Dilemas de Eunice

Só pra terminar a questão da Dona Eunice. Bom, pelos comentários e emails recebidos gostaria de dizer o seguinte:

1 – Eunice poderia parir em uma das Casas de Parto espalhadas pelo Brasil. Li coisas muito bacanas a respeito delas. Coisas não divulgadas, provavelmente porque não agrada o bolso de tubarão, não faz rico mais rico e não saiu na novela das 8. Foi uma surpresa boa.

 Mas como Eunice teve uma cesareana prévia (ela pariu com o médico do plano de saúde, lembra?) ela não poderia ususfruir da gratuidade e profissionalismo da Casa de Parto. Também não podem ter o parto realizado em CP mulheres:

 – Com idade gestacional inferior a 37 semanas ou superior a 42 semanas;

– Com cardiopatias, hipertensão, colagenoses, hemoglobinopatias, diabetes, HIVA;

– Mulheres com eclâmpsia, hemorragias graves, deslocamento prematuro da placenta, placenta prévia, cesariana, acretismo placentário;

– Mulheres com gravidez gemelar;

– Mulheres cujos bebês estejam pélvicos ou transversos (a posição deve ser cefálica).

– Mulheres com parâmetros biofísicos não normais (devem ser “normais”: a quantidade de líquido amniótico, a movimentação e reatividade fetais e a amnioscopia.

Fonte: Hospital Virtual Brasileiro http://www.hospvirt.org.br/
…e nossa querida Mariana, ela!

2. Eunice poderia pagar seu parto humanizado com um profissional particular bacana, que parcelaria o parto em suaves prestações.

Aqui, controvérsias (juuura?)

Ouvi de mulheres que encontraram profissionais com P maiúsculo, gente muito bacana, que realiza  PH em casa ou em hospital e fazem um preço camarada, devidamente parcelado e com toda a compreensão e respeito do mundo. Ouvi até de profissionais que “penduraram” e deixaram pra receber depois que a parturiente estivesse melhor de grana. O que, segundo ela, não ocorreu até hoje 🙂

Também ouvi pessoas que conseguiram reembolso do seu PH junto aos Planos de Saúde, o que é mais bacana ainda. Vale a pena se informar a respeito. Pensou que legal? 

Por outro lado, ouvi histórias biazarras de profissionais “humanistas” que cobram ágio caso o parto ocorra aos finais de semana, feriados ou madrugadas (no cálculo de meu astuto e querido marido há uma probabilidade de 72% que isso ocorra, hello doutor, a gente sacou qual a sua, tá?) ou ainda aquele que cobra uma pequena fortuna, só para demosntrar toda a humanidade existente em seu coração.

 Eu acredito que essa diferença de preço possa sim estar relacionada com a cidade onde a pretendente a PH vive. Sim, porque não pode ser coincidência que mulheres do eixo Rio-SP se sintam bem mais satisfeitas dos que a de Manaus, interior de Minas e Brasilia, concordam? 

 O que é inaceitável minha gente que mora no eixo (incluindo eu mesma) é agir com desdem e preconceito com mulheres que dizem não ter encontrado ajuda sem nem antes verificar as condições  da região onde ela vive.  Por isso que tanta gente foge dos grupos radicais. Me parece algo assim “Olha, eu moro em SP, consegui um super preço, tive um super parto e, se você não conseguiu o mesmo é porque não quis o suficiente, falô?” Feio, egoísta e péssimo exemplo pra filharada, credo!

 Também existe gente que simplesmente não quer parir em casa e pronto. Meu caso, minhas razões e eu não devo satisfação a ninguem em relação a isso. Deus me livre ter que me justificar. Aliás essa nem é uma causa a qual me agarro pois sou daquelas que acredita que ninguem é mais ou menos mãe pelo tipo de parto que teve. 

Mas acho que toda mulher brasileira deveria ter o direito de optar por um parto digno, o parto que ela queira e não aquela imposta pelo médico, governo ou plano de saúde. Engravatado nenhum tem o direito de dizer de que maneira uma mulher deve parir.

E o post da Eunice só serviu para saber se o PH é viável financeiramente e gerar discussões que geram outras discussões que um dia podem se tornar  lei. Uma lei boa pra nós, mulheres. Para os que já nasceram sem esperanças, desculpem. Eu sou das últimas sonhadoras.

