e tatuar o nome do filho, pode? da série “run, natasha, run”

Eu sei que ainda falta uma reforminha aqui, outra ali.

Mas não está ficando um pitelzinho esta residência? Hein?

E a ilustração, que espetáculo?! Quem fez foi a Lu Azevedo, aquela fofa talentosa.

Fofa, talentosa e paciente.

Porque, né, haja paciência pra atender esta cliente mala que vos escreve. Sabe o tipo de pessoa que quer uma ilustração onde o marido figure como Tarzan? Viajando de cipó de um país ao outro? Sem muito fru-fru, que frou-frou não combina com o estilo do blog, meio palavrãozento?

Enfim, a Lu é o cara: rápida, talentosa, tem um preço bacanérrimo e um filho lindo de morrer. Recomendo super. Depois conto mais sobre o blog e outras novidades bloguísticas. Vontade de contar já, mas ainda está no forno (não, gente, eu não tô grávida).

***

Mudando de assunto:

Meu filho é rapaz desfraldado.

E, putz, esse foi o desfralde mais rápido, inodoro e sem traumas que qualquer mãe desfraldadora já testemunhou. O processo se deu assim: primeiro ele pediu pra tirar a fralda. Dia seguinte comprei meia dúzia de cuecas, uma caixa de lexotan, um penico e me despedi da Pampers, aquela vazada ingrata. E foi isso, fim da história.

A partir daí não houve uma vez sequer que ele não tenha pedido pra ir ao banheiro fazer o business dele. Nenhuma.

Sério, desfralde de novela.

Mas antes que comecem a me chamar de nojenta, metida, desgraçada, esnobe, mulambenta e de outros adjetivos fofos que atribuímos às mães que se gabam de suas maternidades perrengue-free (aquelas cirigaitas do “meu filho seeeempre dormiu/comeu/mamou/cagou/acrescente aqui alguma outra mentira”), deixa eu lembrá-las que isso não veio de graça – eu sei que vou pagar caro por esse desfralde tranquilo.

Porque a mãe natureza, minha gente, trabalha por créditos.

E a verdade é que eu estava CHEIA de créditos a receber.

A saber:

– Meu filho não dormiu a noite inteira até os 16 meses de idade, dezesseis vezes trinta e uma noites na merda, me questionando se algum dia nessa vida eu saberia novamente o que é dormir. Tenho amigas desgraçadas cujos filhos começaram a dormir a noite toda com, tipo, 5 dias de vida.

– Meu filho não comia um prato inteiro até pouco tempo atrás, tipo, ontem. Tenho amigas nojentas cujos bebês batiam pratão de arroz e feijão com, míseros 7 meses de idade.

– Meu filho sofreu com cada um dos 102 dentes nascidos. Tenho amigas mulambentas que nem perceberam a dentição: foram dormir, acordaram e os filhos estavam lá, já com um bocado de dente na boca.

De onde se pode concluir que um desfralde manso e sem problemas é mais do que merecido e foi crédito conquistado.

Um cinegrafista amador registrou o momento em que papai e mamãe natureza discutiam o caso em questão.

– Essa moça ali já passou o cão, diz papai natureza. Filho não dormia, filho não comia. Posso dar uma aliviada no desfralde?

– Tá bom, alivia – responde a mamãe natureza. Mas os créditos dela terminam aqui. E ela que se prepare que eu vou mandar uma adolescência bem cabeluda.

– Vai mandar primeira nora bem ruinzinha da cabeça, é?

– Yep. Daquelas que arrotam, colocam os pés no sofá e gritam: “tiaaaaaaa, tem refri?” E o filho dela vai ficar amarradão. E vai tatuar o nome BIA nas costas. Não, Bia, não. Manda NATASHA que é nome mais longo, daí a tatuagem vai de ombro a ombro.

***

Falando em tatuagem, ando cheia de vontade de me tatuar.

Sério. Sabe quando coroa acorda toda Susana Vieira, achando que tem 18 anos?

Daí perguntei pra três amigas-mães-não-virtuais o que elas achavam da idéia de eu tatuar o nome do filhote no tornozelo. A resposta foi gritada, num uníssono: Não faça isso, sua louca!!!

– Pensa, Roberta, tatuagem com nome do filho!

– Imagina quando ele tiver uma namorada!

– E ela souber que a mamãe do namoradinho dela tem o nome do rapaz atrelado ao tornozelo!

– Vai te chamar de louca e desaparecer da vida dele pra sempre!

Então eu fechei os olhos e imaginei a tal Natasha fugindo do meu filho pra todo sempre, após ter reparado no tornozelo tatuado da sogra. Realmente não faz o menor sentido esse negócio de mãe tatuar o nome do filho.

(Vou marcar a tatuagem pra amanhã. Goodbye, Natasha.)

***

E pra não dizer que não houve nenhum acidente desfraldoso, tivemos dois episódios: um na escola, onde ele passa as manhãs, e um com a mamãe aqui. Devo salientar que ambos acidentes ocorreram por culpa EXCLUSIVA dos adultos envolvidos.

No primeiro acidente Noah pediu pra fazer XIXI e a professora achou que ele estivesse dizendo XIE XIE, que significa “obrigado” em mandarim.

Tá? Fiquei com uma pena do meu bichinho. Cheguei em casa, escrevi xixi e cocô num papel e entreguei pra professora, pra que ela lembrasse como que se mija em português (ô classe), até que ele se acostumasse a pedir pra ir ao banheiro em inglês.

No segundo acidente a culpa foi minha. Era o terceiro dia de desfralde e sabe quando a sua cabeça ainda não raciocina como cabeça de mãe cuequeira? Pois é. Estávamos eu e filhote em um Café, quando meu telefone tocou. Era o entregador de alguma coisa, falando sobre detalhes da entrega, horário, endereço.

