Arquivo do mês: fevereiro 2009

Toda coerência é, no mínimo, suspeita

Hoje acordei toda Chiquenta, li Chico, pensei Chico e escutei Chico Buarque. Então lá vai, escrita em Londres, 2004 no finado http://bobbyemlondres.blogspot.com/

O Chico de Toda Mulher

Descobri que toda mulher brasileira tem um ciúme  doentio do Chico Buarque de Holanda. Na verdade, você depara com algumas evidências desta ciumeira descontrolada quando é ainda bem novinha. Adolescente, confessa a mãe que acha esse moço, o Chico, bastante interessante. A mãe, contrariada, ja vira com essa “Chico…hahaha…Chico…Que foi? Eh intima agora, pra chamar o Chico de Chico?” Ali, voce ja ve que tem coisa. Comigo, pelo menos foi assim. Minha mãe sempre deixou bem claro, em meio a seus discos de vinil, que conhecia, compreendia e amava aquele homem bem mais do que eu.  

Em meio a multidão que aguardava para ter seu livro Budapeste autografado, os suspiros e comentários eram parecidíssimos, aqueles que se escuta desde sempre. “O unico compositor que entende a alma feminina”, “Ele conhece uma mulher como ninguem”. Esta senhora brasileira atras de mim, tentava explicar, em inglês que o Chico compusera uma canção somente com proparoxitonas. “Diz que a única mulher que ele realmente amou foi a Marieta”. Depois vinham os comentários sobre o problema com a bebedeira, tudo acompanhado de suspiros, porque até alcoolismo e cãibra, no Chico, pega bem. 

Não sei como diabos ele lida com isso. Sim porque é como se o infeliz tivesse nascido com excesso de mãe, irmã e amante. Tinha tudo pra ser viado, se você pensar bem. Eu não sei o que de extraordinario você tem que fazer/ter/ser pra que um homem desse te ame. Eh como comprar presente pra criança que ja tem tudo. Pensa que você, primeiro, tem que ser super super-especial, que é pro homem não morrer de tédio. Lembra que ele ja conhece a alma feminina, a sua, a da Patricia e a da Leucadia. Você vai ter que acrescentar algo, minha filha, olha ele bocejando só de pensar em você. Segundo, vai aprender a lidar com a dor de cotovelo de uma nação inteira. Sim, porque você ja é inimiga oficial das leitoras de Claudia, Casa e Cozinha e Ponto Cruz. Se vira, meu bem, vereadora nunca mais.

Mas que é bom se imaginar como a oficial do Chico, ah isso sim. Porque ninguem quer trepar com o Chico Buarque, é isso que os homens não entendem. Chico Buarque é homem  pra casar. Eh o homem pra sair na foto, porta-retrato na mesa do trabalho, três por quatro no carro, preto-e-branco no chaveiro e em todos os lugares visiveis pelas leitoras de Claudia, Casa e Cozinha e Ponto Cruz.  

Todos estes delirios me fizeram esquecer da longa fila e quando vi, la estava o maior par de olhos azuis do Universo. Num ímpeto daqueles, e se foi ímpeto é porque foi impensado, eu viro com a voz bem impostada e aguda e mando: ” CHICO, EU TE AMO.” Ele sorri seu sorriso numero 12 e diz, “COMO?”. Merda, vou ter que repetir. Gritei, desafinada “TE AMO MUITO!”. Ele não poderia ter sido mais doce, diante da minha total falta de classe “MUITO OBRIGADO, MINHA QUERIDA.” Ai pensei, meu Deus, é oficial, estamos dialogando. Ai, eu, que sou uma pessoa que não sabe quando enough is enough, resolvi continuar. “EU SEI QUE VOCE DEVE OUVIR ISSO MILHARES DE VEZES, MAS UMA A MAIS, NAO VAI FAZER MAL” Me arrependi instantaneamente, foi pessimo. Poderia ter teminado no “te amo muito” e saido, misteriosa, em câmera lenta… Ele, mais uma vez lidou com minha falta de compostura “NÃO, NUNCA EH DEMAIS…AINDA MAIS VINDO DE UMA MULHER LINDA COMO VOCÊ.” Era oficial, eu era, em meio aos livros e ao cheiro forte de Channel N.5, a mulher mais feliz de todo o Reino Unido e Brasil juntos. 

E tambem a mais odiada. Os murmurinhos comecaram de imediato e, ate a senhora simpatica do sotaque escoces, me olhou com desdem. Descobri que havia quebrado o codigo. Havia rompido o fluxo, desrespeitado a lei que reza que o Chico nao eh de ninguem, e deveria tratar a nos todas de maneira igual – com uma leve preferencia pelas mais velhas e com filhos no colo. 

Teve uma, menos paciente, veterana, provavelmente da turma da minha mae, que veio atras de mim quando fui comprar uma cerveja. O marido tinha passado os ultimos quinze minutos de olho no meu decote e ela nao tava nem ai. Se aproxima de mim na fila, cutuca o meu ombro e manda “EH, SO VOCE, ESPERTINHA. SO VOCE.” Tentei, eu sei, todas nos. Mas ela continuava: “PENSA QUE EH SO VOCE, NAO EH? VAI PENSANDO. SO VOCE, GAROTINHA.” 

