Carta ao Prefeito

(e-mail enviado por essa blogueira a Ouvidoria da Prefeitura do Rio de Janeiro, em 14/10/2009. O número de registro é o 1114789 )

Prezado Senhor Prefeito,

Eu não ia escrever sobre isso, não, que isso é tema complicado. Mas como agora tenho um filho e o assunto diz respeito também a ele resolvi superar minha timidez  e, humildemente, pedir a sua ajuda, prefeito. Sabe como é,  quando nasce uma mãe nasce também uma leoa, o senhor concorda? (E quem é que se arrisca a não concordar com uma leoa, né prefeito?)

Desculpa se eu aqui não me expresso com todos aqueles “data venia” ou “solenemente requer” e outros puxa-saquismos galanteios gramaticais aos quais o senhor está acostumado. Sabe o que é, prefeito,  isso aqui é um blog de mãe. E em blog de mãe a gente escreve basicamente palavras do tipo cocô, fralda, arroto e pum. Então vai desculpando a falta de glamour, viu seu prefeito?

Eu, no momento, enfrento o seguinte dilema (e usar a palavra dilema na maternidade é até redundância,  pergunta pra sua esposa):

O Noah, meu filho, vai completar 1 ano. E agora ele vai pra escolinha, por meio período. Ocorre que, por falta de opção no Leme e em Copacabana, tivemos que o matricular em uma escola que fica em Botafogo. (Abre parêntese pra explicar que, pra conseguir vaga em alguma escola por aqui,  só em 2011. Não adianta chorar, nem levar torta pra diretora, nada disso. Só se eu mentisse e dissesse que eu tenho parentes importantes. Tipo o senhor. Mas isso é feio e eu já tentei e não funcionou. e eu me recuso. Fecha parênteses.)

Agora eis que eu me deparo com uma questão de ordem prática: a de como vou levá-lo e buscá-lo todos os dias. Então vamos as opções:

– A pé:

 O túnel que liga o Leme a Botafogo não é lá muito seguro. Acho que o senhor também não cruzava ele a pé, não, hein seu prefeito? Impossível.

– De taxi:

Primeiro é financeiramente inviável. Depois tem a questão do bebê conforto (o qual eu não ando sem) e que agora será enorme, já que Noah não cabe mais no bebê conforto. 

– De metrô:

Taí a primeira solução que veio a cabeça! Mas qual o que, o senhor não vai acreditar! O metrô não tem elevador! Quer dizer, até tem um em Botafogo, mas parece que a pessoa tem que descer as escadas primeiro, chamar um segurança para destravar o elevador, para daí então subir de novo e entrar no elevador.  Eu também fiz essa mesma cara de indignada que o senhor está fazendo agora, seu prefeito. Pensei: mas se eu tenho que descer de escada pra chamar o moço, onde fica o Noah e o carrinho enquanto isso? Lá em cima trocando idéia com o pipoqueiro? Eu não conheço o pipoqueiro da entrada do metrô, seu prefeito! Então não rola! Pensei em levá-lo no canguru, mas estamos no limite de peso (ele, não eu) para o uso do cangurú.

– De carro:

Taí. Pra mim essa opção é ainda mais complicada. Desde que voltei de Londres, onde vivi por quase 5 anos, vivo achando que tenho o direito de viver com o mínimo de segurança. Mania de gringo essa, né seu prefeito? Ocorre que antes de ir pra lá eu sofri um assalto a mão armada em São Paulo. Não sei se o senhor já passou por isso, mas dá um medinho legal, viu prefeito? Daí quando vim morar no Rio ouvi histórias terríveis sobre violência em situações que crianças estão dentro do carro. Resultado: traumatizei, acredita? Simplesmente não tenho coragem de dirigir e deixar meu filho sentado atrás, sozinho. Já pensei em fazer análise mas achei mais baratinho escrever pro senhor. 

O senhor pode me dizer “ema ema ema, cada um com seu problema”. OU o senhor pode ser muito legal e me indicar uma direção, dizer o que faria no meu lugar?! Eu acho que o elevador no metrô seria a solução mais adequada, o que que o senhor acha? Até porque, cá entre nós, fica super feio: uma cidade que vai sediar as Olimpíadas não dá condições de ascesso a pessoas em cadeiras de roda?! O uso do carrinho,pra nós mamães & bebês, é passageiro. Mas o cadeirante  precisa desse serviço permanentemente! E ele paga imposto como a gente e deveria, portanto, ter o direito de utilizar o metrô. Eu pelo menos acho, prefeito!

