é tudo bili-bili

– Roberta, mas você fechou o olho o tempo todo! Perdeu as partes mais legais do filme, maó bobona você.

– Ai, Kátia, me deixa! Credo, eu não gosto das cenas de sangue. Sei que é tudo bili-bili mas mesmo assim dá um medo…

– Que é isso, bili-bili?

– Ah, deixa pra lá, vai. 

(diálogo entre as meninas Kátia e Roberta, na saída do cinema, após exibição de “A volta dos mortos vivos”.  Brasil, anos 80, mascando chicletes mini)

chicletes mini

Bili-bili foi um termo – até onde eu sei – inventado pelo meu pai. Não sei da onde ele tirou ou com quem aprendeu e nem tenho a pretensão de acreditar que se trata de estrangerismo adotado por papai. Apesar de admitir que cheguei a mentir a respeito do tema, por insistência da menina Ana Felipa.

Roberta :  Não, meu pai não inventou bili-bili, tá, Ana?  Essa palavra já existia.

Ana Felipa: Ai, nem existia, Roberta, foi teu pai que inventou, admite tá bom?

R: Existe sim, é palavra americana, burra! Tipo “billy-billy”, que significa “de mentirinha”. Nos Estados Unidos o pessoal fala di-re-to, tá Ana?

Bili-bili era prenúncio de cena forte ou imprópria, porém “de mentira”.  Meu pai tinha um timing excelente para a coisa.

– Filha, agora não tenha medo e não te assusta, que a seguir vem uma cena onde tudo é bili-bili.

Pra mim essa era a hora de fechar os olhos e me concentrar no mantra “é tudo catchup, é tudo catchup, o sangue é catchup, o sangue é bili-bili”.

Os anos passaram e o bili-bili, de certa forma, sempre me acompanhou.

Por exemplo, sujeito de 15 anos de idade me pedia em namoro e me jurava amor eterno –   bili-bili. Chefe me prometia aumento – bili-bili. Em filmes de terror, até hoje me pego pensando- Deixa de ser ridícula, essa mulher não vai morrer de verdade, ela é uma atriz, é bili-bili. Trouxa é tu que é ainda por cima mal paga.

Quanto mais velha – mais cética, e,  portanto, maior o bili-bili. Governador corrupto foi preso? Não comemora muito ,não, que essa porra é bili-bili. Como também é bili-bili que o prefeito vá ler minha carta. Respondê-la, então – bilibilibilibilibilibili.

E também tem a pessoa-bili-bili, um tipo de gente que simplesmente não parece ser de verdade, posto que perfeita demais, compreende? Angelina e Brad, por exemplo – Bili-bili. 

Perfeito demais, barato demais, fácil demais? Bili-bili.

E há também os ricos demais. O último que presenciei foi na (loja de departamento) Harrods, em Londres:  o bem vestido cliente comprava um broche abarrotado de diamantes para a filha de 8 anos. O broche tinha o formato de um cavalo e o tamanho de uma ameixa preta.  Alonguei os ouvidos e escutei a justificativa que ele dava a vendedora:

– é que no sábado minha filha montará a cavalo pela primeira vez…esse broche é uma lembrancinha, para que ela nunca esqueça da data.

 Tipo, eu ganhei um copo d’agua depois de montar a primeira vez. Isso e uma dor  alucinante nas nádegas.

Nesta categoria too rich to be true se incluem todos aqueles que vivem distantes da realidade da pessoa física que vos escreve. Os que possuem avião próprio, por exemplo – irritantes e bili bili de pai e mãe.

Enfim. E eu cheguei até aqui sem saber porque raios resolvi lembrar do bili-bili de meu pai. Foco, Roberta, foco. Ah. Já sei. Talvez tenha sido pelo ocorrido no carnaval. 

Eis que a pessoa se organiza com a família, de modo a passar aqueles dias encalorados de festa profana em país com temperatura mais apropriada e entretenimento menos carnal.

Foi mais ou menos assim, minha gente pé no chão: passagem comprada, vôo confirmado e Noah adoece, febre e muito catarro (glamour?). Catarro esse instalado principalmente no ouvido, o que provocaria uma dor sem parâmetros, coitadinho, durante o vôo. Então decidimos poupá-lo dessa dor. Havia também algum catarro nos pulmões e a tal da febre, quadro esse que certamente não melhoraria com a chegada aos -7 de temperatura.