– Mamãe, mamãe!

– Filho, a mamãe tá no telefone.

-Mas mamãe…

– Shhhh, Noah, mamãe tá no te-le-fo-ne.

Daí ele não aguentou esperar pela bruxa mãe e fez xixi ali mesmo, no chão.

Tá? Fiquei com uma pena do meu bichinho.

(Depois o rapaz cresce, se apaixona por pessoa que atende pelo nome de Natasha, tatua o nome da moça nas costas-ombro-a-ombro e a mãe fica se perguntando onde errou.)

***

Voltando ao lance da tatuagem. Quando Noah nasceu, a enfermeira foi logo dizendo:

– Sortuda você. Menino escorpiano é suuuuuper apegado a mãe. O meu filho Marco Aurélio, por exemplo: tá com 45 anos e ainda mora comigo. Namorador que só ele, mas não deixa a mãe sozinha de jei-to-ne-nhum. Fica só enrolando as namoradas, sabe como? E olha que ele é bonito, tem um escorpião todo bordado no braço… Aliás, não é porque é meu filho, mas..

E eu só ali, com a cria no peito, mega high em ocitocina, tentando decifrar aquele monte de previsões horóscopo-enfermeirais.

Pensamento lento, primeiro me veio a cabeça o tal Marco Aurélio e sua tatuagem de escorpião. Depois lembrei de outros dois escorpianos que eu conhecia, que…peraí…também tinham escorpiões tatuados no braço!!

Lembro direitinho que eu pensei :

“Carai, não vai ter jeito. Um dia esse bichinho ainda vai me aparecer em casa com um escorpião enorme tatuado no braço esquerdo. Porque se-to-do escorpiano faz isso, ele não vai ser diferente.”

E Noah continuava a mamar, a enfermeira a falar e eu a divagar:

“Bom, tudo bem, vai. Tatoo de escorpião é OK. Mas ó: que NUNCA me apareça de sunga amarela e nem branca”

(Please não me façam explicar os motivos de minha antipatia para com as sungas claras. Mas é que sunga clara é transparente, e acaba dando aquele efeito meio “bagunçado” na parte dianteira. A transparência da sunga dá um efeito meio acumulado naquilo tudo, percebe? Uma coisa meio sem eixo, sem norte, sem eira.)

Filho meu NUNCA vai usar sunga que deixe transparecer as partes acumuladas. E cofrinho aparecendo, então?! Soy contra, muy contra!

pagando a língua: agora só falta o escorpião tatuado no braço (e a NATASHA nas costas, ombro-a-ombro)

s1: Mas no fundo eu ainda prefiro que ele tatue o nome da namorada nas costas. Que tatuar mamãe no peitoral não dá, né moçada? (juro que já vi isso na praia…)

ps2: mas e mãe? pode tatuar nome da cria? pode? pode?

malandro que é malandro… já nasce falando inglês

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Quando eu era pequena, eu não fui à Disney.

Ir à Disney nos anos 80 era tão caro, mas tão caro, que eram raríssimos os casos de crianças que iam passar férias por lá. Porque não bastava seu pai ter dinheiro: ele tinha que ter dinheiro E ser bacana o suficiente pra acreditar que havia algum sentido em queimar um Corcel II inteirinho só pra filha tirar foto do lado de um rato orelhudo, de nome Mickey Mouse.

Para ir à Disney uma vez por ano, seu pai tinha que ser rico e legal. Pra ir pra Disney 2 ou 3 vezes por ano, como fazia a menina Alessandra, seu pai tinha que ser o Pateta em pessoa.

***

Alessandra era menina viajada e ia pra Disney como quem ia pra Santos. De suas viagens ao “estrangeiro”, Alessandra trazia os brinquedos mais incríveis que os anos 80 viram passar.

Uma das muambas mais concorridas era um tal de um estojo, cheio de botões e compartimentos. Aquele troço fazia tanto, mas tanto sucesso entre as crianças, que Alessandra tinha que organizar uma FILA, durante o intervalo, pra que todos tivessem a chance de apertar UM botão do estojo gringo.

"quem quiser apertar um botão, faça fila aqui!"

***

Sempre que retornava da Disney, Alessandra voltava falando inglês. Era o pessoal tentar furar a fila estojal, que a menina gritava STOP, PEOPLE! Daí o sujeito terminava de apertar o botão (e só podia apertar UM botão), e Alessandra gritava NEXT!

E, ai, como eu achava chique a pessoa falar inglês.

Nessa idade, eu pensava que nunca, nunquinha nessa vida de meu deus, que eu ia aprender a falar inglês. E eu tinha meus motivos pra acreditar que meu destino seria morrer falando somente português, a saber:

1. Eu não viajava pra Disney. Aliás, eu só viajava mesmo era pra casa da minha avó, que ficava a uns 30 km da minha casa. Imagina, 30 quilômetros! Alessandra sempre dizia que a Disney ficava a milhares de milhões de quilômetros da escola e que por isso ela sempre dormia no avião. E eu fechava meus olhos e ficava imaginando que aquilo sim era uma viagem legal: uma viagem tão longa, mas tão longa, que a pessoa chegava a ter sono, dormia, comia (comida aviãozenta), fazia xixi e aprendia inglês, tudo sem sair do avião! Bem diferente de viajar no chiqueirinho da Caravan, comendo biscoito de polvilho e parando no Texaco pra fazer xixi.

2. Eu não tinha nem mãe nem pai gringo, como era o caso da Mariana. A Mariana era a melhor amiga da Alessandra, claro. As duas zanzavam de mãos dadas pra lá e pra cá, best friends de-tu-do, como elas diziam. A Mariana chamava o pai gringo dela de DAD. E se havia alguma coisa que eu realmente achava elegante no mundo, era a pessoa falar inglês com o próprio pai.