Olha, eu não vou me estender mais porque sei que o senhor é homem ocupado. E eu sei que esse assunto talvez nem seja de sua esfera. Mas eu sou mãe (e leoa, lembra?) então não tenho tempo para “esferismos e alçadas em geral”. Além do mais, o senhor é jovem e me passa uma coisa de integridade. E certamente conhece mais gente importante do que eu, que não conheço nem o pipoqueiro da entrada do metrô.

Se o senhor quiser conhecer um pouco mais do universo maternal é só dar um pulo no meu blog e dar uma lidinha na lista de blogs que estão a sua direita! Tem muita coisa engraçada e bastante informação sobre cocô, fralda, xixi e arrotos.

Conto com sua ajuda, prefeito. As mães – e eleitoras – do Rio de Janeiro e da blogosfera em geral, também. E pode contar com minha ajuda para quaiquer esclarecimentos.

Um abraço, 

Mãe de um (mini) cidadão

ps: como recebi uma respostinha padrão da ouvidoria resolvi telefonar para o gabinete e consegui o email direto do senhor prefeito. Re-enviei a carta hoje, dia 15/10 (com cópias para as secretárias dele).

ps1: respostinha padrão da ouvidoria:

Um bom dia,

A Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro – PCRJ, e a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência – SMPD estão cientes das enormes dificuldades existentes em nossa Cidade no que tange a locomoção de Pessoas com Deficiência.

Para melhorarmos consideravelmente esse quadro, a SMPD está viabilizando um convênio com o Núcleo Pró Acesso da Universidade Federal do Rio de Janeiro- UFRJ, objetivando tornar os espaços públicos acessíveis na Cidade do Rio de Janeiro.

ps3: respostinha assim não serve pra mãe leoa, serve? ah, não…

Anúncios

25 Respostas para “Carta ao Prefeito

  1. Adorei a carta! E que absurdo esse negócio da escada do metrô, não tem o menor cabimento!
    Sabe que eu nunca tive medo de andar sozinha com o André…e agora, obviamente, estou com um super receio. Tive umas fases de ver uns assaltos e ficar meio preocupada, mas nunca deixei de sair…agora vamos ver como vai ser!
    To aqui torcendo pra vcs encontrarem uma boa solução.
    beijos, Re

  2. Adorei a carta! Se precisar de assinaturas para um possivel abaixo assinado, pode contar conosco! Em breve tambem estarei passando por isso. Sabe que quando minha irma esteve aqui com a Valentina, fomos com o carrinho na escada rolante apesar do aviso dizer que nao eh permitido (feio feio eu sei) mas mais feio ainda eh nao ter como transportar o carrinho pelas estacoes de metro do Rio, uma vergonha! E so pudemos fazer isso porque estavamos em duas, pois sozinha fica dificil, ja que em muitas estacoes nem escada rolante tem!!

  3. Roberta, ge-ni-al! Se todo mundo fizesse isso, as condições estariam melhores, eu acho. Eu acho carro o lugar mais perigoso para uma mãe e seu bebê no Brasil. Porque mulheres são vítimas mais fáceis de assalto (fora os perigos do trânsito) e violência em geral. E não acho justo deixar um bebê tão pequeno atravessar uma cidade, ficar horas no trânsito. Se é chato para a gente, imagine para eles. Pensava muito nisso em SP.
    Por isso procurei escola perto de casa, para ir e voltar a pé (embora as escolas que mais me agradassem estivessem em outro bairro). Aqui em Brasília, para vc ter uma ideia, fiz o contrário. Achei primeiro a escola e depois uma casa que fosse pertinho. Tenho meus motivos.
    E concordo com você, metrô é a melhor opção. Pena que brasília tenha tão poucas linhas e que nenhuma passe pelo meu “bairro”.
    Beijos e todo o meu apoio.

    Alô, Dudu Paes, ouça esta mãe carioca!!

  4. gênia!
    *clap-clap-clap-clap-clap!*
    (se ele responder publica aqui, tá?)

