Daquilo que não se pode ver

Faltam dois dias. Dois dias para que eu seja oficialmente chamada Mrs Ferec. Será apenas uma formalidade, já que a união – de corpo e de alma – já se concretizou. Seja pelo amor e respeito recíprocos, seja pelo fato de que, em breve, estaremos vivendo sob o mesmo teto. Sem mencionar a maior evidência de todas, evidenciazinha essa que não para de me chutar a barriga.

A nossa história é linda, bem pouco convencional, e começa em um avião. Nos conhecemos em um vôo da Tam, graças aa fase desastrosa que atravessava a aviação brasileira: ele acabou sendo re-acomodado justamente no vôo em que eu estava. Não fosse a greve dos controladores de vôo e a bagunça desse país, nossos caminhos provavelmente não teriam se cruzado. Deixa a revista da TAM saber disso.

Lembro de uma noite fria em Londres, dessas de muitas divagações, chá e chocolate, em que Fru, Bia e eu filosofávamos justamente sobre isso, inspiradas pelo filme  Sliding doors, que acabávamos de assistir. O filme não tem nada assim de tão especial, mas traz duas versões da vida de uma mesma pessoa tivesse ela entrado ou não naquele vagão, daquele metrô, naquele instante. Vale a pena assistir, se você, como eu, já testemunhou que em um segundo tudo pode mudar. Pro bem e pro mal.

A minha vida sempre foi um pouco assim. Há 15 anos atrás eu decidi que era hora de me despedir da ingenuidade sulista e mudar para São Paulo. Munida daquela coragem herculana, própria de quem ainda não conhece as regras do jogo, eu tentava transferir minha faculdade pra capital paulista.  E apesar de nunca ter almejado tanto alguma coisa, e, diferente do que me prometia a Xuxa, meu querer é poder mantra não funcionou. Não num primeiro momento – recebi exatos 7 nãos, de 7 universidades diferentes e sai chorando de todas elas, feito Maria de Fatima na novela Vale Tudo. Mas qual o que, minha sorte virou! O destino, com pena de mim, gentilmente preparou mais um daqueles encontros e eu acabei por sentar ao lado da pessoa certa, na hora certa (curiosamente no aeroporto e de novo por causa de atraso de vôo…ê carma). Enfim, a pessoa era poderosa, bem intencionada e me agilizou a sonhada transferência. Graças aquela boa alma e ao destino que me sentou perto dela eu acabei por viver 8 anos em minha querida SP. E minha vida mudou para sempre.

Mas voltando a nossa histoire d’amour. Trocamos poucas palavras no avião. Poucas palavras, muitos olhares. E o email, claro, pois não há Universo/Destino/Acaso que consiga trabalhar direitinho se o sujeito não facilitar.

Era novembro de 2006. Voltei pra Londres, ele ficou no Brasil e me mandou o seguinte email, Assunto: Adoro os controladores de vôo.

Oi Roberta,
Adorei viajar e conversar com voce. Alias pela primeira vez agradeco os controladoresde voo que atrasaram minha saida de sp e que possibilitaram nosso encontro.
Vc tem um lindo sorriso que vem de dentro e ilumina os que estao a sua volta.
Adoraria te rever.
Mil beijos e boa sorte nas obras da sua casa.
Francois
————————–

Ao que respondi:

Olá, você! Pois é. Você vê que até atraso de vôo, fila, chuva, telefone ocupado e unha incravada têm um lado bom, né não? Só basta a gente perceber e não deixar passar batido (…)Também adorei te conhecer, Fran. Quem sabe não nos cruzamos em um dos quatro cantos desse mundão?!Estou por aqui. Mantenha contato, cuide-se e não desapareça em um veleiro qualquer.

Roberta

Ficou um sentimento estranho e bonitinho no coração. Hoje sabemos que, alguns dias após trocarmos aqueles emails, uma das coisas mais surreais aconteceu. Ele foi aa França no feriado de Natal/Reveillon encontrar a família, com quem seguiu para uma cidade fofíssima chamada Les Gets, onde, pasmem, Robertinha aqui coincidentemente também estava! Se você observasse de cima, veria um tristonho de um lado, o outro cabisbaixo do outro. E é bastante provável, que num vilarejozinho daquele tamanho, que faz Altinópolis parecer megalópole, nós tenhamos entrado no mesmo café, sentado perto um do outro, sem termos nos visto. Ora, o destino sabe o que faz! Como eu estava acompanhada, se tivéssemos nos visto lá, naquelas circunstâncias, talvez nunca mais fôssemos querer nos ver. Tô falando, o destino, que é homem barbudo, sabe o que faz. Sentou e pensou “não, aqui não, aqui não é a hora nem lugar”.

Confesso que não trocamos mil emails. Mas tampouco nos perdemos de vista. Talvez porque sentíamos que aquele encontro na aeronave havia sido mágico. Indeed.

Bom, quando vim ao Brasil em 2007, um ano após termos nos conhecido, avisei ao moço bonito que estaria aqui e adoraria vê-lo. Marcamos de nos encontrar no aeroporto de salvador (yep, a Rainha da Infraero). Eu tinha certeza que ele era do bem, mas mesmo assim avisei a moça do salão de beleza do aeroporto que passaria em frente e faria um sinal, pois ela assim saberia quem me matou, se me encontrassem na Lagoa do Abaeté, morta e de havaianas.

Tudo fluiu perfeitamente, como haveria de ser. O encontro, o local, a energia, tudo. Fui pra ficar três dias e trazer cocada pra mim mãe. Fiquei 22 e trouxe um neto na barriga, ao invés. 

Claro que foi um susto geral. Mas, no fundo, os dois sabiam que haviam sido escolhidos a dedo, que isso era coisa pensada, que era trama do barbudo. Essa criança, nosso filho, é prova do milagre que são os encontros inesperados, promovidos por essa força do Universo. O encontro entre duas pessoas que nunca deixaram de acreditar no amor e nos sinais que a vida nos dá. E pra todos aqueles que, ainda assim, insistem em acreditar na tal da Coincidência, segue a mensagem que eu enviei ao celular do François dias após termos nos encontrado, muito provavelmente no dia em que nosso filho foi gerado:

“Nossas almas estão felizes, brincando  faceiras, nos espiando de cima.  O universo, que sempre esteve a nosso favor, também ri satisfeito. Ele e o destino comemoram a façanha: o encontro de duas almas que se pertencem. “Mais uma vitoria”, sussuram os dois, enquanto degustam bom vinho, lá do alto da arquibancada.”

 François, meu amor, quero que nosso filhote um dia saiba de como tudo começou. E que ele entenda que nossa pequena família somente existe porque mamãe e papai seguiram seus instintos. E acreditaram naquilo que não se pode ver.

Love you loads.


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5 Respostas para “Daquilo que não se pode ver

  1. Testando testando. Seus comentarios tao pooooodres!

  2. Funcionou! Mas eu perdi um comentario imenso q tinha postado antes e o sistema podre apagou!! =(

  3. Se vc engravidou em 2007 e seu filho nasceu em Novembro de 2008, a conta ta errada!!

  4. Pingback: Who let the dogs out? « Piscar de Olhos

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