3. Minhas aulas de inglês na escola nunca seriam suficientes pra que eu aprendesse inglês. Não que o professor fosse ruim, acho até que ele era esforçado. O problema é que eu sofro de um caso crônico de dispersão, geralmente desencadeada por fatores externos, que estão além do meu controle. No caso do professor, o problema era a porra do cabelo dele, que era formado por  vazios carecas nas laterais, cachinhos rebeldes na parte de trás e  três pontas arrepiadas, que faziam sombra na parede. A sombra do cabelo do professor ia se desfigurando, formando os mais bizarros desenhos. E eu tentava me concentrar, “concentra, burra, concentra”. Mas no fundo eu sabia que nunca que eu ia aprender todo um idioma estrangeiro, enquanto distraída por figuras psicodélicas na parede, advindas do cabelo de um professor, que era versão cinquentona do Cebolinha.

Eu precisava de um plano.

***

Um dia eu encontrei um livro na Biblioteca da escola, todinho escrito em inglês.

Ele tinha um cachorro na capa e era daqueles livros que eu considerava inteligentes, posto que continha frases bem longas e pouquíssimas figurinhas. A ponto de eu realmente não ter idéia se o cachorro era feliz, triste, ou se era um gato travestido de cachorro.

Agarrei o livro, preenchi a ficha da biblioteca e levei o bichinho comigo.

“Pronto. Achei um jeito de aprender inglês. Me aguarde, Alessandra”.

O que eu não sabia, até então, era que andar com um livro em inglês nas mãos, trazia algo infinitamente mais legal do que aprender inglês em si. Andar com um livro escrito em inglês dava a falsa impressão de que você, de fato, já sabia inglês.

Coleguinhas, professoras, porteiro, moça da cantina – o povo todo olhava, via a palavra DOG na capa e sorria, impressionado.

Se eu quisesse tirar onda mesmo era só sentar lá fora, durante o recreio, levar o livro à altura do peito, abri-lo e, a cada página,  soltar expressões variadas  (risos, surpresa, tristeza, risos.)

E quem precisa de inglês, quando se nasce com tamanha cara de pau?

***

Até que um dia eu resolvo fazer o ritual dentro do ônibus escolar: abre o livro, vira a página , expressões variadas (riso, surpresa, tristeza, risos).

– Como se você estivesse entendendo alguma coisa, hahahahhaaha.

Viro pra trás e lá estão elas, as duas representantes oficiais da língua inglesa no mundo, propagadoras da cultura anglo-saxônica no hemisfério sul, temíveis perseguidoras das farsantes idiomáticas, como eu. Sim, em unha e carne, Alessandra e Mariana.

– Aposto que você não entende uma palavra que está escrita aí, Roberta – diz Mariana.

– E se não entende, tava rindo do que, hein? – pergunta Alessandra.

Então eu levanto e faço aquilo que toda criança corajosa faria,  diante de uma situação DEMOLIDORA de reputação feito essa: pego livro, mochila e a pouca dignidade que me resta, me dirijo até a porta do ônibus e, sem olhar pra trás, desço4 pontos antes do meu.

Lá de longe, ainda dava pra escutar o parzinho gritando BYE BYE!! pela janela do busão.

***

Noah está se saindo cada vez melhor no inglês e, segundo a professora, age como se entendesse tudo o que lhe é falado.

Mas é claro que o que ele entende são coisas cotidianas, da escola, do playground. Eu não espero que ele entenda um noticiário ou uma conversa entre dois adultos.

Por exemplo: no elevador do nosso prédio. Quase sempre rola um bate-papo informal com os vizinhos. E a conversinha de elevador é obviamente em inglês, o que impossibilita que Noah entenda muita coisa.

Considerando que ele é o filho da mãe dele, qual vocês acham que seria a reação do rapaz, por não entender patavinas do que está sendo falado.

Ele:

a. Chora. Esperneia. Como é triste não entender o que esse povo fala! E, deprimido, se joga no chão do elevador.

b. Fica puto da vida dele, telefona pro Conselho Tutelar e diz que tem o direito de saber sobre o que conversam os adultos, principalmente dentro de um elevador. Exige um tradutor e um advogado bilíngue.

c. Não entende porra nenhuma, mas fica mega atento à cada reação dos participantes da conversa: se os adultos riem, ele também ri, só que ri alto, exagerado, jogando a cabeça pra trás e batendo palma, feito foca.  Se os participantes da conversa, ao contrário,  conversam de maneira séria e fazem cara de espanto, ele imita, abre os olhos arregaladíssimos e ainda solta um OH MY GOD.

o palhacinho do elevador, dizem os vizinhos

e quem precisa de inglês, quando se nasce com tamanha cara de pau?

*foto do estojo chei’de guéri-guéri tirada daqui

eu não sabia que estava grávida

Desde aquele meu post sobre a amnésia pós-parto que eu venho recebendo um bocado de email (tipo, 2) me perguntando se eu tinha embarrigado. Daí me senti na obrigação de vir aqui e dizer que não, cumadis, eu não estou grávida.

E quando eu estiver, worry not! Vocês serão os primeiros a saber. Até porque esse é o tipo de coisa que eu não consigo esconder. E quem consegue, gente?!

Bem…as moçoilas do “Eu não sabia que estava grávida” conseguem.

O “Eu não sabia que estava grávida” é um programa da Discovery Home & Health que trata, claro, de gente que pariu sem nem desconfiar que estava grávida.

Por mais que eu tente, eu não consigo, não POSSO entender um troço desse. Minha Nossa Senhora do Teste de Farmácia, como raios pode alguém não SABER que está grávida?!! Nos primeiros três meses, vá lá! Mas ir pro hospital com contrações, aos 9 meses de prenhez, e dizer ao médico:

– Grááááávida, como assim??? Eu achei que tivesse sido a buchada do jantar que estivesse me fazendo mal!!!