 Mas como eu já disse, essa não é a minha causa (apesar de ser de todos nós ao mesmo tempo, eu sei). Você entendeu o que eu quis dizer. Você pode ter outras causas na vida como  salvar as baleias. A minha tem a ver com político safado. Odeio Jader Barbalho tanto quanto você odeio um médico intervencioniasta. Cada um no seu quadrado e ainda bem que é assim. O que seria das baleias se todo mundo só quisesse salvar os pandas?

 Mas se você sente que a sua maior causa é levar o Parto Humanizado ao maior número de pessoas, então parabéns, you make us proud! E sei que tem um monte de gente batalhando, escrevendo, balançando, sacudindo pela causa. E sem ofender ninguém. Isso é prático. Isso gera resultados.

 Mas como recebi meia dúzia de anônimos comentários e emails desaforados, deixa eu dizer que eu acho que nem tudo que reluz é ouro, meninas?

 Existem mulheres realmente engajadas e que sinceramente querem te ajudar a ter um parto incrível. 

Mas existe uma meia dúzia que, de verdade, só quer se auto-afirmar. Essa não agarrou uma causa, agarrou sim uma causa pra discursar. Um discurso vazio, que se rompe assim que você pergunta “você pode me passar o site, ou pode dar o nome desse profissional de Alagoas?”  

Gente, pessoa assim ama o discurso, e não a causa.

Pessoa assim não quer a vitória alheia. Ela quer, acima de tudo, impor as suas escolhas e desmerecer as outras. Ela não luta pra formar um grupo atuante, que forneça endereços, preços, apoio. Ela sim faz parte de um grupo que só atua no sentido de desmerecer, humilhar e desdenhar o seu parto. Ela vive do passado e desdenha aquelas que não escolheram a sua escolha. 

Triste.

 Acho que eu vi uma dessas mães outro dia num aniversário de criança. De cara feia, séria, de canto o tempo todo, segurando a tapauer com a comida vegetariana que trouxe pro filho. O filho, um menino de seus 3 anos, calado, ficava o tempo todo ao lado dela. Lá pelas tantas, ela agarrou o coitadinho pelo braço e disse:

– Vam’bora, filho. Que aqui ninguem gosta da gente.

Pobre mãe. Pobre criança.

ps: Aos vegetarianos: me odeia, não, colega!  Eu sou totalmente quinoa girl e levo meus potinhos pra cima e pra baixo também, viu?

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16 Respostas para “Dilemas de Eunice

  1. Sobre as Casas de Parto: andei pesquisando e, além, de não aceitarem um monte de parturientes, como vc falou aqui, quando existem (são pouquíssimas as cidades que têm), são longe pacas. Ou alguém acha que Sapopemba fica perto do Centro de SP? Fica longe, looonge. Mesmo eu, que fui repórter de cidades, nunca pisei lá e não sei direito onde fica. Aqui em BSB, mesma coisa, fica numa cidade-satélite longínqua (São Sebastião). Se eu não trabalhasse, não tivesse outro filho, não tivesse mil responsabilidades e tivesse um transporte fácil até lá (coisa que não tem nem em BSB nem em SP), eu iria fazer o pré-natal lá e descobrir se eles me aceitariam. Mas, na real, fica inviável cruzar bairros/ cidades para se chegar a um lugar que vc tem que ir com certa frequência.
    Quanto às mães que só querem impor sua vitória, sua verdade e sua maternidade que acredita ser maior que a das outras, concordo demais. Vivem do passado (“o meu parto perfeito”) e parecem nem se importar com a criação do filho hoje. Com elas, a discussão cai no vazio, infelizmente.

  2. Ah, e esta discussão toda me fez lembrar de algumas coisas que ouvi recentemente que mostram que o lado comercial tem mesmo imperado nesta “escolha de elite” que se tornou o parto humanizado. Uma conhecida disse que tem uma amiga doula que se, ao chegar na casa da parturiente, vir um carrinho da Chicco, cobra mais caro. E ela, a conhecida, falou isso como sendo normal.
    Na hora, não me toquei, mas depois, juntando isso às histórias dos obstetras, do ágio e tal, vi que é tudo farinha do mesmo saco. E se o carrinho tiver sido ganho, herdado, comprado em brechó etc.? Eu sou jornalista e não cobro mais caro a depender da pessoa que eu vou entrevistar!
    Porque ainda tem isso, se vc não tem doula, te olham feio ou nem te respondem nestas listas de parto humanizado. Estou mentindo?

