Toda coerência é, no mínimo, suspeita

Hoje acordei toda Chiquenta, li Chico, pensei Chico e escutei Chico Buarque. Então lá vai, escrita em Londres, 2004 no finado http://bobbyemlondres.blogspot.com/

O Chico de Toda Mulher

Descobri que toda mulher brasileira tem um ciúme  doentio do Chico Buarque de Holanda. Na verdade, você depara com algumas evidências desta ciumeira descontrolada quando é ainda bem novinha. Adolescente, confessa a mãe que acha esse moço, o Chico, bastante interessante. A mãe, contrariada, ja vira com essa “Chico…hahaha…Chico…Que foi? Eh intima agora, pra chamar o Chico de Chico?” Ali, voce ja ve que tem coisa. Comigo, pelo menos foi assim. Minha mãe sempre deixou bem claro, em meio a seus discos de vinil, que conhecia, compreendia e amava aquele homem bem mais do que eu.  

Em meio a multidão que aguardava para ter seu livro Budapeste autografado, os suspiros e comentários eram parecidíssimos, aqueles que se escuta desde sempre. “O unico compositor que entende a alma feminina”, “Ele conhece uma mulher como ninguem”. Esta senhora brasileira atras de mim, tentava explicar, em inglês que o Chico compusera uma canção somente com proparoxitonas. “Diz que a única mulher que ele realmente amou foi a Marieta”. Depois vinham os comentários sobre o problema com a bebedeira, tudo acompanhado de suspiros, porque até alcoolismo e cãibra, no Chico, pega bem. 

Não sei como diabos ele lida com isso. Sim porque é como se o infeliz tivesse nascido com excesso de mãe, irmã e amante. Tinha tudo pra ser viado, se você pensar bem. Eu não sei o que de extraordinario você tem que fazer/ter/ser pra que um homem desse te ame. Eh como comprar presente pra criança que ja tem tudo. Pensa que você, primeiro, tem que ser super super-especial, que é pro homem não morrer de tédio. Lembra que ele ja conhece a alma feminina, a sua, a da Patricia e a da Leucadia. Você vai ter que acrescentar algo, minha filha, olha ele bocejando só de pensar em você. Segundo, vai aprender a lidar com a dor de cotovelo de uma nação inteira. Sim, porque você ja é inimiga oficial das leitoras de Claudia, Casa e Cozinha e Ponto Cruz. Se vira, meu bem, vereadora nunca mais.

Mas que é bom se imaginar como a oficial do Chico, ah isso sim. Porque ninguem quer trepar com o Chico Buarque, é isso que os homens não entendem. Chico Buarque é homem  pra casar. Eh o homem pra sair na foto, porta-retrato na mesa do trabalho, três por quatro no carro, preto-e-branco no chaveiro e em todos os lugares visiveis pelas leitoras de Claudia, Casa e Cozinha e Ponto Cruz.  

Todos estes delirios me fizeram esquecer da longa fila e quando vi, la estava o maior par de olhos azuis do Universo. Num ímpeto daqueles, e se foi ímpeto é porque foi impensado, eu viro com a voz bem impostada e aguda e mando: ” CHICO, EU TE AMO.” Ele sorri seu sorriso numero 12 e diz, “COMO?”. Merda, vou ter que repetir. Gritei, desafinada “TE AMO MUITO!”. Ele não poderia ter sido mais doce, diante da minha total falta de classe “MUITO OBRIGADO, MINHA QUERIDA.” Ai pensei, meu Deus, é oficial, estamos dialogando. Ai, eu, que sou uma pessoa que não sabe quando enough is enough, resolvi continuar. “EU SEI QUE VOCE DEVE OUVIR ISSO MILHARES DE VEZES, MAS UMA A MAIS, NAO VAI FAZER MAL” Me arrependi instantaneamente, foi pessimo. Poderia ter teminado no “te amo muito” e saido, misteriosa, em câmera lenta… Ele, mais uma vez lidou com minha falta de compostura “NÃO, NUNCA EH DEMAIS…AINDA MAIS VINDO DE UMA MULHER LINDA COMO VOCÊ.” Era oficial, eu era, em meio aos livros e ao cheiro forte de Channel N.5, a mulher mais feliz de todo o Reino Unido e Brasil juntos. 

E tambem a mais odiada. Os murmurinhos comecaram de imediato e, ate a senhora simpatica do sotaque escoces, me olhou com desdem. Descobri que havia quebrado o codigo. Havia rompido o fluxo, desrespeitado a lei que reza que o Chico nao eh de ninguem, e deveria tratar a nos todas de maneira igual – com uma leve preferencia pelas mais velhas e com filhos no colo. 

Teve uma, menos paciente, veterana, provavelmente da turma da minha mae, que veio atras de mim quando fui comprar uma cerveja. O marido tinha passado os ultimos quinze minutos de olho no meu decote e ela nao tava nem ai. Se aproxima de mim na fila, cutuca o meu ombro e manda “EH, SO VOCE, ESPERTINHA. SO VOCE.” Tentei, eu sei, todas nos. Mas ela continuava: “PENSA QUE EH SO VOCE, NAO EH? VAI PENSANDO. SO VOCE, GAROTINHA.” 

Foi assim que eu resolvi ir embora sem o autografo. Ja tinha tido o que merecia, quem era eu pra querer registrar, de caneta bic, o meu tratamento preferencial. Sem fotos e sem autografos, fui forcada a deixar o teatro londrino. Fui acompanhada ate a porta por um par delas. Ja mandaram uma mais fortinha na escolta, que era pra nao ter resistencia. Nem olhei pra tras. Pensei em ligar pra minha mãe, mas ela ja deve estar sabendo. A instituição eh organizada e hoje em dia elas contam com a rapidez da Internet.

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