Eis o episódio que assisti dia desses: a rapariga sentiu uma “dor de barriga” muito forte, foi pro banheiro, morrendo de dor e começou a fazer força pra…fazer cocô!

Cocô, galera, cocô.

Lá pelas tantas o marido vai lá ver o que está acontecendo e lá está a indivídua, de boca aberta, aos prantos.

E quem é que está dentro da privada? Adivinhem? Isso mesmo, o bebê.

O pior é que o casal fica naquela de “meu deus, não é cocô, é bebê, é bebê” e enquanto isso o baby fica lá, na privada, sozinho.

Bom, sozinho se formos bem otimistas, né, porque depois da força toda que ela fez, seguro que ele estava acompanhado do jantar da noite anterior. Jesus, perceba a atrocidade.

Tá, no final deu tudo certo, a surviver era uma fofa, linda de morrer, nascida a termo, sem sequelas e feliz. Feliz até que alguém, em um futuro nem tão distante, revele as exatas condições em que ela nasceu, literalmente na merda.

Pelo menos não dá pra dizer que ela não veio ao mundo de forma natural e “empoderada”, né verdade?

***

Lembro direitinho como foi que eu desconfiei que estava grávida do Noah.

Não, não foi o céu estrelado, ou uma brisa suave, ou uma música de fundo, nada disso. Foi um besouro, minha gente, um besouro que me fez ter certeza absoluta de que aquilo era gravidez.

Porque só uma grávida e somente ela poderia cair aos prantos ao ver um besouro virado de barriga pra cima. Eu chorava tanto que não conseguia nem ajudar o obeso besouro a virar de barriga pra baixo.

Então eu ficava ali, olhando, chorando e pensando:

– Coitadinho, vítima de seu próprio peso e desproporcionalidade corpórea.

Mal sabia, tolinha, que provaria, eu mesma e em pouco tempo, das agruras de tal desproporcionalidade corpórea.

***

No mais, Noah está numa fase de imitação tão, mas tão profunda, que eu me vejo em muitas das atitudes e coisas que ele diz. E, uia, como eu preciso de terapia.

Porque ele reproduz, com seus bichos de pelúcia, aquilo que vivencia com os pais, concorda?

Bichos enfileirados e ele inicia a sessão, em uma mistura de elogios e esporros.

Coisas do tipo:

– Muito bem, Pepe, comeu tudinho.

– Ai, como eu te amo, Jaca.

– Nossa, já sabe tocar violão!

Mas também coisas menos fofas, do tipo:

– Essa é a última vez que eu peço, Pepe: larga isso já.

– Não, Pepe! Depois sou eu que vou ter que limpar, né?

A pior, de longe, eu ouvi outro dia, enquanto caminhávamos às margens do rio. Noah vira pro Jaca, com quem anda a tira colo e solta essa:

– Jaca, no rio, não! Se você pular no rio vai afundar, os peixes vão te comer e você nunca mais vai ver a mamãe.

Eu sei, gente, eu sei. Mas alguém aí tem a fórmula de se viver sossegada quando se mora DE FRENTE pro rio, com uma criança de 2 anos e pouco? Hein?

Foi o que eu pensei.

e daí? peço penico?

Dia desses eu tive um sonho bizarro.

No sonho eu queria dar início ao temido desfralde, toda serelepe, munida de penico, adaptador e toneladas de paciência. Sento a cria no peniquinho e saio do banheiro.

Quando volto ele está sentado no penico, com um CHARUTO na boca e um JORNAL na mão. Vira pra mim e diz:

– Ai, mamãe, tô pronto pra isso não. Relaxa, deixa o tempo passar, deixa o meu esfíncter amadurecer e me procura de novo dentro de uns 6 meses. Combinados?

Acordei aliviada.  Noah nem completou 2 anos e 5 meses ainda, acabamos de mudar de país, ele está aprendendo inglês e mandarim ao mesmo tempo, está distante da família…Pra que arrumar sarna pra se coçar, certo? Além do mais, sonho de mãe há de ser prenúncio, aviso, mandinga, macumba. Eu sonhei, tava lá, o cara não tá pronto. Ponto.

Vírgula.

Desde a semana passada que o rapaz me olha, tira a fralda e pede, por gentileza, que eu faça algo a respeito.

Um cinegrafista amador filmou o momento em que a família conversava, despretensiosamente, sobre os dedos feios da Cuca (do Sítio), quando o pobre bípede fraldado anuncia, em alto e bom tom, que a fralda está machucando e que ele quer fazer cocô no banheiro, porra.

Machucando, entenderam?

E daí? Posso fazer que não é comigo? Sento e choro? Peço penico?

ps: o violão ainda está com a etiqueta porque eu acabei de ganhar, pô. Tá bom, tá bom, eu sou daquelas que deixa o plástico no banco do carro novo. Whatever.

ps2: há exatos 2 anos atrás, ele “desfraldou” pela primeira vez, e ói que caca.

a falta de memória pós-parto

Dia desses soube de uma colega que desenvolveu brotoejas láááá nos idos do nono mês de gestação. Isso mesmo: BROTOEJAS no NONO mês. Nono mês, amiga leitora, vulgo “o mês em que você perdeu a capacidade de amarrar o próprio cadarço”.

Pensei: Ora ora, se não vem a ser mais uma piadinha de mau gosto daquela ingrata daquela mãe natureza.

Lá estão mamãe e papai natureza, sentados, decidindo sobre a vida e as agruras das grávidas:

– Ela já tá no nono mês. Que é que eu mando agora?

– Já mandou azia?

– Já.

– Incontinência urinária? Andar de pinguim? Enjôos? Má digestão?

– Já. Já. Já. Já.

– Gases?