  5. É isso ai!

    Quem disse que a gente tem que ser chata para exigir nossos direitos!!!!?????!!!!

    AMEI a carta e vamos ver no que vai dar…

    Eu apoio um dia para a blogagem coletiva exigindo elevadores no metrô!!

    Bjs, Gabi – Mãe da Malu que usa muito o metrô, mas que só colo não dá, né?!

  6. Adorei! Sr. Prefeito deve estar corado de vergonha desse papelão!
    bjssssss

  7. Eh froid, ne?

    O rio realmente eh uma cidade unica, aqui nós temos vários problemas se eles vao resolver nao sei. Eu já andei a pe nesse tunel, da um medao, eu realmente nao iria com criança. Agora menina q complicado isso, nao ter creche no Leme com vagas. Poxa, isso realmente eh sem noçao.
    No meu bairro eu tenho outros tipos de problemas, calçadas sao pra carros e estão detonadas, andar com carrinho eh tenebroso e a pracinha do bairro eh antro a gente so ve figuras suspeitas. Criança mesmo nao conseguem ir pra la.
    Confesso q tenho esperança q com esse lance das olimpiadas eles sejam obrigados a investir mais na cidade e resolver alguns problemas.
    A gente com criança sofre, e os bebes crescem, mas quem tem deficiencia passa por problemas todos os dias, eh muito dificil ver veiculos adaptados para eles.
    Realmente tem q melhorar muita coisa, eu gosto muito daqui mas ta longe de ser uma cidade amigavel com crianças e deficientes ou com transporte coletivo excelente.
    Tem q reclamar mesmo! Tomara q ele responda!

    beijocas na mamae leoa e no Noah, depois conta da adaptaçao!

  8. *palmas*

    Será que ele (a assessoria) vai se dignar a responder?
    Conta depois pra gente!
    bjs

  9. Opaaaaaaaa! É isso aí, quando o assunto é descaso político fico muito chateada… Fala sério,´há coisas que não dá para entender como a máquina pública nunca consegue resolver…
    Amei a carta, acredito que muitas pessoas sentem vontade de “falar” a mesma coisa…

    Agora, problemas a parte… que legal a ideia do Noah passar parte do seu tempo na escolinha, isso é muito bacana, não tenho filhos, mas penso que tal iniciativa contribi para o desenvolvimento intelectual dos pimpolhos.

    Beijosssssssss, em espicial para ele: O poderoso Gatão – Noah!

  10. Eita-eita-eita! Roberta prá prefeita!
    Vou fazer o link da sua carta lá no blog. Essa merece um efeito-cascata! E a hora de conseguir algo é AGORA!
    Bjs!

  11. Oi, meninas, muito obrigada pela força! Quero dizer que vou cobrar uma resposta SIM.
    Onde já se viu, com o tanto de imposto que a gente paga!
    Não dá pra resolver, não de maneira simples, o problema da violência e a gente sabe disso.
    Mas pelo menos o nosso direito de ir e vir com nossos filhos (e com o mínimo de segurança) tem que ser assegurado. Não é verdade?
    (ele vai pegar trauma de mãe, aquele seu Eduardo hehehe)

  12. Rô,

    fiz um link da tua carta lá no blog. Super Apóio, uma mega divulgação do tema, que em realidade aborda tambem outra problemática que é a falta de escolinhas, não é verdade?…
    Mas, uma coisa de cada vez, espero que muitas pessoas leiam, comentem, e assinem embaixo.
    quem sabe mudamos alguma coisa.

    Eu apoio!

    muitos beijos

  13. Ótima iniciativa essa Rô! Não sou carioca, moro no interior, aqui nem tem elevador, mas te apoio! Assino embaixo de tudo o que você falou! Conta comigo, filha! Beijo! Dani

  14. Olá. Vim aqui muito curiosa, a partir do blog da Lilata, e adorei sua carta. Você escreve muito bem e o conteúdo está perfeito. Tomara que haja uma resposta minimamente convincente. E que algo seja feito logo. Na prática.
    Estou voltando a morar no Rio, cidade que amo, estou muito feliz com isso, mas sabemos que muita coisa precisa melhorar. Boa sorte pra gente, mães e leoas, que só querem o bem para todos os filhos do mundo.
    Abração e muito prazer.