Adiamos a viagem (e essa não foi a primeira vez) e constatamos o que já sabíamos: com criança a vida fica mais gostosa, tem mais aventuras e é infinitamente mais cheia de amor. Mas vida com criança também é ridiculamente imprevisível: um segundo lá estão vocês de malas prontas, presentes comprados, família ansiosamente esperando e, piscou o olho, lá estão vocês, na emergência do Copa D’or.

E minha cunhada nos esperando com tudo organizado e pronto e lindo e fofo.. Très, très désolé, Isa! Pena, mas prioridades são prioridades, e Noah é definitivamente o number one, sempre. E não existe paris, ótimos vinhos, excelente comida, clima romântico, jantar com a família reunida, sogros cuidando do pequeno enquanto os pais constatam que la vie é mesmo bela pra cacete etc etc etc que seja mais importante que a saúde e o bem estar do nosso filhote.

(mas que sair dos 40 graus cariocas rumo aos -7 parisienses definitivamente acrescentaria  aquele tão precisado glamour ao curriculo vital da pessoa, ah, isso acrescentaria, combinamos?  “O casal foge do calor dos trópicos e apresenta  Noah ao seu primeiro capuccino na capital francesa.”)

Ai, o mundo dos bili-bili.

***

Em tempo: foto tirada no domingo, no Jardim Botânico. O pequeno virou fã de peixes em geral – não pode ver um que já faz a boca de peixinho. Isso é quase sempre engraçado e deveras inesperado dado ao mumero de pessoas que circulam com peixes ou tubarões estampados na camiseta. Para cada um Noah oferece uma boca peixinho. E a mãe faz junto  – que é pra manter o espírito de parceria (e a fama de pessoa equilibrada.)

ô mãe, eu acho que eu vi um peixinho

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9 Respostas para “é tudo bili-bili

  1. bili-bili é tudo! hahaha. Adorei!
    Ai que triste desmarcar a viagem. Claro que os pequenos são sempre a nossa prioridade, mas que é triste não dá pra negar!
    Lindo esse peixinho!
    beijos

  2. Amei o bili-bili e seus usos! Mesmo sabendo que é bili-bili, eu naõ aguento ver cenas de extrema violência e sangue. E as pessoas bili-bili, então? Afe, não aguento meeesmo.
    Quanto à viagem, chérie, acho que vc fez certíssimo. Não ia ser nada legal passar o Carnaval no Marais D’Or, néam? Remarca para outro feriado (mais quente).
    Bisous

  3. Passei por aqui e adorei teu espaço! E adorei o bili-bili! Mãe que não desmarca viagem por conta do filho doente é bili-bili. Boa sorte! Beijo.

  4. Gente, e que caixos são esses???
    Rooooo, meu sobrinho mont blanc tá mais pra Jesus Cristo agora… O QUE VCS ESTÃO FAZENDO COM ELE??? Heim???
    ;-D

  5. Gostei do Bili-bili, achei digno, vou introduzir no meu dialeto.
    Tá uma graça o Noah, e queria muito estar a menos sete em paris agora.
    beijos querida

  6. Pois se bili-bili veio dos Estados Unidos eu nao sei, mas aqui na Australia o povo fala direto! 🙂

    E quanto à Paris, vai estar sempre lá, toda iluminada, e com seus crepes de nutella e cafe au lait por toda parte, os esperando sempre…

    Beijos de peixinhos!

  7. bili-bili AMEI e já incorporei! rssrsrs

    Põe meia dúzia de Brahma p/ gelar ..eu tô voltando…temporada baiana delícia chega ao fim..colocando a casa em ordem agora e de volta aos comentários! Estava com saudades desta blogoesfera e do Noah! Adorei o peixinho, de morrer de amor! bjos

  8. ixe eu já comecei a entrar no mundo da imprevisibilidade. Domingo um choro da emília quase me fez cancelar o passeio à sorveteria da esquina…

  9. Bili-bili? gostei, posso adotar? ahahahaha
    Dureza, né amiga… pelo menos ele está melhor…essa caca dessa virose tá em todo canto… meu filhote também não escapou, graças a Deus não chegou aos ouvidos, mas fiquei zureta de tanto que esse menino mexeu nas orelhas (bili-bili, ele mexe nelas o tempo todo, e TODO MUNDO fica neurótico e me deixa neurótica, por tabela – em TODAS as consultas eu comento com a pediatra, que olha e diz que está tudo absolutamente normal com as orelhinhas do príncipe…ahahahahah)
    Beijo grande!

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