– Sim, e fiz questão de mandar gases corneta, com ruídos tipo-sopro-de-balão-esvaziando, que é pra que não passem despercebidos.

– Hum…umbigo invertido? Peitos doloridos? Manchas no rosto?

– Check. Check. Check.

– Ah, já sei! Brotoejas. Mande brotoejas.

– Ok, tô mandando.

– Excelente. E se a moça der mole e ficar grávida por mais umas duas semanas, mandamos… caspas e …já sei! Hemorróidas. Isso! Caspas e hemorróidas.

***

Eu sou a pior pessoa do mundo pra você perguntar sobre os tempos áureos da gravidez. Tive todos os sintomas, inclusive aqueles que só se ocorrem em 3% da população feminina do planeta.

Tive os sintomas corriqueiros, acrescidos de coisas esquisitas e raras, como veias no rosto que imitam formato de aranha.  Também tive veias verdes (?) na barriga, que pareciam cobras. Aranhas, cobras, veias – meu sistema vascular era um verdadeiro Instituo Butantan.

Em alguns momentos da gravidez eu tinha a sensação de ter engolido uma catraca de ônibus. Não pelo tamanho da barriga, mas pelo gosto de ferrugem na boca, blagh. Não demorou muito pra eu descobrir que o tal gosto metálico era mais um sintoma da gravidez, percebidos por apenas 1,5% das mulheres de uma tribo distante do pacífico.

Eu enjoei um bocado, mas não o suficiente pra sair vomitando. Afinal de contas, vomitar emagrece. E a mãe natureza tinha outros planos pra mim:

– Não deixa ela vomitar, não, senão ela não vai conseguir engordar os 22 quilos que eu tenho reservados pra ela.

Aliás eu já contei aqui sobre os quilinhos percebidos durante a gestação. Engordei tanto que pensei que o rapaz já fosse nascer todo adolescente. Mas eles nascem com uns 3 quilos, daí tem 2 quilos de água, mais uns 2 de placenta…todo o resto é banha e cara de pau.

Mas me redimindo sobre o excesso de peso da gravidez, eu tenho lá minhas explicações: engordei mais do que deveria simplesmente porque meu estado gravídico perdurou cerca de 42 semanas. O que me confere o título de gravidez mais longa da história.

E o rapaz ainda me nasce de cesariana. Cesariana, já ouviu falar? Aquela cirurgia onde te cortam SETE camadas de pele, músculo (?) e gordura, abrem o útero, retiram o bichinho e encerram a orgia bisturídica com uns 85 pontos.

Os pontos são internos, de modo a não serem vistos quando você usa biquini. E eu pergunto: quem é que tem coragem de biquini depois do embagulhamento coletivo das  7 camadas abdominais, me diz?

***

Bebê nascido e devidamente acoplado ao peito nos primeiros 5 minutos de vida. Perfeito, pelo menos algo deu muito certo!

Mais ou menos. Porque assim que ele dá a primeiríssima sugada, minha memória musical entra em transe, e me manda a seguinte trilha sonora:

“Do-na, desses traiçoeiros,

So-nhos, sempre verdadeiros (…)”

Tá?

Juro pelo meu filho.

Ali está você, diante do acontecimento mais incrível de sua tenra existência, seu filho degustando seu leite, respirando o seu espírito, dando origem a vida e tudo o que você consegue pensar é em DONA, do ROUPA NOVA.

Existe, ó mãe natureza, alguma coerência e justiça nisso tudo?

***

Mas olha só, nem todo mundo vivencia a gravidez dessa maneira. Conheço grávidas que tiveram tempos prenhes de dar inveja: não sentiram nada, engordaram nada, não tinham crises de mau humor.

Mas é claro, gente! A mãe natureza não é burra, ela faz  isso de propósito: escolhe umas poucas mulheres, faz com que elas se sintam ainda mais lindas, tranquilas e poderosas, e usa as pobrezinhas como garotas propagandas de procriação.

Tô falando, é  TUDO de caso pensado.

Porque se toda grávida passasse 9 meses de descontrole e celulite, quem ia querer um troço desses, me diz?!

Daí você pode me perguntar: ah, mas se gravidez é esse perrengue todo, então porque é que as pessoas decidem ter mais filhos?

Ora, pelo amor louco, que nasce junto com a cria.  Muito amor e muita falta de memória.

Com a palavra, ela, a mãe natureza:

– Já nasceu?

– Já.

– Ok. Então manda uns hormônios cheios de amor incondicional e paixão a primeira vista.

– Combinados com hormônios de amnésia?

– Isso, amnésia, muita amnésia. Daquelas de fazer esquecer até hemorróida.

***

E já que estamos falando de esquecimento – hoje é meu aniversário.

Quem sabe a mãe natureza me mande uns hormônios de esquecimento, pra modo de eu esquecer as noites mal dormidas, os perrengues de toda sorte e os pitis da cria e me preparar  para- quem sabe – um segundo round gravídico.

Quem sabe.

 

o buda e o michael jackson

E vocês acham que eu não sei que isso não se faz?

Sumir assim, de maneira tão foragida, surrupiada e misteriosa?

Sim, porque não há desaforo mais desalentado nessa vida de meu deus que evadir-se dos seus, deixando porra nenhuma de pista de seu paradeiro.

O cumadis, perdoa, vá.

Mas é que nesse momento há tanta, mas TANTA vida lá fora, que eu me recuso a ficar aqui dentro.

Nem foi tanto tempo assim desde a última vez que a gente se falou, mas de lá pra cá muita coisa sucedeu, a saber:

Noah está na escola e eu sou mulher depilada e fresquinha de tu-do.

Vida semi-organizada, casa semi-mobiliada e pernas devidamente depiladas, comecei a vagar por aí. Dia desses juntei toda minha faceirice e fui numa lojinha chinesa comprar umas quinquilharias xingui-lingui.

