo, quando descobri que estava grávida e simplesmente: ADORO!!! Fizemos umas comprinhas tambem no minhamaequedisse. AMEI!!!
    beijos

  25. Rô a Gisele Bundchen anda te imitando fazendo blogs de mãe. Achei o fim da picada… 😉 Saudades!

  26. Pingback: hambúrguer de pombo e… bye bye brasil! | Piscar de Olhos

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