  3. Felizmente eu não conheci ainda essa meia dúzia que só quer desdenhar do parto dos outros ao invés de realmente querer ajudar. MAS, pra ajudar alguém, esse alguém precisa querer ser ajudado. A minha parteira, do alto de sua sabedoria (que é gigante), diz que o que mais tem por aí é mulher que “quer querer” parto normal, humanizado. Eu sinceramente acho que quem QUER mesmo, corre atrás! Nem dinheiro, nem distâncias, nem chuva, nem enchente, nem família (o maior obstáculo, pra mim), nada, NADA me impediria de receber meu filho de maneira humanizada. Por isso comecei a pesquisar antes mesmo de engravidar.
    Mas essa sou eu, essa era minha prioridade.
    Na boa, quem faz pré natal com médico cesarista de plano de saúde e nem se preocupa em ter uma doula, não quer parto normal. Quer querer, mas não quer de verdade.

    Mas é claro que eu acho que todos os profissionais deveriam ser humanizados. Deveria ser obrigatório receber um novo ser de maneira humanizada. Deveria ser crime cortar a barriga de uma mulher e arrancar um bebê sem necessidade. Em qualquer país, em qualquer Estado, em qualquer classe social, principalmente. Infelizmente, não é essa a nossa realidade.

  4. Quem dera ter um banheira, uma doula e ganhar como Gisele.
    Não teria dúvidas sobre ter ou não ter o segundo filho. Com parto humanizado claro.

  5. Como Eunice trabalha no BB, conheço o plano de saúde dela. Talvez ela consiga um PH pelo plano, não em casa, mas em hospitais que oferecem esse serviço.
    Caso ela more no Rio, tem a Perinatal de Laranjeiras. Minha irmã faria o parto dela lá, pelo mesmo plano, e conheceu esse quarto com banheira, mas meu sobrinho foi apressadinho demais…
    Espero ter ajudado um pouco.

    Tá rolando promoção lá no Criando Asas, passa lá e participa!
    Beijos!

  6. Não sou mulher nem mãe mas gostaria de fazer a seguinte observação se me permitem: essa mulherada de grandes centros tipo SAMPA, RIO, BH, desesperadas por um parto humanizado pra depois trazer ao mundo crianças em locais totalmente impróprios e desumanos como são nossas grandes capitais. Ficam lá parindo com musiquinha da Enia pra depois trazer o moleque pra enchente, assalto e a porra toda. Falta noção, né meu? Fernanda, ja que vc quis tanto um parto assim porque também não pode querer igualmente tanto morar com seu filho em um país mais decente? Como você mesma disse nnao há dinheiro, distância nem nada que pode impedir. Vai aí, então, dá uma vida melhor pro moleque, e não só um nascimento de musiquinha.
    Esse Brasil tá falido e a moça do blog tenta escrever uma coia e a galera já vem bombardear.
    CADA UM TEM O PAIS QUE MERECE MESMO.

  7. Continuo aplaudindo. De pé! E agora assobiando!

    Post incrível. Concordo em gênero, número e grau. E não vou escrever mais nada que esse negócio de ficar brincando de ‘meu parto é melhor que o seu’ já deu o que tinha que dar.

    beijocas querida!

  8. Rô, amei seus dois posts sobre o assunto. Confesso que também fiquei pau da vida durante minha gravidez com essa história de ter de arrancar os cabelos para ter um parto mais ou menos como eu queria. Tem que ter plano de parto (acho bizarro entregar um papel pro médico assinar com suas preferências. E se o médico fizer diferente? Você processa?), fazer ioga, plantar bananeira, contestar o médico, contratar uma doula. Já tem todo o estresse da gestação, mil coisas pra arrumar e os hormônios total descontrol. E você ainda tem de se defender dos médicos e dos hospitais, como se todos estivessem contra você. Um horror. Por isso não optei por uma médica “humanizada”. Optei por uma médica experiente e honesta. Claro, paguei por isso. Um preço justo, diga-se de passagem, que até a Eunice poderia pagar. E sem ágio.

  9. “O que seria das baleias se todo mundo só quisesse salvar os pandas?” – Affe, que saudade de ti…

  10. Percebo que muitas pessoas que QUEREM parto humanizado não são pessoas humanizadas. Não respeitam a diversidade de opinião, de valores, de condição financeira. Não tem condição de dialogar sobre qualquer assunto, que não esteja dentro do seu pequeno mundo. É tão incoerente.

    Pra variar um belo post. beijos

  11. Parabéns pelos posts, adorei lê-los.
    Concordo muito com a Thaty…certas mulheresz que defendem o parto acabam não sendo humanizadas de verdade. Não conseguem respeitar a opinião alheia.