Chegando em Chinatown, vi esse templo budista lindo de chorar e resolvi dar aquela entradinha curiosa. Ali me deparei com um monge (tão ou mais depilado que eu) que veio em minha direção, sorriu aquele sorriso mongístico, me apontou um incenso de cheiro adocicado e me falou uma meia dúzia de palavras fofo-tibetanas.

Saí de lá leve, com a existência impregnada de incenso adocicado, feliz e espiritualizada e, flutuando, entrei na loja da esquina, que vendia os budas mais lindos que eu já vi.

Eu fui pra Chinatown em busca de quinquilharias xingui-lingui. Voltei de lá  matriculada no Yoga, decidida a levar a meditação a sério e com um Buda do tamanho de uma criança de 1 ano embaixo dos braços.

(o que me leva a suspeitar de que, além de doce, aquele diacho de incenso dá  um  barato for-tís-si-mo, vai por mim).

se te chamarem de doida a gente põe a culpa no incenso, tá mamãe?

***

Eu já vinha me enveredando nos caminhos da tal meditação desde que ainda estávamos no Rio. Nenhum motivo especial. Só achei que ser mãe estava me deixando doida, muito doida demais e que, por ser a maternidade tão intensa, tinhosa e barulhenta, ela estava acabando por me ensurdecer. Eu precisava ficar em silêncio pra poder ouvir as vozes que residem o fundo do fundilho dos meus pensamentos. Sim pessoal, as vozes. Num ri, não, vá.

Daí pensei: já que a vida me mandou pra Asia, que é o berço da meditação, então bora comprar um Buda estiloso, calar a boca por alguns minutos do dia e perseguir o sonho de ser pessoa mais centrada e misteriosa. Porque, né, se até a Madonna que já cuspiu na estátua da Virgem Maria e beijou a boca da Britney Spears consegue, então porque não eu?

Do que se pode especular dois desfechos a longo prazo, a saber:

Desfecho número 1:

A meditação, o yoga e um bocado de incenso adocicado surtem efeito e eu me livro de todas as neuras, preocupações, TOC’s e culpas, chegando ao patamar máximo de iluminação e vida plena. Elimino, completamente, a carne da minha vida. Compro um gato, o qual passo a chamar Dalai Lama e, uma vez por ano, me jogo num daqueles retiros na India, onde como lentilha e vegetarianices em geral, medito e faço voto de silêncio durante 15 dias seguidos.

Desfecho número 2:

Assim como abandonei a natação e o boxe, eu abandono a meditação e viro piada aqui em casa.

– Papai, lembra aquela vez que a mamãe comprou um buda do tamanho de uma criança de 1 ano e trouxe ele pra casa, de metrô?

– Hahahahaha, lembro, filho. Ela cismou que ia meditar todos os dias até o final da vida dela, que durou só dois meses, ô vida curta.

– Hahahahaha, foi na mesma época em que ela resolveu que o gato ia se chamar Dalai Lama, ói que original. O manhê, cê já voltou a comer carne ou vai esperar a libertação do Tibet antes? Hahahahahaha.

E os dois se acabam de rir, enquanto eu, de cabeça baixa, divido minha picanha nada vegetariana com o gato Dalai Lama.

de metrô: filho num braço, buda no outro

***

Mas não foi pra falar de mim que eu vim aqui, não. Queria dizer que tenho lido todos os blogues comadrentos e compadrentos- comadres da velha guarda e as que vem surgindo por aí. Aliás, caraca, quanto blog novo. Quero muito fazer uma atualização dos blogues amigos, mas me falta coordenação pra realizar esse tipo de trabalho burocrático. As vezes eu acho que quem precisa de uma babá sou eu.

Mas falando do que interessa, Noah está muito bem, obrigada. Fica na escola até as 2 da tarde e volta pro colo da mamá, onde permanece até que a última lâmpada se apague.

Muita gente já tinha me alertado, mas nunca na minha vida que eu ia acreditar que em tão pouco tempo o rapaz já fosse me sair com tanta palavra estrangeira no vocabulário. E tanto orgulho assim cabe num coração de mãe, gente? Tô me achando pessoa mega importante e desenvolta, quando o mérito é, na realidade, dele e somente dele.

Macaco virou monkey, desculpa virou sorry e rio virou RIVA. Distribui hellos por onde chega e bye-byes por onde sai.

Dia desses me olhou, apontou pra pia e disse:

– MOCHORRENDS, mamãe, MOCHORRENDS.

Levou coisa de 3 dias pra eu entender que o rapaz tava era, de fato, me mandando lavar as mãos (repita em voz alta WASH YOUR HANDS, e repare na semelhança fonética, please).

monkeys são amigos

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Enfim, a escola. Na turma dele tem uma japonesinha linda de morrer, uma boneca de porcelana, que, ave maria, desenvolveu uma paixão precoce e turbulenta para com a pessoa do meu filho. Sei disso porque além de mãe sou mulher:  percebo sentimento mal intencionado de longe.

Em comum eles carregam a expatriação: os dois saíram da pátria que chamavam de sua e foram apresentados a esse mundo de meu deus. Um fala português, a outra japonês; Ele adora dançar, ela curte mesmo é um quebra-cabeça. A mais meiga leitura de Eduardo e Mônica, versão nipo-brasileira (quem lembra de eduardo & mônica, levanta a mãozinha!)

Daí que outro dia fui buscar o pequeno e a bonequinha japonesa estava chorando. Me chamou a atenção a maneira peculiar e silenciosa com a qual a garota chorava: as duas mãozinhas na frente do rosto, ela balançava o corpo pra frente e pra trás, soluçando, bem baixinho.

Pensei “Sorte é da mãe dela que não passa vergonha enquanto o filho berra e se joga no chão do shopping center”.