Foi assim que eu resolvi ir embora sem o autografo. Ja tinha tido o que merecia, quem era eu pra querer registrar, de caneta bic, o meu tratamento preferencial. Sem fotos e sem autografos, fui forcada a deixar o teatro londrino. Fui acompanhada ate a porta por um par delas. Ja mandaram uma mais fortinha na escolta, que era pra nao ter resistencia. Nem olhei pra tras. Pensei em ligar pra minha mãe, mas ela ja deve estar sabendo. A instituição eh organizada e hoje em dia elas contam com a rapidez da Internet.

Enquanto isso no mundo das corujas…

Aprendi a mexer no i-movie. Daí não resisti, juntei toda minha corujice interior  e fiz isso ó:

 http://www.youtube.com/watch?v=Ikp1p2ztxJ4

E by the way sabem porque somos chamadas mães-corujas e não mães centopéias ou guaxinins?  

A resposta está em uma fábula portuguesa, que se passa  entre a coruja e a águia. E vou te contar, que águia mais filha-da-puta descuidada essa aí.

Disse a coruja: 

— O águia, se vires uns passarinhos muito lindos em um ninho, com uns biquinhos muito bem feitos, olha lá não os coma, que são os meus filhos!

A águia prometeu-lhe que não os comeria; foi voando e encontrou numa árvore um ninho, e comeu todos filhotes. Quando a coruja chegou e viu que lhe tinham comido os filhos, foi ter com a águia, muito aflita:

— O águia, tu foste-me falsa, caloteira, vagabunda,  porque prometeste que não me comias meus filhinhos, e mataste-nos todos!

Diz a águia:

— Eu encontrei uns pássaros pequenos num ninho, todos depenados, sem bico, feios pra diabo, e com os olhos tapados, e comi-os; e como tu me disseste que os teus filhos eram muito lindos e tinham os biquinhos bem feitos entendi que não eram esses.

— Pois eram esses mesmos, sua vaca, disse a coruja.

 

— Pois então queixa-te de ti, que é que me enganaste com a tua cegueira.

                                                               xxx

E eu aqui tentando me convencer a contratar uma babá. Eu hein, vai que o Noah não faça o tipo dela..

eu, édipo e o complexo de borboleta

Meu filho se apaixonou por mim. E já não era sem tempo, visto que eu já vinha sofrendo de amor não correspondido desde nosso primeiro encontro, lá na sala de parto.

Sério. Olhei pra ele e pimba, caí de amores.  Mulher de malandro total, né, pois o pequeno não se comovia muito, não. Me olhava por um segundo e já desviava o olhar pra algo mais importante e significativo, como o pano de louça, por exemplo. Maridão tentava me consolar, dizia que a emoção em me ver era tanta, que ele não suportava e tinha que rapidamente se distrair com outra coisa. Sei.

Claro que de todas as pessoas, verdade seja dita, a mãe é a primeira que ele reconhece. E era só o que me faltava ser diferente, já pensou?  9 meses de prisão de ventre e o pequeno sai da barriga dizendo “papai, que bom, você por aqui!”

Mas reconhecer não quer dizer morrer de amores.  Ele até te acha bacaninha, principalmente porque você é a portadora daqueles respeitáveis peitos,  estes sim, dignos de amor incondicional. Mas é só.

Bom, pelo menos até hoje.

Já notei pela manhã, fui tirá-lo do berço e ele olhou pra mim e arregalou os olhos, apavorado de amor. Dali em diante me seguiu com seu  olhar Edipiano, o dia inteiro. Deixei ele no carrinho, no meio da sala, só pra testar e era isso mesmo:  lá estava ele, todo faceiro, me encarando e dando gritinhos de felicidade. Uma sensação maravilhosa e – convenhamos  – merecidissima.

E foi por isso que eu achei estranho que, quando saí do banho e fui lá jogar um charminho,  ele me ignorou completamente, entretidíssimo com a parede vermelha da sala.  A parede vermelha da sala, pra quem nao sabe, foi o grande amor dele, durante o primeiro e segundo mês de vida. Só tinha olhos pra ela. Até que um dia, acordou com a pá virada, e deu o pé na bichinha. Triste, mas bebês são assim, meio instáveis mesmo.

Mas amor de filho certamente há de durar mais do que um simples flerte com uma parede terracota??? Inconformada, fiz o que podia pra reconquistar sua atenção: pulei, cantei, dancei, tudo pra mostrar que mãe legal eu era,  “olha, filho, sem as mãos!” E nada. Resolvi trocar de roupa, pois como sabem, os bebês têm lá suas preferências. Vestido colorido, por exemplo, geralmente  agrada.

Suepersticiosa que sou, vesti exatamente o que vestia pela manhã, momento em que ele caiu de amores pela Jocasta que vos fala. Ele até me deu um sorrisinho simpático, mas nada que o distraisse  da sra maçaneta. 

Foi aí que a ficha caiu. Eu estava vestindo o mesmo outfit da manhã, exceto por um detalhe. Arrasada, fui até o espelho e recoloquei o item faltante. Voltei pra sala e minha suspeita se confirmou: ele me olhou e  o fuzuê voltou imediatamente, apaixonadíissimo. ..

…pela presilha de borboleta no meu cabelo. Sad, very sad.

img-thingPS: Isso tudo aconteceu aos 2 meses de idade. Hoje, aos 3, mãe, filho e pai andam apaixonadíssimos, numa felicidade de dar inveja a qualquer propaganda de margarina colesterol zero. O complexo de Edipo se confirmou e a borboleta dançou.