    Há algum tempo escrevi sobre essa ditura de parto humanizado e em como o pessoal que defende isso acima de tudo, acaba cansando.

    Recebi posts anônimos, e alguns não permitiram responder, pq o perfil não é público. Então me diz? Como é que a pessoa quer conversar, dialogar, e não abre espaço para isto?

    Sinceramente: há muito, muito mais para se falar sobre a maternidade. Aliás ser mãe transcende, e muito, ao tipo de parto.

    Beijos,
    Priscila e Beatriz

  12. Postei esse mesmo depoimento no blog da paloma(http://fotocecilia.blogspot.com/) e vi que as coisas são muito diferentes fora do eixo Rio-SP. Adorei seu blog, e concordo pelnamente com o post do terrorismo(sim, eu li o blog inteiro de uma vez só).
    Segue o depoimento:
    “Realmente, existe muita diferença de uma região pra outra nesse Brasil gigante. Moro em passo Fundo-RS e aqui o atendimento pelo SUS, pelo jeito, é bem melhor. Fiz todo meu pré-natal sem pagar nada, uma consulta por mês e a OB respondia TUDO(e as vezes eu demorava bastante). A unica coisa é que, na hora do parto será o OB que estiver de plantão… Mas eles são totalmente a favor de PN, fui atendida por dois nas 14hrs que a gabi demorou pra nascer e eles foram otimos. Segundo eles, como tem que ficar de plantão, pra que apressar em uma cesarea? Espera e vamos ver o que dá(assim me disse o Dr. Glenio).Tinha ducha, bola e varias coisas pra massagem no centro obstetrico, e, de 5 crianças que nasceram naquele dia, apenas 1 foi cesarea. Essa era unica que não era do SUS, chegou toda embonecada, de 37 semanas, dizendo que tava ‘uma bola de gorda’ e que queria ganhar ‘aquele’ nenem logo, sem sentir dor. Foi pra faca.
    Já eu, sem grana pra pagar o absurdo que esses medicos cobram, tive uma parto maravilhoso, com uma ‘mini-epsio’ pois precisei no ultimo minuto, levei apenas 3 pontos. Fiquei com a nenem o tempo inteiro, eles só levaram ela pro banho(devidamente acompanhada do pai) enquanto eu almoçava, meia hora depois do parto.
    Sai de lá depois de 24 hrs, caminhando, e com consulta pra mim e pra Gabi agendadas. Ganhei aula de amamentação,banho e um oleo(de semente de uva) pra caso o seio rachasse.Ha, e o papai babão acompanhou tudo, sem nem a gente precisar pedir, as enfermeiras mandaram ele entrar junto logo no inicio.”

    Acho que tá tudo muito elitizado no Brasil. Tem que ser pré escola de elite, parto de elite, bairro de elite. Daqui um pouco até pra ‘fazer’ nossos bebes vai ter que ser de um jeito ‘de elite’ =P
    Boa sorte e, principalmente, TOLERANCIA com opiniões alheias.
    Beijos

  13. Estou grávida da minha segunda filha e na primeira eu estava animada para um parto normal, minha médica me foi recomendada por gostar de fazer PN, fui para o hospital quando minha bolsa estourou já com 41 semanas num sábado a tarde, só que acabei precisando fazer uma cesárea de emergência, minha filha nasceu com mais de 4 kilos e acho que eu não tinha contração suficiente, sei lá. Por isso eu não arriscaria tentar um parto em casa agora e ter que sair correndo no meio da noite e com o bebe “entalado”. Nessa hora cada minuto é importantíssimo pra vida do bb.
    Sobre o ágio falei com minha médica e ela disse que os planos de saúde também pagam 30% a mais em PN feito de madrugada ou fim de semana, pensando bem qualquer trabalhador tem esse direito, a CLT estipula um mínimo de 20% de acréscimo na hora noturna.

    Beijos

  14. Luis Eduardo, curiosamente sair de São Paulo faz parte dos meus planos para o futuro próximo. Mas eu pensei que o assunto aqui fosse parto…
    Parto humanizado é BEM MAIS do que a “musiquinha”que toca. E diz respeito não só ao bebê, mas à parturiente também.

  15. Ju, mãe da Letícia

    O plano da saúde de Eunice também é o meu. Em São Paulo, os médicos com maior índice de partos normais assistiram a incríveis 1 a 2 partos por ano, de acordo com resposta do próprio convênio, com base nos pagamentos efetuados…

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