Passado um tempo, Noah me pediu algo, eu não dei e ele foi pro quarto dele. Achei esquisitíssima aquela ausência de piti e fui atrás: lá estava ele, sentado no chão, mãozinhas segurando o rosto, chorando silenciosamente.

Nisso marido entrou no quarto e disse “chega a ser bonitinho..”

– Bonitinhoooooo?? Tá louco, amor??? O rapaz vai crescer TODO repreendido, TODO cheio de minhoca não extravasada na cabeça, TODO Michael Jackson, deus o tenha?! E daí quando ele crescer e o terapeuta concluir que é TUDO culpa da mãe repressora, é você que vai pagar terapia, viu? A dele e a minha.

E a louca continua:

– Filho, pode levantar já daí e dar piti. Põe pra fora, grita, extravasa, roda a baiana, filhote! Eu, hein!

a culpa é da mãe, aquela repressora de emoções

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Tirando a garotinha que chora baixinho, todos os outros amiguinhos da escola são porra loucas iguais a  meu filho, então certeza que ele está em ótima compania.

Porque não importa de que parte do mundo ela seja, criança de 2 anos é criança de 2 anos. Crianças dessa idade dão piti, tiram a gente do sério e são imensa e completamente adoráveis, com suas tiradas, declarações de amor e constante alegria de viver.

E talvez tenha sido essa a razão do meu sumiço: eu fiquei com medo de piscar os olhos e perder isso…

happy chinese new year!

Juro que a partir de agora estarei mais presente. Toda centrada, espiritualizada, mas sempre do fundão.

Esse post é dedicado a todas as fofas que me pediram sinal de fumaça, explicitamente, por email, por comentário ou em pensamento, em especial a Luciana, Robertinha, Patrícia, Paloma, Lia, Flavia, Carol, Dani, Paula, Thais, Cynthia, Tchella, Marcia, Mariana, Thaty, Kamila, Jussara, Rachel, Marycea (que leu o meu último post, mostrou pro marido, os dois se inspiraram e resolveram parar com a pílula – acredito que isso me autoriza a ser madrinha virtual do rebento, então?). A todas que me deram força no post de chegada a Cingapura e, em especial, a uma outra mãe do fundão, leitora que eu ADORO, dona de alguns dos comentários mais cômicos deste blog – Regina Tavares. A imagem da sua filha cantando Agonição de Amor me fez passar mal de gargalhar…porque raios você não nos presenteia com um blog, hain menina?

notícias de cingapura

* aviso ao leitor: este post contém palavras de baixo calão, linguagem chula e escancarada apologia ao errado, ao imoral e ao politicamente incorreto.

E eis que das cinzas ela renasce, feito Fênix de tetas,  MORTA de saudades, gente bonita!

Daí resolvi mandar filho e marido pra piscina e resumir um pouco do que aconteceu desde a última vez que a gente se falou. Então senta, coloca as crianças pra brincar com  massinha e põe a skol pra gelar, que lá vem história.

Da viagem

Reza o Código Internacional de Viajantes que:

Um lugar é considerado longe pra caralho distante quando, pra chegar nele, o sujeito tem que enfrentar 2 vôos longuíssimos, 20 comissários de bordo, 6 pilotos, 8 malas, turbulências moderadas e perrengues incontáveis, que envolvem uma criança de 2 anos, uma mãe descabelada e um pai tentando evitar, sem êxito, que referida criança enfie o dedo indicador na narina do passageiro ao lado.

O homem que teve o nariz invadido ficou fulo da vida dele e eu não tiro a razão do passageiro – afinal, existem mil maneiras mais agradáveis de ser acordado do que com um dedinho bisbilhotento na narina da gente.

Por outro lado, nem acho que a intenção do filhote tenha sido azucrinar o alemão, não. Arrisco dizer, inclusive, que o objetivo de tamanha bisbilhotagem era puramente estético, já que, de avantajadas narinas, brotavam pêlos de tamanho bastante significativo. Na boa, até eu fiquei com vontade de dar uma podada na juba nasal do rapaz.

Parece boa pessoa, mas é um pinçador profissional de narinas

Da chegada

Nós decidimos dividir o trajeto Rio-Cingapura em duas partes : primeiro voamos do Rio a Paris, onde passamos 5 dias.

uma paradinha em paris pra ver família e usar gorro de tigre

Mal nos adaptamos ao fuso horário francês e já era hora de embarcar pra mais um vôo longo, dessa vez pra Asia. Minha Nossa Senhora do Guaraná em Pó, que gastura.

Só sei que, no final, chegamos em Cingapura as 19:00 – horário local, o que significava MEIO DIA no horário dessa mãe exausta que vos escreve. Até que acomodamos as 8 malas no nosso apart-hotel e tal e coisa já eram 21:00 no horário local, 2 da tarde no nosso relógio biológico. Pensei, vou tentar:

– Noah, olha só, eu sei que você tá acordadão, mas aqui já são 9 da noite, hora de dormir. A gente vai ter que fazer um esforço e ir pra cama agora, tá bom? Assim, amanhã a gente acorda em horário local adequado. Combinado?

Ele nem respondeu nada, só fez que não com a cabeça. Mas eu sei que, se já tivesse idade pra expressar exatamente o que pensa, o rapaz daria uma gargalhada colossal,  e me diria:

– Claro, sua lunática, claro. Vou guardar toda essa minha energia de pessoa de 2 anos e 2 meses e ir dormir, só pra você ficar feliz e satisfeita. Não quer que eu escove os dentes também, maluca?

Só sei que deu DUAS da manhã (umas 6 da tarde pra gente) e estávamos os três lá, deitados na ponte de um parque qualquer, olhando pro céu e conversando. O que me dá raiva é ter certeza absoluta que em algum momento alguma mãe passou, nos viu deitados na ponte, cutucou o marido e falou:

– Agora olha praquilo e me diz, Arnaldo Jin Huan Lan, o que faz uma criatura irresponsável daquela, que me traz uma criança pra rua às 2 da manhã, pensar que tem o menor talento pra ser mãe, me diz?