  15. Roberta, depois me ocorreu se não é o caso de falar com o governador também. Pelo menos em São Paulo isso é assunto do governo.

    Eu já escrevi várias vezes para a Ouvidoria do Governo de SP e nunca, nunquinha recebi resposta… Já liguei, já protocolei, já fui a secretarias pessoalmente e nada. Revoltante, né?

    E, olha aqui a minha experiência com o metrô de SP: http://fotocecilia.blogspot.com/2009/07/dicas-e-nao-dicas.html

  16. Carta porreta! Apoiado! Eu já perdi a conta de quantos e-mails eu já enviei para a ouvidoria a propósito do estado da praça frequentada por minha filha, no Flamengo (Praça São Salvador): é um lugar lindo, mas os brinquedos estão quebrados, tudo sujo…Nunca, nunquinha mesmo, recebi uma resposta (além dessa resposta-padrão, que é o mesmo que nada).

  17. óóóóótemo!!! Muito bom, Roberta, bem escrita, firme e forte. Vou linkar lá no meu blog.
    E mais, eu acho que poderíamos juntar as mães cariocas (sou gaúcha, mas voto aqui, já moro há 11 anos) e gravar essa carta em vídeo, postar no You Tube e espalhar pelo Twitter, Orkut, Facebook etc.
    Beijos!

  18. Roooosita, como se não te conhecesse, eu voto em você minha amiga for preseident, for mother of the world, pra tudo!!! Adoro seu blog, leio todos os posts mesmo sem ser mami tá flor! E manda ver mesmo no prefeito pois eu quero ver só o que vão fazer para as Olimpíadas funcionarem de verdade, como foi em Barcelona! Acho que vão precisar de mais arquitetos aí heim. ahaaaa… Beijos querida. Saudades. Ju

  19. Excelente iniciativa, Roberta. É aquela história, não adianta reclamar para o marido ou para o pipoqueiro que fica na entrada do metrô. Moro em São Paulo e, sem bairrismos e a rivalidade Rio x Sampa, tenho que dizer que a situação dos metrôs aqui é muito melhor, mas ainda assim há muitos espaços públicos carentes de acesso a cadeirantes e carrinhos de bebê, como as calçadas, por exemplo.

  20. é seu prefeito, agora danou-se… a carta caiu na blogosfera materna, e um monte de leoas quando se juntam… cuidado, viu!!! é bom pelo menos responder, e começar a mexer o bumbum (taí tema próprio de blog de mãe), que a Roberta já atiçou o bando!
    BOA MULHER!!!
    beijo

  21. Roberta, eu topo trocar figurinhas!
    Gravar a mensagem e jogar no YouTube é fácil, mas a qualidade seria bem meia-boca… o que acho que não tem relevância alguma, já que o conteúdo é o que importa aqui.
    beijos!

  22. Ai, que Bobbynha linda. Ainda mais leoa. Já era, antes mesmo de ser mãe! Tô com umas saudades fodas de vc, e achando ridículo esse lance não conghecer meu afilhado. Vamos resolver?

    Te amo.

  23. Pingback: é tudo bili-bili « Piscar de Olhos

  24. *Obra-prima* esse post! Excelente!!!

    Sabe que na época que encontrei seu blog esse post tava na página principal, mas não arrisquei ler pois eu não tava com humor pra causas politicas naquele dia. Imagina que me privei de umas boas risadas!

    E que revoltante hein Roberta? Triste não ter pra onde correr… Qdo eu morava na Venezuela, só via coisa boa no Brasil (o que foi bom tambem), hoje quando vou, ainda vejo coisas boas (calor humano, comida boa, cultura rica), mas não deixo de pensar que tanta coisa poderia ser melhor. Pra que tanta burocracia, porque nao tem elevador ou uma rampinha no metro e em tantos outros lugares?

    Agora te digo… aproveita essa coceira na sua canela (o que eu chamo de oxiúrus!) pra experimentar a vida de expat em familia. Tudo é muito mais facil enquanto nossos “orgulhos-da-mamãe” ainda sao pequenos e nao estão em idade escolar.

    Grande beijo!

  25. Menina, vc é o máximo! estou apaixonada pelo seu blog

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s