eu, édipo e o complexo de borboleta

Meu filho se apaixonou por mim. E já não era sem tempo, visto que eu já vinha sofrendo de amor não correspondido desde nosso primeiro encontro, lá na sala de parto.

Sério. Olhei pra ele e pimba, caí de amores.  Mulher de malandro total, né, pois o pequeno não se comovia muito, não. Me olhava por um segundo e já desviava o olhar pra algo mais importante e significativo, como o pano de louça, por exemplo. Maridão tentava me consolar, dizia que a emoção em me ver era tanta, que ele não suportava e tinha que rapidamente se distrair com outra coisa. Sei.

Claro que de todas as pessoas, verdade seja dita, a mãe é a primeira que ele reconhece. E era só o que me faltava ser diferente, já pensou?  9 meses de prisão de ventre e o pequeno sai da barriga dizendo “papai, que bom, você por aqui!”

Mas reconhecer não quer dizer morrer de amores.  Ele até te acha bacaninha, principalmente porque você é a portadora daqueles respeitáveis peitos,  estes sim, dignos de amor incondicional. Mas é só.

Bom, pelo menos até hoje.

Já notei pela manhã, fui tirá-lo do berço e ele olhou pra mim e arregalou os olhos, apavorado de amor. Dali em diante me seguiu com seu  olhar Edipiano, o dia inteiro. Deixei ele no carrinho, no meio da sala, só pra testar e era isso mesmo:  lá estava ele, todo faceiro, me encarando e dando gritinhos de felicidade. Uma sensação maravilhosa e – convenhamos  – merecidissima.

E foi por isso que eu achei estranho que, quando saí do banho e fui lá jogar um charminho,  ele me ignorou completamente, entretidíssimo com a parede vermelha da sala.  A parede vermelha da sala, pra quem nao sabe, foi o grande amor dele, durante o primeiro e segundo mês de vida. Só tinha olhos pra ela. Até que um dia, acordou com a pá virada, e deu o pé na bichinha. Triste, mas bebês são assim, meio instáveis mesmo.

Mas amor de filho certamente há de durar mais do que um simples flerte com uma parede terracota??? Inconformada, fiz o que podia pra reconquistar sua atenção: pulei, cantei, dancei, tudo pra mostrar que mãe legal eu era,  “olha, filho, sem as mãos!” E nada. Resolvi trocar de roupa, pois como sabem, os bebês têm lá suas preferências. Vestido colorido, por exemplo, geralmente  agrada.

Suepersticiosa que sou, vesti exatamente o que vestia pela manhã, momento em que ele caiu de amores pela Jocasta que vos fala. Ele até me deu um sorrisinho simpático, mas nada que o distraisse  da sra maçaneta. 

Foi aí que a ficha caiu. Eu estava vestindo o mesmo outfit da manhã, exceto por um detalhe. Arrasada, fui até o espelho e recoloquei o item faltante. Voltei pra sala e minha suspeita se confirmou: ele me olhou e  o fuzuê voltou imediatamente, apaixonadíissimo. ..

…pela presilha de borboleta no meu cabelo. Sad, very sad.

img-thingPS: Isso tudo aconteceu aos 2 meses de idade. Hoje, aos 3, mãe, filho e pai andam apaixonadíssimos, numa felicidade de dar inveja a qualquer propaganda de margarina colesterol zero. O complexo de Edipo se confirmou e a borboleta dançou.

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