Que mãe é mãe, não importa em que continente ela esteja.

A Cidade

– Amor, vai me dizer que você também não acha estranho?

– Estranho o que, Roberta?

– Essa perfeição toda, isso tudo é muito esquisito, amor! Pensa comigo: a cidade é linda, limpa, organizada, cheia de atrações infantis, extremamente segura, a comida é maravilhosa…Tudo parece muito perfeitinho, François! Alguma coisa deve estar muito errada e eu vou descobrir o que é. Ah, vou.

-Neurose.

– Que? Quem?

– Neu-ro-se, o nome da doença é neurose. E diz que só cura com acompanhamento médico.

Deixa ele me chamar de louca que eu não ligo, não. De hoje em diante, minha nova missão de-vi-da é descobrir que raios há de errado nessa cidade.  Porque cer-te-za que alguma estria, unha encravada ou celulite ela há de ter. Deixa comigo.


Falta de Paciência

Já tem um mês que filhote e eu estamos, evidentemente, grudados um no outro 24 horas por dia. E num hotel, ainda por cima, já que ainda estamos buscando apartamento.

O lado negativo de ficar tanto tempo junto é que a paciência fica inversamente proporcional ao tempo em que vocês estão grudados.

Exemplo: ontem ele decidiu que jogaria seus peixinhos de plástico na privada. Quando eu entrei no banheiro, virou pra mim e disse “essa é a piscina dos peixinhos, mamãe”.

Então vejamos o que diria uma mãe de espírito elevado, dotada de paciência e pernas depiladas:

Meu filho, mas o que é isso?! Eu entendo a associação que você fez, uma vez que este vaso sanitário pode sim remeter a uma idéia de piscina de seres pequenos, como são estas réplicas de peixinhos. Mas entenda que esta água não é limpa e pode acabar trazendo doenças. Vamos lavar bem as mãos?”

Agora vejamos o desfecho da mesma cena, desta vez por uma mãe cronicamente estafada, pernas  peludas e cutículas saindo pelo ladrão:

“Caralho, Noah, a mão na privada não! Vamo já lavar essa mão antes que você pegue uma difteria, uma febre tifóide, uma malária, uma conjuntivite e a porra toda. Mas que merda, filho!”

Adaptação

Pois o filhote já fala hello, bye bye e thanks. A melhor amiga dele, aqui no hotel, é da Finlândia, vejam vocês. Eu não tenho idéia de como raios eles dão conta, mas os bichinhos se comunicam, brincam, trocam segredos e combinam de brincar mais amanhã.

Cingapura é composta, em grande parte por estrangeiros, muito europeu, muito americano, enfim são milhares e milhares de gringos, que, como nós, vieram parar aqui em terras asiáticas a trabalho.

melhores amigos, eles se comunicam em piscinês

Noah sempre empresta seus brinquedos pra um garotinho suíço, pouco mais velho que ele. Dia desses o suíço finalmente trouxe um brinquedinho pra piscina e Noah foi brincar um pouquinho com tal bonequinho do amigo suíço. O suíço não gostou e arrancou o brinquedo das mãos do filhote. Vocês acreditam que a mãe suicenta, mesmo sabendo que o filho dela brinca com os brinquedos do Noah TODOS OS DIAS, pediu pro meu filho devolver o bonequinho muito do paraguaio, porque esse era o brinquedo favorito do filho dela???

Ai, na hora pensei tanto em vocês. Arranquei o brinquedo do Noah, devolvi pro suíço e disse assim pra mãe dele:

– Eu entendo isso de brinquedo favorito, não se preocupe. O jacaré com que seu filho sempre brinca também é um fa-vo-ri-to do meu filho, mas sou EU que insisto que ele empreste, que aprenda a dividir.

(tudo isso dito com ar desaforado, mãozinha na cintura, ao melhor estilo “suburbana-versus-gringa”)

Alguns minutos depois o suicinho já estava pegando os brinquedos do filhote de novo.

Então vejamos o que diria uma mãe de espírito elevado, dotada de paciência e pernas depiladas:

“Filho, não guarda rancor e empresta o seu brinquedo pra ele. Assim você ensina pro menino que dividir é legal.”

Agora vejamos o desfecho da mesma cena, desta vez por uma mãe cronicamente estafada, pernas  peludas e cutículas saindo pelo ladrão:

“Filho, corre lá e arranca o jacaré da mão daquele moleque. Que nem fodendo que aquele projeto-de-mão-de-vaca-suíça vai brincar com suas coisas”.

Mãe Amiga

Outra consequência de se ficar grudada na cria 24 horas por dia, todos os dias, é que vocês passam a ter código e condutas que só melhores amigos possuem: risada de porquinho, concurso de arroto, linguagem própria. Este último vale um post, e aconteceu de maneira bem natural: do nada começamos a arrancar a última sílaba das palavras.

Estou na cozinha e digo “Noah, quer um pouco de su?” E começamos a rir. Então ele vai pra piscina e grita “socô, socô”. E a gente se acaba de rir. Mamãe virou mamã, cadeira virou cadê, suco é SU, socorro é socô. Hoje de manhã ele ampliou nossa linguagem secreta, chamando chafariz de chafalá (vide vídeo).

Noah também deu pra compor músicas com uma batida meio gospel, digamos assim. A letra me remete a uma mistura de música evangélica com A metade da laranja, de Fábio Júnior, e diz assim:

“Agonição, agonição, agonição

De amor, de amor”

Eu registrei essas e outras maluquices nesse vídeo. Isso que dá passar o dia inteiro a la grudê.

Um bom ano pra nós todos, gente bonita.